
DOIS MONÓLOGOS E
Engolindo a madrugada
Escorreu na minha língua
Um licor de dependência
Despencando da retina
Que me olhava devagar
Um calor insuportável
Me abraçava em despedida
E o dia foi lidando de maneira objetiva
Com quem mora neste bar
Engolindo a madrugada
Enquanto ela nos engole
Ela finge que me ama
E me consome
Engolindo a madrugada
Enquanto ela nos engole
Ela finge que me ama
E me consome, e me engole, e me cospe
Da boca pra fora.
Bóia triste a fé de um homem
Em copo americano
Enquanto a noite vai rasgando
As entranhas de um estranho
Que parou de respirar
Na espinha corre fria
Uma raiva incontrolável
São disparos da violência
Que tomava de assalto
Minha vontade de gritar
Engolindo a madrugada
Enquanto ela nos engole
Ela finge que me ama
E me consome
Engolindo a madrugada
Enquanto ela nos engole
Ela finge que me ama
E me consome, e me engole, e me cospe
Da boca pra fora.
Terminal
Escrevo isto de primeira
Num lar bem longe daqui
Onde o mapa da cidade
É o risco
De uma pulsação cardíaca
Aqui, sentado na poltrona
16A do ônibus
Vou sentido uma paz
Que eu nunca havia sentido
Sonhando com as coisas
Que me faziam melhor
E que hoje dormem
Quietinhas na caminha
D’um silêncio que parece
Um bebê roncando
Lento
Na poltrona 20C
Estou pensando
Em levar você comigo
Nos labirintos produzidos
Pela bomba vermelha
E azul do coração
Estou pensando
Em largar a vodka
E tomar só coca-cola
Ou melhor, suco natural
Nos verões
Estou pensando
Seriamente em “escrever
O meu caminho com você
A quatro mãos”
Comendo um misto
Com chocolate quente
Esperando você me chamar
Para o final
Da nossa primeira viagem
De carro
Juntos.
Blues do guardanapo
Foi num antro destes por aí
Que você me disse “larga, sai daqui”
E eu chorei quando riram de mim
Um poema tão ruim
Que eu fazia num papel de bis
Com a certeza de um final feliz
Pois sabe como é
Poeta só anda a pé
A espera de um milagre na rua
E à noite eu durava dias
Perdido em toda menina
Que brilhava ou explodia muda
Num poema necessário
Que se escreve em guardanapo
Para limpar a boca
Mas a voz tá tão fudida
Que a sua própria vida grita
“fica na tua!”
Piano - David Sartori
Clarinete - Sérgio Albach
Percussão - Luciano Madalozzo
Violão e voz - Alexandre França
na rua
diria algum morador da sua cabeça
eu diria que este poema
hoje não vira música
por que é ao mesmo tempo
muito fácil e constrangedor
se ferir em praça pública.
os cães domesticados
do nosso bairro
vão um a um latindo
cada vez mais alto
a cada passo da chuva
a cada chute no ar
a cada pedra rolada
dos nossos sapatos
até que uma sinfonia dramática
de desespero e buzina de carro
tome conta dos nossos tímpanos
mas
por que os vira-latas imundos
de noites mal dormidas e chutes na bunda
dormem tranqüilos em seus latões
de lixo, em suas casinhas de papelão
em seus becos ensopados de medo
e angustia?
“espere o momento certo”
diria algum morador na sua cabeça
é mais difícil morrer
sozinho
do que morrer
na rua.
Mercadoramama
(Troy Rossilho, Octávio Camargo, Alexandre França e Luiz Felipe Leprevost)
tô aqui
no silêncio do apartamento
esperando você chegar
de sacolas
com as coisas
coisinhas
as compras do mercadoramama
pra criança que vai acordar e
a cerveja que não vai gelar
neste freezer
de uma noite tão quente
bacana e com pizza
eu e você e o bebê
a chorar
buabuabuabuabua
sem parar
buabuabuabuabua
e o bebê
buabuabuabuabua
inda
tô aqui