Piñero (2001)
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Blues Curitibano
quarta-feira, maio 31, 2006
Piñero (2001)
terça-feira, maio 30, 2006
domingo, maio 28, 2006

sábado, maio 13, 2006
A Deus
Dei um adeus a deus
Pra depois o encontrar assim,
De igual pra igual,
Tete a tete,
Olho no olho.
Tenho cá pra mim
Que ele, após cair em si,
Vai me explicar tudo,
Tim tim por tim tim.
E neste dia,
No vai e vem das idéias
Dos ideais e dos desejos,
No calor da conversa
Que haveremos de ter,
Viveremos, por fim,
Um momento sublime.
Ele, como todo deus que se preze,
Seguro de suas belezas
E eu, na condição de errante,
Duvidando das suas certezas.
Ulisses Galetto
sexta-feira, maio 12, 2006
quinta-feira, maio 11, 2006
quarta-feira, maio 10, 2006
Blog do Alexandre Nero.E por falar em grupo Fato, acabei de receber a notícia no orkut de que o Nero está com um blog na área. Eu já entrei e é muito bom, tem inclusive um texto de apresentação do Luiz Felipe. Vale a pena conferir. Eu já disponibilizei o link logo ao lado.
Então, aí vai:
UM CURITIBOCA DE FORA
A mão esquerda está caída. É como ele desmunhecasse. É um cacoete de estilo (se é que estilo tem cacoete e cacoete tem estilo). A mão direita segura o microfone. O quadril e as pernas se movimentam, e é o suficiente pra alguém pensar “Nossa, ele rebola!”
É, ele é um cara que canta. Canta rasgado. Timbre de tenor. Atitude de roqueiro. Ele é o cara que me disse “Existe uma técnica pra gritar assim e não ficar rouco, mas eu não sei qual é essa técnica.” Ele tem o suingue de um não-curitibano (os curitibanos não têm suingue). Então o que é essa porra que ele tem, que todo mundo confunde com suingue? É o balanço de um maluco que se transformou em CURITIBOCA (assim mesmo com caixa alta). (Vou até repetir) CURITIBOCA, ou seja, sujeito que mente ser introvertido, que mente ser frio, que mente ser metido, que mente ser CURITIBOCA, pra no fundo ser introvertido, frio, metido, CURITIBOCA enfim. Veja, é o mesmo princípio daquele poema do Fernando (isso, o Pessoa) no qual ele diz que “O poeta é um fingidor” etc e tal (o resto você já sabe). Taí, o CURITIBOCA é um fingidor. Esse cara, malandro, não é CURITIBOCA, mas finge que é CURITIBOCA, e então acaba sendo CURITIBOCA. Sacou a jogada? Ser para não ser, não ser para ser, tudo para ser e não ser (e assim por diante, sempre).
Certo, alguém deve estar pensando “Mas o termo CURITIBOCA é pejorativo.” O sujeito que está pensando isso, é o verdadeiro CURITIBOCA (ou o falso... caralho, já não sei). Acontece que esse maluco sobre quem estou me referindo (o tal cantor) descobriu muito facilmente que numa cidade como a nossa, numa cidade chamada Gélida, só se é possível ser CURITIBOCA.
Outro tópico: As pessoas dizem que eu e esse cantor somos parecidos. Que temos personalidades parecidas (Talvez porque sou o maior dos CURITIBOCAS. Que saco!, não consigo parar de usar essa maldita palavra CU... Pára!). Sem dúvida somos mesmo dois vaidosos, talentosos, inteligentes etc e tal até o infinito. Mas as semelhanças ficam por aí. Se eu fosse um chato que só pensa em trabalho, que é extremamente profissional; se eu fosse muitíssimo original, e ainda soubesse ganhar dinheiro com arte (Lembrem do ensinamento do mestre: Só pode pedir dinheiros pro produtor “cultural” quem faz com que o produtor “cultural” tenha lucro; e isso é mais velho do que caranguejo andar para todos os lados e afundar no lodo); se a mulherada toda quisesse dar pra mim; se eu fosse um poço de genialidades, grandes sacadas, e incontáveis contradições; se e fosse casado com uma atriz gostosa e talentosa pra caralho, que todo mundo queria beijar, amassar, fazer bilu-bilu; aí sim eu seria parecido com essa cara. Olha, vou dar a real. Eu nem devia escrever esse texto porque tô puto com o cara sobre quem esse texto fala (Tá ouvindo aí? Você mesmo, que nunca musica meus poemas sem desconstruí-los, decepá-los, tá ouvindo? Então se toca!).
Eu não sei vocês, caríssimos leitores, mas sempre achei furado esse papinho de artista, que diz “Ai eu me prostituo porque tenho que comer, sustentar família etc e tal e etc até a vaca ir pro brejo.” Pra esses eu digo plagiando a música (Pausa. Grito) “Artista é o caralho!” Agora, se nego vai continuar com essa porra de “Sou artista mas tenho que comer, fuder, ir ao shopping, fazer novela na Globo, jantar no Ilha da França com o Antônio Fagundes etc e etc e etc.” Aí eu sou obrigado a alertar “VOCÊ NÃO É ARTISTA!” Sabe o que eu penso? Eu penso que “ARTISTA NÃO COME, NÃO TEM FAMÍLIA, NÃO TEM CACHORRO, NÃO TEM DINHEIRO, NÃO TEM MAMÃE NEM PAPAI, ARTISTAS PAGAM O PREÇO!” Hum, não gostaram? Não era isso que você queria ouvir? Foda-se. Vou dizer “NÃO SOU ARTISTA, NEM ESSE CARA SOBRE QUEM ESTOU FALANDO É, NINGUÉM QUE EU CONHEÇO É!” Tudo bem, me explico melhor: Esse “conceito” de artista acabou. Artista era um Van Gogh, um Nijinski. No século 19 havia ainda artistas. No 20 eles começaram a desaparecer. No 21, meu bróder, viramos todos ESPECIALISTAS. É o tempo dos ESPECIALISTAS. E olha que existem ESPECIALISTAS geniais. Assim como existem CURITIBOCAS geniais. Esse cara sobre que estou falando, ele é um ESPECILISTA CURITIBOCA genial. Ele é um cara em que a frase “Me prostituo porque tenho que comer, tenho que me vestir, tenho que freqüentar o Clube” não soa de maneira pejorativa. Porque ele não é um artista, mas um ESPECIALISTA CURITIBOCA genial. Uma vez minha professora de marquetingue (Sim, os CURITIBOCAS ESPECIALISTAS geniais estudam marquetingue, tem que estudar marquetingue senão não se tornam CURITIBOCAS ESPECIALISTAS geniais) Essa minha professora deu a seguinte aula “Quem é bom se estabelece.” Eu levantei, dei boa noite, e nunca nunca mais encontrei aquela professorinha (até hoje acho que ela não se estabeleceu... bem, pelo menos nunca cruzei com ela ali pelo Largo da Ordem). Mas eu aprendi alguma coisa com essa minha professora.
Essa “teoria” de que ARTISTAS não existem mais.
Onde cheguei tendo aprendido tantas coisas? Cheguei até a seguinte opinião “Quem é vendido se estabelece.” Esse cara de quem falo, esse cara é um CURITIBOCA ESPECIALISTA genial VENDIDO. Sim, irmãos, deus é bom com alguns. Tudo bem, leitor, você está discordando de mim nesse momento (Você também “cara de quem estou falando” está discordando de mim). Mas vai dizer que um cara que toca violão pra caralho, com um suingue ducaralho, canta em três bandas ducaralho (super-contraditórias em suas essências), faz comercial de televisão, atua em peças de teatro (aqui me refiro a Lingüiça no Campo, ducaralho), faz performances, é cineasta experimental, cozinha bem, e motiva um escritor bom pra caralho a escrever um texto sobre ele, vai me dizer que esse cara não é um vendido ducaralho?
Vou expor um pouquinho mais da realidade pra vocês: 1º, sou apaixonado por esse cara; Segundo, ele adora trocadilhos (e com ele trocadilho tem peso de soneto); Sexto e décimo e ponto final, o lance dele é grana, e ele se prostituirá caso você pague bem. Parem de ser hipócritas, todo mundo aqui e aí e ali adora puta.
Então é isso, tá na hora de vocês conhecerem o Nero. Ouçam suas canções, seus poemas. Vá ver suas peças, seus desfiles no não-carnaval do Largo da Ordem. Procure por ele em Antonina e nos bares mais quentes de Gélida. Vire amigo íntimo do Nero, e você verá que ele não é tão metido, tão antipático quanto você pensava (mesmo que você nunca tenha pensado isso a respeito dele). (Mesmo que você tenha sempre o achado um doce, um fofo, um amor, um cara parecido com o Luiz Felipe Leprevost) Vá então confirmar que ele é tudo isso: um fofo, um doce, um bilu-bilu, um Luiz Felipe Leprevost. ATENÇÃO, invista seu dinheiro no talento de Alexandre Nero. Lembre-se sempre que ele é um CURITIBOCA ESPECIALISTA genial VENDIDO e contrate seus atributos. Isso faz dele um cara único, ótimo, sábado, proparoxítono. COMPRE JÁ ALEXANDRE NERO, COMPRE, COMPRE, COMPRE, seu cachê vale a pena, na insatisfação, seu dinheiro de volta, COMPRE, AJUDE A FAMÍLIA, AJUDE NERO QUEIMAR ESSA CIDADE, VAMOS BOTAR FOGO EM GÉLIDA.Alexandre Nero é um que sabe que “debaixo dessa neve mora um coração.”Ps. do final. Tanto o “ps” do começo como o “ps” do final devem ser publicados. Não esqueça. Não mude nada. Não edite. Se não couber no teu site, sinto muito, não entrará. Só coloque se for na íntegra. Se é um texto ofensivo, ofendido, defensivo, brutamontes, humilhante, nada disso importa. Esse texto é isso, nem menos nem mais. Inclusive os abraços, a assinatura, a data e o local, que escreverei em seguida, devem estar publicados com o todo. Abraços,
Luiz Felipe Leprevost
16/03/2006 – Rio de Janeiro.
(Luiz Felipe Leprevost é jornalista, escritor,ator, compositor e poeta. Autor dos livros "Fôlego" e "Ode Mundana")
segunda-feira, maio 08, 2006
seu beijo fala
e me interrompe sempre
quando vou fazer um verso bom.
seu beijo cala
e me constrange ante
a possibilidade de errar o tom.
seu beijo saca
e me dispara balas
e mais balas de hortelã.
e ele acerta
e avermelha o rosto
bem na parte
onde chamam de maçã.
sexta-feira, maio 05, 2006
escondo as suas bitucas
manchadas de batom aqui
no meu umbigo profundamente
infantil,
por que é minha agora
a respiração da fumaça,
assim como o seu novo toque de celular
e a nossa música não composta.
é meu o seu comentário
sobre a minha imaturidade e
sobre o clima de mofo da cidade.
são minhas as doses de pinga,
as doses de glicose da cor refrigerante lata
e da cor caipirinha.
é minha a bêbada do meu lado,
assim como você é minha,
por mais que as suas coisas digam
não.
quinta-feira, maio 04, 2006
não, eu não sou um ator.
sempre quis ser um, mas não,
a minha cara não consegue fugir de mim.
e eu não sou um cara comunicativo
antes, talvez mais palhaço,
mais alugado, mais chato,
inconfundível,
mas hoje não,
a minha voz não consegue fugir do peito.
e eu tenho raiva daqueles que vomitam palavras,
dos que riem alto,
isto me lembra adolescentes em excursão para a Disney.
eu odeio adolescentes e suas risadas
e o seu pleno bem estar com o mundo
e a sua vontade de "curtir o momento"
e a sua tristeza de shopping center.
não que eu nunca tenha tirado um sarro
de mim mesmo, mas hoje não,
a minha risada não conhece mais o que não é vingança.
e pra falar a verdade,
que bom que eu não sou um ator,
já que eu poderia muito bem
começar a carreira num programa
em que tudo acaba em risadas e adolescentes
rindo pra caralho das nossas caras,
mas não, eu não sou um ator
e o meu passado não conhece direito
tanta felicidade.
quarta-feira, abril 26, 2006
no final das contas
estaremos na mesma cidade-renite,
contando as mesmas histórias de sempre,
e com a nossa empáfia de sempre
acusaremos o T.S Eliot de bêbado.
diríamos coisas idosas do tipo:
"todo livro é útil por mais
que ele insista no contrário".
daí, certa hora ficaremos loucos,
como sempre ficamos em tantos costelões
e pediremos uma porção
com umas seis fatias de picanha gordurosa
e lembraremos de alguma frase de efeito
que o Tibério nos disse numa madruga qualquer.
colocaremos o Edson Falcão na vitrola,
sempre lamentando o fato dele não publicar mais poesia.
nos questionaremos "será que o Troy já casou?"
lembraremos do Thomas que, provavelmente,
ficaria resumido na frase "é, está bem"
e finalmente nos comparamos a algum poeta
que já possui uma cine biografia.
voltaremos com a mesma vontade de ir ao banheiro,
com o mesmo arroto ególatra de ter cumprido algum papel,
com um verso a mais na coleção de versos esquecidos,
com um arrependimento imbecil
de ter conhecido uma menina peitudinha,
com uma vontade de ir a um puteiro
e esquecer que um dia a gente se arrepende.
e dormiremos aliviados mais uma vez
ao lembrar que já fomos poetas um dia
e que achamos o final da noite uma bobagem
e que a morte, esta amiga sacana,
ainda não nos deu a sua carona final.
então foi você
que aprendeu a gostar do que é belo
do respeito, da amizade e das coisas do coração
e com o tempo aprendeu a escrever
cartas de amor, sonetos de amor, declarações
e mais declarações.
você que treinou
por durante anos no espelho
a falar "eu te amo" para a sua menina
a comentar com ela as suas preferências
seus sonhos, manias e virtudes.
você que agora sozinho
consome feito um louco
as porcarias que sempre gostou de consumir na infância.
você que agora as consome só de raiva,
pois sabe o mau que um litro de coca-cola
e dois tabletes de diamante negro
fazem para o corpo.
você que ouviu ontem à noite Nina Simone
e chorou ao ser ninado num berço
cheirando a cigarro e insônia.
você que descobriu ontem que
a sua namorada só disse que gostava de jazz
para o agradar.
você que ontem
mesmo sem um puto na conta
insistiu em pagar o motel.
você que finalmente se deu conta que
o que a garota do verão de 99 queria
era que você a descabaçasse.
você que hoje se masturba com a mente vazia
e de olhos fechados.
você que sozinho rumina angústia e saudade
ao ler antigas revistas pornográficas.
você que hoje prefere beber sozinho
a insultar o próximo.
à você, este bêbado no banco de trás do carro
eu apresento este estranho
chamado você.
domingo, abril 23, 2006
as pessoas têm dormido em portarias
em caros restaurantes, em almoços de família
com a família.
elas dormem em jantares de negócios
em filmes de quinta, em filmes de primeira,
em tecnicolor.
as pessoas têm dormido na avenida
na via rápida, no ponto de táxi, no ponto de ônibus
ou em qualquer ponto do mapa.
elas dormem em posições nada cômodas, acomodando nada,
sem nada incomodar, sem nada a perder ou a ganhar,
com tubos de insônia e apatia pelos buracos do corpo e da vida.
elas não falam, elas não gritam, elas não roncam.
elas dormem
por estarem sozinhas.
por acordarem sozinhas.
sozinhas.
sozinhas.
quinta-feira, abril 13, 2006
quem poderá saber que você
está assim?
E quem vai ouví-lo quando você
não conseguir dormir?
E que culpa as pessoas tem
de tudo isto?
Estarei ao seu lado, amigo.
Eu, um pedaço de sombra do seu passado.
Quem dita as regras da amizade?
Meu amigo doente, meu amigo,
você gostará de mim
mesmo que eu não morra contigo?
segunda-feira, abril 10, 2006
Eu falo de uma loira
com um tribal tatuado no braço
a ouvir summertime
escorada num quadro da Billie Holiday
com um ar de arrogância
para os que não escutam
os longos improvisos da banda.
eu falo que ela bebia
algo transparente com limão
a propagar a cor da sua mão
a criar asas escuras
por entre as raras impressões de alívio
que o bar suspira entre uma canção e outra.
eu falo do seu olhar
e das estrelas mortas que ele carrega
um firmamento aquoso
onde bóiam as noites de solidão
(eu bebendo algo barato por ela
e formando uma família inteira
de versos parecidos com a gente).
eu falo desta que queima
a minha visão com a sua acidez
por que tudo que chapa é ácido
e as cores de uma beleza ácida
possuem vida própria.
eu falo desta mulher
com quem não quero conversar.
prefiro conhecê-la assim:
ouvindo summertime
escorado num quadro do Chet Baker
com um ar de arrogância
para os que não escutam
os longos improvisos da banda.
sábado, abril 08, 2006
Durante anos
Amei a puta
Que tirou o meu cabaço.
Amava como nunca amei a mim mesmo
O seu corpo, a sua voz, o seu cabelo
E até o cigarro que ela
Gentilmente me roubou.
No fundo ela era uma noite
Na constelação das noites todas
E eu, um pau a mais que ela
Era obrigada a excitar.
Mas de uma coisa eu não esqueço:
O morto do olhar a procurar
O oco da mente.
A solidão que soluçava de repente:
“vem cá, baby.
Fica comigo abraçado mais 5 minutos.
Apague esta luz e feche a porta.”
Ali eu entendi
O que é amar sem pedir nada em troca.
quinta-feira, abril 06, 2006
Carta de amor ao Gerundismo
Gerundismo,
Estou amando cada vez mais
Você e esta sua dupla-hélice do “estar sendo”.
Você está me completando a cada minuto
E eu sei que a sua cara anda estando
Mais parecida com a cara do tempo
Do que as outras, no fundo.
Antes você do que outros vícios, como a ressurreição de línguas mortas,
Que os nossos preciosos vates tanto insistem em cometer.
Gerundismo,
Está chegando o dia em que gritaremos: “gerúndiooo!”
E arrombando portas, junto com as nossas amigas
“salada de pronomes, “repetição” e “rima em ar”
Estaremos comprando a briga dos vícios renegados
E assim viciando acadêmicos viciados em outras quinquilharias,
Estaremos tomando o nosso trago em qualquer esquina
E gerundiando sem a possibilidade de estarmos sendo incomodados.
Gerundismo,
Ando te amando assim: sujamente.
Te usando em versos em forma de coração
Embaixo de um teto de espelhos, entre uma
Ou outra declaração de amor.
Adoro estar enfiando o dedo nas suas terminações
E estar falando sempre deste jeitinho que não quer acabar.
Gerundismo, ah Gerundismo,
Você não precisa estar ficando assim tão triste.
Se eles não te usam mais,
Eles não sabem o que estão perdendo.
quarta-feira, abril 05, 2006
EM QUEM VOCÊ PENSA DURANTE O BANHO?
(Douglas Kim)
"Enquanto milhares de onanistas pensam em Scarlett Johansson refestelada em seu apartamento de 1,95 milhas em TriBeCa, penso na Lurdinha. A Lurdinha não foi abençoada com um tronco anglo-saxão, mas mancava levemente da perna esquerda. Deitado na cama, eu sempre pedia para a Lurdinha buscar um copo d’água, mesmo sem sede, apenas pelo prazer de vê-la andar. Sob seus pés, o quarto parecia um campo minado. Um pezinho aqui, o outro ali, uma bamboleada, ah, a glória!
Falando em glória, tinha a Glorinha. Ela não mancava, mas tinha um odor sui-generis em sua axila esquerda. Agora me dei conta que as duas eram de “esquerda”. Não, nada fétido, algo mais parecido com aquele famoso prato chinês de ninho de pássaro que comi, certa vez, em Xangai. É verdade, pensando bem, talvez não fosse paixão, somente banzo por Xangai.
Mesmo após a invenção da pedicure – a maior invenção humana depois da mulher barbada -, a Ritinha se recusava a cortar as unhas dos pés. Um Zé do Caixão do avesso. Aquelas garras raspando em minha perna faziam uma depilação natural. Nunca esquecia de usar meião quando jogava futebol, temeroso que meus companheiros descobrissem minhas pernas lisinhas, lisinhas, e me comparassem ao David Beckham.
A Marizinha tinha o olho caído. Não me lembro se era o esquerdo ou o direito, a memória me trai, as lembranças se embaralham nesse momento nuno-leal-maiano. Em alguns dias, parecia o Victor Mature tentando fazer cara de mau; em outros, parecia o Amaral, jogador do Palmeiras. Ambas as situações eram horríveis. Adorava assoprar aquele olhinho enquanto ela tentava dormir. Aquela pele vibrando como se fosse asa de graúna, saia de Marilyn Monroe. Fuuu-fuuu.
As mulheres da minha vida. Todas soberbas, apesar do diminutivo dos nomes. Isso tinha uma razão: como os politicamente corretos gostam de dizer, eram todas 'verticalmente prejudicadas'."
Alcoólicas
V
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
Hilda Hilst
segunda-feira, abril 03, 2006
eu recebo você como quem vai receber
a notícia "estou grávida".
é por que sempre você
me carregou para o seu mundinho meg ryan
e eu tive sempre a certeza
de que o meu mundinho pelo menos
não estava em liquidação na seção de dvd's
das lojas americanas.
até por que
o único ser em que
atualmente gosto de passar a mão na cabeça
é a velha pincher marrom aqui de casa.
ela odeia visitas
e odeia quem insiste em conversar
com cachorros.
sexta-feira, março 31, 2006
a me oferecer porções de salgadinhos e azeitonas em conserva.
alguém, que avisa pelo telefone que ainda me quer vivo,
pois hoje eu não atormentei os vizinhos, as despedidas de solteiro
e os postos de conveniências.
alguém aqui dentro me acha um vagabundo
e tenta convencer os neurônios que usam bengalas
e longas e proféticas barbas brancas
a não se acostumarem com os cenários e papéis
que alguns atravessadores, criminosos
e vadias de plantão me oferecem com um canivete suíço no punho.
eles estão em grupos de cinco para me pegar
aqui dentro, enquanto eu distraído
relembro a seção de cartas da minha curta trajetória.
eles são esquivos, escapam com facilidade dos dedos do sol
e à noite mordem a lua de sobremesa para na volta
se empanturrarem com a minhas mofadas descobertas.
eles riem da minha cara no escuro do estômago,
eles tomam leite com vodka para sarar a minha gastrite,
eles me chamam de alcoólatra quando não estou bebendo
e de covarde quando já estou bêbado.
alguém dentro de mim
quer que eu pense "me arreguei!"
"me dei bem", "sou foda pra caralho"
enquanto gota por gota, com um sorriso no rosto,
barba por fazer,
depois de apagar um Marlboro vermelho
este alguém friamente me escorre pelo ralo
terça-feira, março 28, 2006
...e que a força esteja com a gente.

"me fui" (quero ver quando eu gravar o violão deste pepino).

Gilson Fukushima dando uma dura nos guri.

Sandro Romanelli (violino), Guilherme Romanelli (viola) e Ivo Meyer (cello) dando um aspecto mais sinfônico para o disco

depois da maratona de gravações, pausa para o lanche.
Vina "afinando os tambores".

segunda-feira, março 27, 2006
eu costumava dormir
na fronha encardida de nicotina
depois de uma última dose de bebida com refrigerante
lençol amarrotado, iluminação precária
como um esmalte descascado verde-limão.
eu dormia e completava o dia com missas internas
de solidão e raiva
eu dormia em ventres e vulvas desconhecidas
e cheirava a suor e creme de menta
e cuspia conhaque e engolia o café de cerveja
e bolacha maizena.
eu dormia e me encontrava entre pernas não depiladas
mãos umedecidas e roupas íntimas ainda por lavar
sonhos de estrela nos pôsteres pregados na parede
e um mundo riscado a força
no piso de taco do quarto.
eu dormia de olhos abertos.
ao som de "fio de cabelo" no rádio e "try a little tenderness" na cabeça.
arrebentando os fios de eletricidade do cérebro
compondo versos para ninar prostitutas.
eu dormia de olhos abertos.
eu dormia de olhos abertos.
sexta-feira, março 24, 2006
Três poemas meus foram publicados na revista Máquina do mundo editada pelo poeta Carpinejar. Não tem desculpa, é para entrar no link mesmo!
na casa da Claudete
os cristos são descrucificados.
religiões são formadas,
reformadas e destruídas.
legiões e batalhões de idéias
são postas em sentido em versos
conservados em vodka.
na casa da Claudete
o marxismo também é tomado com coca-cola
o stalinismo cuspido pra fora da janela
e homero lido a marteladas
de mais ou menos 5.000 palavras.
na casa da Claudete
o incrível Hulk é um adorável covarde
o jantar é a luz de velas pela falta de pagamento
os mestres são amigos do peito
que carinhosamente
mandamos para aquele lugar.
na casa da Claudete
um uno mil pára no meio do caminho
e à pé buscamos o combustível
num posto da rua de baixo.
lá não se cala a boca, se fala mais alto.
lá, adormecer é um ato de revolta.
é uma pausa para a volta triunfal.
"aliás, a casa dela
definitivamente não é a minha"
foi o que eu pensei
a última vez que adormeci
num dos cantos
da casa da Claudete.
quarta-feira, março 22, 2006
e para minha surpresa, não é que ele publica no livro o poema que fizemos juntos em parceria com o Sérgio Viralobos (gente boa pra caramba...até ontem, eu não o conhecia pessoalmente). Achei do caralho isto e fiquei muito surpreso mesmo. Mais uma vez o Thadeu me surpreende. Wojciechowski, se estiver lendo este post, um grande abraço. Ah, vou reproduzir mais uma vez o poema aqui no blog para quem ainda não o conhece. terça-feira, março 21, 2006
a esquerda que eu conheci?
alcoólatras recalcados
que pelo jeito se deram muito mal na infância
invadindo espaços,
incomodando o que não é incomodável,
iludindo a vocação para otário
a esbravejar a palavra "revolucionário"
copiosamente, sem parar.
um clubinho de pessoas decadentes
a jogar um vôlei decadente
com as cabeças de figuras de direita
(que provavelmente estarão no poder nas próximas eleições).
se eu sou de esquerda?
sim, mas não da esquerda que eu conheci.
a direita que eu conheci?
uma fábrica de sabão neutro
pronta para implodir sujeira e restos
de gordura ideológica.
enfim, a pasteurização da hipocrisia.
uma fábrica de homens engravatados
com código de barras e três modalidades de fala:
"não fui eu", "não sei quem foi"
e "poderia me passar o adoçante?"
de direita eu nunca fui.
sobre a política?
a matemática da maquiagem.
a marcha fúnebre da plebe
em direção ao poço:
direita, esquerda, direita, esquerda
direita, esquerda, direita, esquerda...
domingo, março 19, 2006
andando sozinho à noite
por ruas e quadros
em preto e branco
você pensa em matar alguém.
sujeitos estranhos o perseguem
e você se lembra que "não mataria nem uma mosca".
você adianta o passo, eles passam por você
e não dão a mínima.
aí aquela velha falta de fôlego
volta à ativa.
seu pulmão, este novelo enrugado e medroso,
o faz suar e você esquece toda a reação de ódio
que um hipócrita pedante lhe causaria minutos antes.
as janelas das casinhas de madeira,
nas quais você um dia já sonhou em morar,
piscam as luzes como num sinal de alerta que carros
de último tipo dariam para ultrapassá-lo
numa br qualquer.
não há bares nesta região
e a única alternativa numa hora destas
é relembrar os detestáveis fatos do começo da noite
até que depois de 40 minutos
você chegue ao centro da cidade
aliviado e seguro.
finalmente
você entra e toma o primeiro copo
e descobre que não mataria ninguém
a não ser você mesmo.
sexta-feira, março 17, 2006
quinta-feira, março 16, 2006
o que você quer é dar um tempo,
desintoxicar o corpo,
olhar sem desdém para o espelho.
mas o que acontece
é você se rendendo às 2 da manhã
aos filmes de relacionamento feitos para tv.
o que você quer é beber menos,
aproveitar o dia, o sol e o movimento diário.
o que acontece é você
entornando dez vezes mais café do que antes.
e aí você brinca
de dar nomes de grandes produções para a sua vida:
"bird", "estranho no ninho", "despedida em las vegas", "adaptação", "de doze em doze horas".
aí você enlouquece ao escrever
as falas da sua rotina e canta.
abre as janelas ao amanhecer e canta
você quer que a situação se transforme num musical hollywoodiano
e canta
você canta sorrindo histericamente
por não saber o significado da letra em inglês.
o que você quer é a felicidade,
esta fábula que você escuta e acredita
antes mesmo de nascer.
o que acontece é você no meio da sala,
abraçado em você, com o choro preso na garganta,
a dançar lentamente "imagine"
no final da programação.
quarta-feira, março 15, 2006
terça-feira, março 14, 2006
Você sonhou que nós quebrávamos
uns dez caras na porrada
era cinco pra cada um
os que se metiam com você eu batia
os que me enchiam o saco você arrebentava.
sonhei também
que nós jogávamos
Mortal Kombat na casa de praia
e a cada batalha
inventávamos uma forma nova
de vencer um ao outro.
Neste sonho eu era invencível...
...e não me venha querer mudá-lo
o sonho é meu
já foi sonhado
e ninguém tasca.
segunda-feira, março 13, 2006
Amanhã
preciso urgentemente morar sozinho.
Minha mãe se preocupa feito uma louca
com a saúde do meu pulmão.
Meu pai acha o meu futuro discutível.
Meus irmãos já não me olham como antes
Cadê o adorável casula com os seus truques?
É justamente nestas chuvas de verão
que eu me lembro da morte e dos seus avisos all type.
E eu sei
A única coisa
que talvez não me abandone
é a palavra.
Agora mesmo eu me abandonei
ao querer me isolar numa solitária estação de metrô, num solitário trem fantasma,
num solitário shopping de descontos, num solitário rodízio de carnes
ou num seriado de tv.
Não acho seguro acreditar em amor ou beber antes de dirigir.
Agora sei
Eu preciso de segurança 24 horas, de efeitos que durem 24 horas e principalmente de caixas 24 horas.
Agora entendo o abandono
pois quando os créditos surgirem na tela
é provavel que a Palavra ainda esteja ao meu lado
acariciando os meus cabelos e sendo brega para o meu desgosto:
"você ainda tem a mim".
Amanhã
preciso urgentemente continuar escrevendo.
RISCO - Melina Mulazani e Wagner Barbosa
Direção - Mariana Zanette
Luz - Stéphany Mattanó
Design e Cartazes - Paola Faoro
Textos e Canções - Alexandre França, Indioney Rodrigues,
Lápis, Luiz Felipe Leprevost ...
Dias
17-03 - 24:00
18-03 - 16:00
20-03 - 24:00
25-03 - 22:00
FALEC
R:Mateus Leme, 990(à duas quadras do Müeller, do lado do Calabouço)
APAREÇAM
domingo, março 12, 2006
Festival de Teatro de Curitiba
e editoras Medusa e Iluminuras convidam
para o lançamento dos livros
Criptógrafo Amador, de Marcelo Sandmann
Corpo Sutil, de Ricardo Corona
Ode Mundana, de Luiz Felipe Leprevost
e revista Oroboro # 7
+ performances poéticas
a partir das 20hs - dia 20 (segunda-feira) de março de 2006
entrada franca e sem couver artístico
ORIGINAL CAFÉ
vicente machado, 622 - centro - curitiba – pr
mais informações: 3323-4548
www.originalcafe.com.br
dia 21
de março, terça-feira
a partir das 20h30
Lançamento de contos de Paulo Sandrini
"Códice d'incríveis objetos & histórias de Lebensraum"
travessa dos Editores
Wonka Bar
Rua Trajano Reis, 326
Curitiba - PR
quinta-feira, março 09, 2006
tirado do hackeando o catatau
Pesquisadores afirmam que cerveja tem efeito antiinflamatório
da Efe, na Áustria
Beber cerveja atua positivamente sobre os processos inflamatórios e algumas doenças crônicas, de acordo com um estudo divulgado hoje pela faculdade de Medicina da Universidade de Innsbruck.
Segundo informou em comunicado a equipe de pesquisadores, liderada por Dietmar Fuchs, da seção de biologia química dessa universidade austríaca, os experimentos realizados com células sanguíneas demonstraram que a cerveja pode bloquear algumas infecções e doenças crônicas.
As substâncias contidas nos extratos de cevada parecem ter um impacto parecido ao que se atribui ao vinho tinto, ao chá verde e ao preto no organismo, cujo efeito positivo para a saúde, sobretudo nas doenças coronárias, é reconhecido medicamente, indica o estudo.
Os cientistas destacam que o fato de beber cerveja não implica necessariamente a ingestão de bebidas alcoólicas, dado que o efeito positivo do sumo de cevada se faz notar também quando este não contém álcool e também não depende da marca da bebida que se consome.
Os autores da pesquisa asseguram que a cerveja aumenta a produção do chamado “hormônio da felicidade”, a serotonina, um neurotransmissor que exerce um papel importante nos estados de ânimo das pessoas, como o humor, a ansiedade, o sonho, a dor, e até o comportamento sexual e alimentar.
O estudo também indicou que a ingestão de cerveja tem um efeito tranqüilizante sobre quem a bebe.
quarta-feira, março 08, 2006
sexta-feira, março 03, 2006
quinta-feira, março 02, 2006
O Thadeu me disse que o Walmor fez uma música do caralho em cima dessa nossa letra. Não vejo a hora de conhecer a canção pronta e de conhecer o Walmor também.
Mártir Luther King
eu tive um sonho
que só me deu pesadelo
armas de fogo
me mataram de medo
o húmus sapiens
é bem pior que esterco
aquele que já fui
é hoje meu cerco
pensei ser o último dos mártires
mas a onda de sangue me reflui
(thadeu, sérgio viralobos e alexandre frança)
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Ontem de noite o Nick Farewell, um camarada gente boníssima aqui de Sampa me surpreendeu com alguns textos de alto calibre. Para o deleite de vocês aí vai um.
Todos dançam lentamente
Dão seus passos tímidos para o lado
E esperam que a música os arremate
Mas todos dançam sozinhos
Mesmo acompanhados
Ninguém pode escutar ou sintonizar
A música que toca em cada íntimo
A vida sempre promove um baile cego
Todos dançam com todos
Mas na verdade, ninguém dança com ninguém
Tente assobiar
E saberá que a felicidade é somente sua
Imperfeito, solitário e trágico
Mas o amor também dança em passo lento
Ele dita, mastiga e cospe
A partitura que você rege
Para tocar
A miserável sinfonia de cada um de nós
Nick Farewell
terça-feira, fevereiro 14, 2006
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
O perfume da vodka expulsava os bons espíritos
e até as bolachas submetidas aos copos de cerveja
ressecavam e carcomiam.
A madeira, ainda podre, cuspia chicletes velhos
e a platéia sorria com os dentes partidos do bêbado
adormecido no último sofá da sala vago
um pivô ainda escorava o limite
entre o sono e a noite banguela
eu era aquele bêbado
e decidi dormir.
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Ponto Final, 4:30 da manhã. O ventilador de teto nos dizia "façam o mundo girar." E nós capotávamos o carro em toda fossa que encontrávamos no caminho. E gritávamos a nossa sacada genial de dentro do táxi para as gurias espremidas nas janelas dos ônibus Circular-Centro. Era um tempo em que passávamos três meses em Guaratuba ou Caiobá, de frente pra praia, sem fazer nada, achando que fazíamos o necessário. Não pegávamos o Interbairros I, apenas admirávamos aquele amontoado de estudantes do CEFET a suportar o frio no intervalo entre as aulas do curso de edificações e os próximos goles de cerveja na praça de alimentação do Estação Plaza. Comíamos no falecido Maionese Dogs, que morreu num racha de carro justamente quanto estava ficando rico e podia investir na sua paixão. Sim, nós éramos uns desses irresponsáveis que ficavam jogando truco nas mesas das panificadoras ao redor do Colégio Positivo no ano do Vestibular quando todos nossos conhecidos estudavam mais de cinco horas por dia pra passar em medicina na Federal. Não frequentávamos sem nossos irmãos mais velhos casas de show como o AeroAnta e o Coração Melão, nem bares sofisticados. No máximo conseguíamos nos transformar em habitues de zoninhas de família, tomando chá com a Dona Olga ou dividindo o cigarro Godan Garan com a Tia Fátima. Fora isso eram aquelas festinhas nos salões dos prédios em que meninas levavam doce ou salgados e meninos refrigerante, mas alguns traziam uma ou outra cerveja mocada na jaqueta e bebíamos e achávamos que aquilo que provocávamos podia ser considerado porrada e voltávamos pra casa à pé por três quarteirões com um puta cagaço de ter os bonés de times americanos roubados. Pobres alminhas sequer imaginávamos que em breve só frenquentaríamos, por opção, bares podres como o Gato Preto e o Kappelle, pra depois voltar à limpeza de querosene dos nossos quartos pintados de azul com posters da Disneylândia exatamente como fazíamos na época das festinhas. Era o lugar onde ficávamos sabendo das últimas fofocas da política do Lerner durante o almoço. Era onde nos chegavam os convites pros bailes de debutantes. E a gente trocou tudo isso pela vodka e pela certeza de que podemos voltar a qualquer momento tanto pra um lugar quanto pro outro, mas acontece que um deles já não nos reconhece mais. O ventilador de teto nos mandava "joguem merda e façam tudo girar." E então nós aprendemos a tomar uísque 12 anos com Red Bull na beira da piscina de asfalto da Avenida Batel congestionada feito um nariz nos domingos de tarde ao lado de caras inacreditáveis como o Tadeu e o Tatára. Eles eram típicos polacos da Barreirinha, caras que conheciam bem a Curitiba de antes da "Era Lerner". Foram malucos como esses que nos mostraram que continuando pela Av. Batel se chega num restaurante Bar Palácio. Foram malucos como esses que nos fizeram preferir o Bar Stuart aos escritórios bem decorados do Centro Cívico. Nós éramos os poetas do bairro dos prédios caros e fazíamos as coisas ficarem tontas no verão a passos de Sandálias Havaianas brancas que, pouco a pouco, entrariam na moda. No inverno era protegidos por pantufas, bom-bons e estufas que cometíamos nossos poemas de revolta. Talvez uma revolta fácil, na opinião de alguns, que achavam que víamos as coisas de um lugar privilegiado. Quem sabe a crítica seja fundamentada, mas acontece que nunca negamos nada, e entendemos desde cedo que a nossa poesia estaria próxima da vida. E a vida que nos interessava estava tanto nas putas viciadas da Saldanha Marinho quanto nas putas viciadas dos salões do Graciosa Country Club, estava tanto nas histórias dos polacos do Abranches quanto nos "manos" do Sítio Cercado. Tínhamos voracidade em conhecer a Colônia Rebouças e a Ilha do Mel. Queríamos conhecer tanto o vanerão em algum CTG em Campo Largo quanto beber champanhe na Muzik de Riad Omairi ou ainda pular as marchinhas da turma do Conservatório de MPB no pré-carnaval do Largo da Ordem. Porém sempre voltávamos ao Ponto Final, onde aprendíamos ser tristes com canções de Lupicínio Rodrigues. 7:30 AM. Eram manhãs vazias, e nós compreendíamos o quanto éramos amplos e angustiados. De volta pra casa escutávamos a Rádio Educativa como se a qualquer momento estivéssemos prestes a sofrer um acidente de carrro. Alguém roncava no banco traseiro, e ali estava nossa tão comentada vocação para o rock and roll. Mesmo assim a gente ouvia um som qualquer tradicional como Cartola ou Nelson Cavaquinho e pensava "putz, porque não conseguimos gostar do que é feito aqui, porque os de Curitiba a gente ouve uma só vez por curiosidade e enche o saco?" Acontece que isso era verdade só quando os caras tentavam imitar os cariocas, aí era uma merda mesmo. Estávamos cheios dessas referencias de compositores e poetas, que até admirávamos, mas que não nos diziam nada há muito tempo. No entanto, quando era música feita por caras como o Like, aí a gente ouvia sem parar e entendia que é possível ser curitibano pra caralho mesmo usando elementos da careta e batida musica brasileira. De repente a Avenida Sete de Setembro se iluminava com catarradas e bitucas de cigarro. Muitos dos geniais roqueiros da cidade foram criados em apartamentos de bairros como o Cabral, o Água Verde, o Champagnat e até mesmo o Batel, prédios com garagem coletiva, prédios onde as famosas bandinhas de garagem não tinham espaço pra nascer. Tudo começava a rodopiar com mais velocidade, como se estivéssemos eternamente saindo e entrando e voltando a sair e entrar na porta giratória do Banco Itaú. Agora existia uma nova cidade. A tradicional família Curitibana se desmantelava. Poderíamos abrir guerra: Nós, os curitibocas, contra os novíssimos curitibanos, aqueles que vieram junto com as Universidades, com as empresas de marketing, com a Cidade Industrial e as montadoras de carros. Agora éramos parte de uma cidade violenta e grande. Nos apegávamos cada vez mais em Dalton Trevisan pra não perder a memória, mas tudo o que conseguíamos era sentir aquela velha ardência no estômago. Agora não víamos mais o Batista de Pilar nem a Bia de Luna circulando pelos bares. Agora não havia mais bares. Tudo era muito funcional, dividido em subúrbios residenciais e zona central, onde tudo é limpo e rápido, onde se trabalha. E a gente? Talvez só quiséssemos que as coisas girassem na contramão. Por isso o nosso QG no Batel, por isso essa vontade de desparafusar um pouco esse lugar, apartamento por apartamento, com nosso jeito bonachão enquanto comíamos pizza aos domingos nas salas bem decoradas de nossas tias-avós. E claro que nunca saberíamos quem foi que ligou o exaustor. Ventilador de merda... O inverno éramos nós agora. No fundo só não queríamos passar calor.
quarta-feira, janeiro 25, 2006
sábado, janeiro 21, 2006
segunda-feira, janeiro 16, 2006
sábado, dezembro 17, 2005
Não estou (mais) no clima do poema, mas que é bom pra caralho, é. Sintam o aroma da perpétua.
Brigitte Bardot
Deus é amor sem segredo
Nos olhos do cachorro
E a todo animal que ele quis que visse
Sua obra já pronta.
Morro de medo dos teus olhos sem palavras
Bigorrilhos, duques e xerifes
Porque me viciei em sons codificados
Porque eu sei que amar é abanar o rabo
Lamber, latir e dar a pata.
Cazuza
sexta-feira, dezembro 16, 2005
enquanto você suava o olhar
cansado de deter o espírito
eu deitava o rosto em seu peito
e com os dedos secava o que derretia de amor
minutos antes estávamos inquietos
eu sobre o seu corpo
você sobre o meu
encaixados, moucos como descargas elétricas
como bestas a procura de sanar a sede da alma
minutos antes experimentávamos
na escuridão das pálpebras
os nossos gemidos, como doces escondidos
em armários secretos.
Eu, com a língua,
roubava as pintas de sua pele.
você, com as unhas
abria caminhos em minhas costas
minutos antes não sabíamos
o que era este ardor
e agora dormimos abraçados
como o caule e a casca
alimentando no sonho a idéia de amar
em todos os minutos deste andor
e em todos os espaços desta casa.
terça-feira, dezembro 06, 2005
Rasguei as fotocópias da faculdade, as traças que acumulei no armário.
rasguei as partituras de violão erudito,
rasguei o poema não compreendido,
rasguei o que em mim era lixo,
agora que tenho certeza.
Rasguei as rosas que eram de papel,
rasguei o tempo de aluguel, o espaço de aluguel, a musa de aluguel,
o vento de inverno, o vento de ar-condicionado, a renite alérgica,
agora que tenho certeza.
Rasguei o chão nojento que eu pisava,
rasguei aquilo que me possuía sem me pedir licença,
rasguei os travesseiros desnivelados,
as notas baixas do colégio,
o padrão estético e moral,
agora que tenho certeza.
Rasguei principalmente o meu ar de ironia,
a minha cama fria,
a luz acesa para dormir,
o escuro para chorar,
a platéia para sorrir
a certeza de tudo,
agora que tenho certeza.
Rasguei como um animal
aquilo que uivava triste no estômago
e ainda soluça ao amanhecer,
pois rasgar
foi a única maneira de voltar
a minha velha certeza de nada
e ainda não te esquecer.
quinta-feira, dezembro 01, 2005
terça-feira, novembro 29, 2005
terça-feira, novembro 22, 2005
Seus seios choveram carne em meus dentes.
Seu umbigo desaparecia ao poente das pernas.
Você esquecia de você lentamente, e eu
nas termas da sua saliva me perdia
como se perde, sem querer, todas as guerras
A sua pele era a pele de todas
que amadureceram o sumo em minhas artérias,
hora era a cor da alvorada curitiboca,
hora um rubi doce nas trevas da minha boca.
Ao voltar para casa, em minhas costas
elas, rubras, me abraçavam nuas
pelo expresso vermelho, pelas ruas sem cor,
e pelos muros pichados, ironicamente
piscava a declaração otária de um amor.
Seu gosto representava o gosto de todas.
De todas que deitaram na cama de meus versos.
Na boca maldita eu lembrei seu nome,
mas aqui...
...não era o mesmo da semana passada?
terça-feira, novembro 08, 2005
segunda-feira, outubro 24, 2005
Há uma goteira em minha mente,
(Olheira de ontem, de hoje e sempre)
Muito embora a cabeça não sinta
Este pente de balas usadas,
Há palavras suas em minha carne:
São linhas ocupadas,
Um constante "ligue mais tarde",
Beijos sem o abrigo de uma boca
Boca sem o preciso atalho dos dentes.
Há uma falta de fome em meu estômago,
Como se o ar fosse um tipo de sangue
Que só eu consigo devorar.
Há suor em minhas paredes cansadas de me olhar,
Há saliva nas fechaduras,
Gozo nas torneiras,
Chuva nos tapetes,
Há uma febre doente em mim
Que precisa, urgentemente,
Contagiar.
terça-feira, outubro 18, 2005
quarta-feira, outubro 12, 2005
terça-feira, outubro 11, 2005
quarta-feira, outubro 05, 2005
terça-feira, outubro 04, 2005
segunda-feira, outubro 03, 2005
The Simple Line (última estrofe)
Body as Body lies more than still.
The rest seems nothing and nothing is
If nothing need be. (sacada simplesmente genial)
But if need be,
Thought not divided anyway
Answers itself, thinking
All open and everything.
Dead is the mind that parted each head.
But now the secrets of the mind convene
Without pride, without pain
To any onlookers.
What they ordain alone
Cannot be known
The ordinary way of eyes and ears
But only prophesied
If an unnatural mind, refusing to divide,
Dies immediately
Of too plain beauty
Foreseen within too suddenly,
And lips break open of astonishment
Upon the living mouth and rehearse
Death, that seems a simple verse
And, of all ways to know,
Dead or alive, easiest.
Laura Riding
sábado, outubro 01, 2005
PORÃO LOQUAX – A voz da Palavra
O Wonka Bar inicia a partir de outubro o projeto Porão Loquax – A voz da palavra, um espaço destinado à leitura de poesia, aliada às afinidades com a música, o teatro, a prosa, a dança e as artes plásticas como a performance e a fotografia. O projeto conta com infra-estrutura de palco, som e iluminação.
Num claro intuito de formação não só de público mas de leitores de poesia, o Porão Loquax (idealizado e dirigido pelo poeta Mario Domingues e por Ieda Godoy, proprietária do Wonka Bar) é um espaço permanente, (toda terça-feira, às 22h, chova chuva ou canivetes) onde poetas poderão ler seus poemas, acompanhados por músicos, fazer lançamentos e comercializar seus livros. E ao final de cada apresentação, um rápido bate-papo com o artista.
O projeto Porão Loquax deve ser visto (e lido) como um sinal de resistência: se a poesia é um gueto, agora ela tem voz, endereço e hora certa pra começar. Um pacto entre público (couvert simbólico de 1 real) e artistas: como queria Nietszche, que via a vida como uma obra de arte a ser criada, um público mais artista, um artista mais público. Em Curitiba.
Programação – Outubro de 2005
04/10: Rodrigo Garcia Lopes: poeta e tradutor. O poeta londrinense fará leituras de poemas de seu livro Visibilia, e traduções e apresentará canções de sua autoria, com o violão em punho.
11/10: Fernando Koproski: poeta e tradutor. Koproski se apresentará acompanhado do poeta Alexandre França no violão, e lerá poemas de sua autoria e traduções de poemas de Charles Bukowski.
18/10: Adalberto Muller, poeta e tradutor. Atualmente em Brasília, Muller virá a Curitiba ler poemas de seu livro Enquanto velo teu sono, e traduções do poeta Paul Celan. O convidado especial é Marcelo Sandmann, poeta e músico.
25/10: Ricardo Corona, poeta e tradutor. Corona vai mostrar uma versãosampleada de seu CD Ladrão de Fogo, contendo sonorizações de seus poemas.
Serviço:
Wonka Bar – Trajano Reis, 326 – São Francisco
Curitiba – PR
Horário: 22h
Couvert: 1,99
Dezoito Zero Um no Facebook
links
- Dezoito Zero Um - Cia de Teatro
- site - alexandre frança
- Muito azeite, pouco sal - Reka
- Contos da Polpa - Fabiano Vianna
- Leprevost - notas para um livro bonito
- Otávio Linhares
- Fio de Ariadne - Fabiano Vianna
- Crepusculo - Fabz
- Albert Nane
- Curitiba é um copo vazio cheio de frio - Bárbara Kirchner
- Alexandre Nero
- Michelle Pucci
- Sabrina Lopes
- Polaco da Barreirinha
- Solda
- e a sua mãe também - Angélica Rodrigues
- emma is dead
- Ivan Justen
- Atire no dramaturgo
- O cara mais chapéu de todos os tempos
- Foca Cruz
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