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Blues Curitibano
segunda-feira, maio 28, 2007
quarta-feira, maio 16, 2007

terça-feira, maio 08, 2007
Como bem disse o Thadeu, "Vamos fazer uma festa pra essa mãezona que merece todo o carinho do mundo".
segunda-feira, maio 07, 2007
Estou de volta Curitiba
Lambendo com a sola dos pés
O seu asfalto como
quem lambe por vingança
A vulva de uma mulher
E a chuta na próxima esquina
Curitiba, minha putinha
Eu falo que te amo sem te amar
Eu beijo a sua boca
Com a pior das intenções
Curitiba, me perdoa
Por pensar em você
Durante as 24 horas deste seu tempo
Mofado
Curitiba, me perdoa
Por ficar, no final das contas,
Pra sempre ao seu lado
sexta-feira, abril 27, 2007
Muita gente me enviou e-mails querendo saber como comprar o CD. Funciona assim (passo por passo):
1 - Depositar R$20,00 (R$15,00 do CD e R$5,00 das despesas do correio)
No Banco do Brasil
conta - 1405-2
agência - 15229
Em nome de Alexandre Gil França (sim, eu tenho um "Gil" no meio do nome, mas não sou parente do Ministro)
2 - Depois de depositar, mande um e-mail para contato@alexandrefranca.com.br com o número do documento do depósito e com o nome e endereço completos.
3 - Assim que eu receber este e-mail, mandarei um outro de resposta confirmando o pedido. Se você recebeu a resposta, é sinal que o CD já foi enviado para o seu endereço. Daí é só aguardar (demora de dois a três dias para chegar).
É isto
Grande abraço
frança
segunda-feira, abril 23, 2007
quarta-feira, abril 11, 2007
segunda-feira, abril 09, 2007
então, sonhei que jogava boliche
numa pista de silêncios constrangedores
e a bola negra e brilhante
era o mundo derrubando os peões
inoperantes
a vodka, minha única arma branca
nunca quis me matar
e você me esperava na porta
balançando um chaveiro velho
pra lá e pra cá
eu te falava vem cá
você ficava sem nada a perder
eu beijava desajeitado
o seu sorriso parado no canto da boca e...
engraçado
isto no sonho me fez sorrir sem querer.
sexta-feira, março 30, 2007
quinta-feira, março 29, 2007
quarta-feira, março 28, 2007
Você só sabe criticar o verso alheio
Catando à tapa as amoras do quintal
E em festas badaladas traz no peito
A pedante munição do seu arsenal
Citações em grego, russo ou aramaico
Um buraco negro cheio de motivos
A vontade imbecil de ser o bom do bairro
A necessidade imensa de ser aplaudido
Vem, que eu quero te mostrar a minha vida
Vem, que eu quero com você um jogo limpo
Mostre as suas cartas de amor
Que eu mostro os meus bilhetes suicidas
terça-feira, março 27, 2007
domingo, março 25, 2007
sábado, março 24, 2007
sexta-feira, março 23, 2007
Leiam a entrevista que eu concedi ao "jornal comunicação" da UFPR. Interessante... http://www.jornalcomunicacao.ufpr.br/node/537
O esquecimento me abraçou.
Não pensei duas vezes
Antes de um dar um tapa
Nas suas costas:
Esqueci do final da tarde
Esqueci do final da garrafa
Esqueci do final da novela
Quando fui esquecê-la
Me senti incompleto
Um completo perdido
talvez eu não tenha entendido
a brincadeira do esquecimento
Ao me olhar no espelho partido
Eu já havia desaparecido
segunda-feira, março 19, 2007
domingo, março 18, 2007
Beijo de tchau
A geada chegou
Soprando todo o fogo
O vento provocava a sua fala improvisada
A dor
Parando com o verbo o tempo
Congelando fragmentos do meu olhar
Um arranha-céu, os dedos do ar
Uma estrela que apagava num estalo
Eu sinto falta
Do seu silêncio
Você me oferecendo um cigarro
Num destes cafés do centro
Eu te decifrava e você me encontrava
Desfilando o seu andar lentamente
Te solucionava
E você a me entregar todo o mau
Guardado no cofre
Dentro da sua cabeça
Num beijo de tchau.
sábado, março 17, 2007
Poesia do tipo:
Nas fímbrias dos furibundos vagalhões
Sois a Carrara da pele imaculada
Nos grotões onde repousa minha erma puberdade
Lembro-me de meu pai...
Ou destilações de Bandeira:
Quando eu era menino
Olhava com os olhos tristes para a velha samambaia...
Da janela do quarto, que dava para a Consolação,
e onde eu bebia café
Via o gatinho doente na varanda do vizinho
do lado de um pires vazio.
Como escreveu o poeta William Carlos Williams: “Arte ruim é aquela que não serve no contínuo serviço de limpar a linguagem de todas as fixações sobre usos mortos, mal-cheirosos do passado”. Por outro lado, muitas vezes também tenho a impressão de que poetas diferentes estão escrevendo um mesmo poema. Digo isso em relação a um tipo de poema curto, que muitas vezes são fragmentos de descrições estilizadas (geralmente da janela de um apartamento, com o poeta entre reproduções de Mondrian, tomando chá de camomila, lendo livros chatos e fazendo cara de inteligente). Para mim, esses poemas também escondem, sob uma pretensa “concisão”, uma falta danada do que dizer.
Poemas do tipo (estou inventando agora):
A avenca, à
janela
embora (caligramas),
outra
paisagem pousa
na palavra
glamífera.
Ou ainda:
O gato, quer dizer,
(embora nem tanto)
pisa pé,
ante pé (pétala)
enfim, quase um
triciclo quebrado,
búgulo pistilo, que
edulcorasse
por sobre o vermelho
(como num quadro de
Bacon), mas
a luz do poste
na testa, que,
aprés midi,
talvez, sei lá
etc.
Quando não temos diluições pioradas de um Manoel de Barros (também estou inventando agora), como:
Quando chove a barriga da formiga horizonta a tarde.
A lesma é versada em pedra de jardim.
A perna quando puxa tubarão não tem orelha.
E a manhã estruma na canga do poente.
Acho estes tipos de poesia chatas pra caramba. Concisão, em poesia, não deve ser tanto uma questão de quantidade, mas de qualidade de dizer. Esses “procedimentos”, “fraturas” e personificações geralmente mascaram um pensamento superficial, pobre de vida, sem viço. Afinal, poesia tem que dizer alguma coisa. Talvez no Brasil a própria poesia, enquanto discurso ou anti-discurso, esteja em crise. Talvez por ser um terreno valorativamente mais indefinível e movediço, infelizmente a poesia se presta a todo tipo de picaretagem e bobagem. Na narrativa é mais difícil: fica claro quando o cara sabe ou não contar uma história, que é o objetivo. Veja bem, cada um escreve como bem entender. Só estou dizendo que poemas como esses costumam me proporcionar, como leitor, viagens muito curtas e rasas".
sexta-feira, março 16, 2007
Caríssimo
Há um novo poeta na cidade
Do ano de 81 ou 82
Vamos nos reunir
Para acabar com o suprimento
De vodka e cigarros
É necessário um seqüestro
E um cativeiro de livros
É necessário papel e caneta
E um galão de nanquim
É necessário conhecer a função
Do fio vermelho e do azul
Ei, Jaques Brand
Vamos tomar um café ali no centro
15 minutos antes
De desarmarmos
A bomba atômica?
quarta-feira, março 14, 2007
O conflito se dá quando Maria dá de presente à irmã um exemplar do livro “O Idiota” de Dostoievski. A partir daí uma trama de argumentos livrescos (de fontes que vão do próprio Dostoievski a Nietzsche) é posta em cheque quando Maria tenta convencer Sônia a matar o homem que a deixou. A pergunta que se faz durante toda peça é: Sônia ou o idiota do livro teriam a capacidade de matar?
“Um Idiota de Presente” é um texto-homenagem a um dos grandes escritores do século XIX, Fiódor Dostoievski. Cheio de referências a este autor, a peça, assim como a obra do escritor russo, levanta questões morais relacionadas à culpa, ao assassinato, à morte, e também existenciais relacionadas à solidão e ao abandono. Neste caso, a discussão principal é: até que ponto, conteúdos mal interpretados podem ser nocivos ao ser humano?
terça-feira, março 13, 2007
A água acabando no mundo
E eu pensando em matar a sede
Do sono a apertar as pálpebras
E eu pensando na mulher
Que poderia estar ao meu lado
Sonolenta e linda
Longe, bem longe da matilha sangrenta
De vaginas percorrendo a minha
Neurose-carnal-maníaco-depressiva:
São elas, com suas presas
Da marca Louis Vuitton
Mulheres agonizando solidão
Em suas caricaturas de beleza
Rastreando a grama do quintal
Da revista “casa e jardim”
Com sua sensibilidade de plástico
Sua falsa alma babaca e “sensível”
Seu hálito de cigarrilha
E sua resignação doméstica
Adaptado aos moldes
da publicidade contemporânea
Como radiações de um apocalipse
Rostos de manequins usados
Olhos de bonecas usadas
Como moeda de troca
Barbies envelhecendo
Em suas fantasias temáticas
Imagino uma só mulher
Que dormiria ao meu lado
Depois de um dia intenso
Vivido apenas por pessoas intensas
E não por impressoras de felicidade
Imagino uma mulher
Que finalmente decrete
O que é belo ou não
Em nossas vidas
sexta-feira, março 09, 2007
terça-feira, março 06, 2007
Ela lá (para a atriz Lala Schneider)
Ela se foi dormindo
Sem saber da sua morte vindo
Carregando os nossos sonhos
Ela dormiu sem saber que morria
Se entregou ao sono
Que a noite trouxe de consolo
Com a mesa de jantar
Comentou que o céu estrelava
Falar sobre estrela é difícil
Como é difícil o amor
Bate uma vontade irresistível
De juntar tanto afeto à dor
Mas um coração sempre sorrindo
Mesmo numa oração de luto
É a pulsação de uma platéia
Que de longe vê o azul do mundo
Lala se foi dormindo
Sem saber da sua morte e vida
Carregando os nossos sonhos
Ela dormiu sem saber que nascia
Alexandre França e Claudete Pereira Jorge
segunda-feira, março 05, 2007
Edições.
A idéia que mais me acalma:
Lançar uma nova edição
Dessa mesma velha alma.
Rayanne
Quer mais? Então entre no http://meucontratempo.blogspot.com/
domingo, março 04, 2007
Transbordo a espuma dos assuntos
Fazendo a cabeça com cerveja quente
Amargamente importada
Em promoção na loja dos vícios
Pequeno-burgueses de sempre
Aqui, mandando socialmente
Para o porão do descrédito
Todas as partituras das canções
Que eu não toquei
Que não beijei e não vivi
Até que a morte os separe
Com o Lombardi de fundo
Ofertando um televisor de 24 polegadas
Ou a possibilidade imbecil
De ser milionário ou a possibilidade remota
De felicidade ou a possibilidade prática
De mudar o canal, de destruir a televisão
De montar uma coleção de discos de vinil
E de mandar o mundo calar a boca
Com um tiro de escopeta na tela
sábado, março 03, 2007
quinta-feira, março 01, 2007
Tempo e Artista
Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela
Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso
Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta
Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito
No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito
Chico Buarque
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
Lembre-se daquilo que te impossibilite
Não dê uma de socialite
Quando você é uma socialaite
Eu tive um insight
Ao acender o pavio da dinamite
O TNT tava em promoção nas Casas Bahia
E você vai explodir antes de mim, vadia
Quero ver você na esquina
Toda briga de amor
sábado, fevereiro 24, 2007
Não sei se foi para chamar a atenção
você com uma margarida de plástico
com aquele enorme olho amarelo
chapado com a cabeça caída para
o lado.
não sei se foi para chamar a atenção
um zippo sem gás, com a pedra gasta
uma triste metáfora de algo
que já não é mais
tipo uma panela vazia em fogo baixo.
não sei se foi para chamar a atenção
mas pelo menos na minha frente
você esqueceu de roer as unhas
e de contar moedas de cinco centavos
na iminência de dividir a conta
em duas partes exatamente iguais.
Não sei se foi para chamar a atenção
mas você deixou largada na cadeira
a sua bolsa
com uma foto 3x4 minha
no fundo falso da carteira.
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Fósforo aceso na madrugada
Uma carta de adeus queimada
Calada mais de uma vez
Por dia
Flores perdendo o tempo
De serem dadas, envelhecendo
Nas cinzas que a tarde fez
Da vida
Pétala a pétala, conto todas as pétalas
Arrancadas da rosa que eu guardei
No armário
Uma lembrança do mar de espinhos
Que a chuva tempestuosa da despedida detém
Num raio
O apartamento que abandonei
Toda a mobília que não usei
Como sumir do porta-retratos
Que você guarda na sua mesa
Mas o dia amanheceu
O dia amanheceu
Amanhecer o dia me faz muito bem.
Octávio Camargo, Alexandre França e Thadeu Wojciechowski
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Sono
Ao meio-dia
Ninguém vai me acordar
Nem balde de água fria
Ao meio-dia
Ninguém vai me ouvir roncar
Nem toda a bibliografia
Do meio-dia
Conseguiu me explicar
O inverno de Curitiba
Ao meio-dia
Um senhor tentou matar
O tédio com aspirina
Ao meio-dia
Minha voz sumiu no ar
De toda a coreografia
Do meio-dia
Num segundo de amar
Daquela anatomia
Do meio-dia
Uma chuva de chorar
Vestia de preto o dia
Ao meio-dia
Ninguém vai me acordar
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
terça-feira, fevereiro 06, 2007
entrada R$1,99
sábado, fevereiro 03, 2007
O alcoólatra é uma máquina
De desiludir a si mesmo
E toda droga mais ou menos
Que atravessa a sua vida
É uma luz de brilho negro
Que ofusca a sua mania
De beber e chorar pra dentro
De olhar e acompanhar o óbvio
De dormir e sonhar com medo
Da sobriedade, este feto
Encolhido no peito
Entupido de não-me-toques
segunda-feira, janeiro 29, 2007

O homem que diz "dou" não dá
quarta-feira, janeiro 24, 2007

Ela vem solando uma
Guitarra Stratosonic Gianini
Eu já com uns quarenta anos
Ela ainda com os cabelos em movimento
Eu bebendo um rabo-de-galo
À beira-mar do asfalto
Ela me estendendo a mão
Sussurrando em alto e bom som
“você me perdoa?”
Eu , já sem esperança , entrego
Cerimoniosamente, o meu último
Bem de valor
Uma Gibson Les Paul
Com a corda mi estourada
terça-feira, janeiro 23, 2007
Voltando ao tempo das armas brancas (depois de ler a capa de uma tribuna e lembrar daquela cena do corredor de sangue)
Um cheiro de borracha queimada
E enxofre num quarto pós-morte
O pai declara num último gole
De saliva e lábios moles:
“você não é profunda só
por que o seu mapa astral disse”
“você é incapaz de me entender”
Retruca a filha retorcendo
A velha tramontina enferrujada
Na barriga do velho bêbado
Os paramédicos do inferno
Aplaudem o espocar de uma
Chandon de sangue, enquanto
As carpideiras recolhem os trocados
De algum circo de horrores
quinta-feira, janeiro 18, 2007

foto: Mert Alas e Marcus Diggott
Natalie Portman
até pensei em dar um beijo na sua foto
como se fosse a sua testa, ou o pé
de uma santa padroeira de
alguma cidade seca e deserta
onde a coca-cola é vendida a dez reais a lata
e a água, quando vem, deságua através de reza
pensei numa barra de chocolate com
as frutas cítricas arrancadas e o açúcar
cristalizado derretendo na ponta dos meus dedos
pensei em cortar a luz da cidade
para que a procissão de velas nos apartamentos
soprasse a meia-luz que a sua imagem merece
entoando velhas cantigas de ninar
parodiando com o seu nome, com o seu corpo
todo o verso que falasse a respeito de “sonhar com os anjos”
por que os barulhos de pratos raspados, copos cica
e toalhas no piso do banheiro me irritam a medida
que sinto na temperatura elevada do meu corpo
a escuridão que a falta de embriagues provoca
em um homem que sabe, por acordar
sempre após ao meio-dia,
que a beleza de uma mulher só é explícita
quando a maquiagem está nitidamente borrada.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Minha Alma Pequena
Eu só queria ficar em paz.
Deitado, sob a sombra da árvore que eu não plantei.
Acariciando os cabelos da cabeça do filho que eu não fiz, e que estaria repousando sobre o meu peito.
Eu só queria dormir pra sempre.
À beira de um riacho, sob a sombra de um pessegueiro.
Sonhar com a Abissínia, mas voltar ao Egito de onde eu nunca deveria ter saído.
Eu só queria fazer uma revolução.
E matar todos os opressores da Palestina, de Israel, dos E.U.A, e matar os caras encapuzados da K.K.K
Eu queria traficar armas e drogas para abastecer de dólares e Euros todas as revoluções da África e do Cone Sul.
Eu queria ter ido para a Nicarágua, trabalhar nos campos e fazer guerrilha, quando aquela puta francesa me abandonou só, no Vidigal. Tinha um anúncio no jornal, pedindo voluntários. Mas eu tinha um show na semana seguinte, e não fui.
Eu queria ficar quieto, em um canto, chorando baixinho, escutando Cartola, bebendo até morrer.
Aprender a falar com os animais, como fazia Yan, um húngaro que foi caseiro no sítio de minha avó. Quando a tarde despencava, ele estalava a língua e balbuciava qualquer coisa, fazendo com que as galinhas voltassem para o poleiro.
Depois, eu evoluiria e aprenderia a falar com as plantas e com as pedras.
E depois.... Eu juro, me calaria para sempre.
Eu só queria um pouco de alegria
E continuar desafiando a polícia e apedrejar suas viaturas, como fiz outro dia. Só pra me lembrar.
E ir pra Havana beber rum ordinário e pedir ao Pedro Gutiérrez que me apresentasse àquelas mulatas, que bebem e trepam o tempo todo. Sem culpa.
Eu só queria um pouco de poesia negra num prato de Cachopa.
E não ter que me levantar todos os dias.
Pra não ter que encarar o sol podre e tentar me convencer de que tudo vale a pena.
Não vale! E minha alma não é pequena. Meu coração é que está apertado.
E não ler nunca mais os jornais, para constatar o que eu já sei desde meus 10 anos.
De que o mundo não tem jeito. De que tudo é uma brincadeira sem graça do criador.
Eu só queria que deixassem em paz, essa Terra. Essa puta com olhos abstratos, que continua germinando plantas e flores delicadas.
Paulo de Tharso
segunda-feira, janeiro 15, 2007
então guria
é exatamente esta impressão:
delicado como um cigarro
aceso na garoa
ou como a Bruna Beber
rasgando o sulfite
ao escrever com uma bic
sem tinta
um chaveiro roubado do Mickey
perdido num porta moedas
um pedaço de bolacha Maria
boiando no leite desnatado
é como dar um tchau
pra alguém que não o reconheceu
é como matar uma mosca
com a ponta de uma tachinha
é igual a falar "eu te amo"
em troca de alguns trocados
a mais.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Me imagino um velhinho
sozinho decorando pequenos gracejos
que eu falaria na porta de um destes
cafés do centro.
Com uma dispensa cheia de velhas bebidas
todas elas me deixando ainda mais velho
com uma sala de estar vazia
a me deixar ainda mais só
como um objeto de decoração ultrapassado.
me imagino um velhinho
contando a idade como se fosse pontos
de uma competição onde se ganha
aquele que morre mais cedo.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Meu olhar de melancolia
Disparou com o óleo das lágrimas
Pelas paredes do largo da ordem
E ouviu as reclamações
Dos bêbados escorados nos
Tijolos mofados da pele
De um homem a declamar poemas
Meu olhar de melancolia
Borrou a maquiagem na
Garoa fina e pesada
Que o chumbo do céu nos provoca
E me deixou com um vazio no
Estômago quando sem grana
Pedi um pedaço de um
Prensado para um destes hippies
Que se dizia ator de teatro
Antes de ser por ideologia
Artista de rua
Meu olhar de melancolia
Deu tchau com a manga da blusa
Para o seu cheiro, para a sua pele
Para a sua voz, para o seu hálito
Quando lembrei que não era mais meu
O seu olhar melancólico
O meu olhar de melancolia
Fechou os seus olhos
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Ok,
foi como aquele dia
em que o recepcionista do lascivo
e gemedor hotel Roma me ofereceu
por educação uma batata Pringles
e eu aceitei mesmo sabendo da bombástica
mistura entre o espinafre e o sabor churrasco.
Sem dúvida,
se parece muito com o dia
em que manchávamos de vinho tinto
os lençóis do hotel Bourbon, saindo
sem pagar e muitas vezes
sem as roupas íntimas.
Acha que eu não lembro
quando você usou o sangue da sua menstruação
para pintar “eu estive aqui” no espelho quebrado
da sala vip de uns destes lugares
iluminados com luz negra da cruz machado
acha que eu não sei
que hoje em dia o seu quarto
é o banco inteiramente descascado
da triste e solitária praça Tiradentes?
sábado, dezembro 16, 2006
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Alucinações
Um alucinado
Observando a alternância entre
O verde e o vermelho do semáforo
Com o imã da retina puxava uma só
Lágrima do seu olho esquerdo
E costurava com saliva
A pelugem macia que sobrava do pescoço
E brincava de par ou impar na superfície úmida
Do seu sexo e arrancava um sorriso rouco
Do seu minuto e meio de descanso
Um alucinado
Jogando paciência no nível expert
No intervalo que existe entre
O início do turno da manhã de uma empresa
E o horário de almoço.
terça-feira, dezembro 05, 2006
Em minhas mãos
Minha mãe me oferece uma bomba
Da confeitaria das famílias
E me oferece um passeio a pé
Pela rua XV
Entre os ciganos da meia-noite
E os hippies com suas poesias
Contendo boas intenções
Em minhas mãos
As mãos de uma velhinha
Nas mãos de um velhinho
No banco da praça Tiradentes
Num dia claro de geada
Exala um suor antigo
Da temporada que nunca chega
Em minhas mãos
A garçonete do instinto Ritz
Toma um gole do café do cliente
E eu sinto o sabor da sua saliva
O sabor da sua maldade
O sabor da sua demissão
Em minhas mãos
O expresso mastiga a cabeça de um ciclista
E são as minhas mãos
Que retiram aquela cabeça
Do estômago da vermelha máquina de guerra
Usada como transporte
Em minhas mãos
Alguém chora baixinho
A incontrolável vontade
De beber um trago num chinês
Do centro
E eu sinto pontadas em minhas mãos
Pontadas no estômago
Pontadas de fúria
Pontadas de lágrimas
Como se eu sentisse em minhas mãos
A tachinha que alguém colocou
Na cadeira do isolado da escola
Como seu eu sentisse em minhas mãos
O congelamento de um membro
Quase necrosado
Como se eu sentisse em minhas mãos
A sensibilidade que há nas pétalas
Quando elas acenam com o vento
Para o outono dos meus olhos
E a caneta bic da Luana Vignon continua afiadíssima. Só tenho uma coisa a dizer: você é foda, guria.
ABRUTALHADOS
Chove torrencialmente
mas um cara tira cuidadosamente o lixo pra fora
e um outro vem do inferno
pra acender seu cigarro fuleiro na mesa mais triste do boteco.
enquanto isso há feridas que nunca cicatrizam
como um moleque que caminha incólume sob a chuva.
Há dias em que uma simples capa
não dá conta de esconder as nossas lágrimas.
Há dias em que eu sou apenas uma garota solitária
sentada na única mesa de um bar
assistindo idiotamente a um clipe do Bee Gees na TV.
Quase sempre a Rua Augusta é um lugar para as carapaças vazias
porque a vida é muita mais feia sobre os travesseiros.
A vida sangra
a vida verte inexoravelmente seu mijo quente sobre as nossas cabeças.
Na maior parte do tempo
eu sou aquela moça que ninguém nota
aquela uma
sozinha
hostil
embriagada
sonhando pontilhões que nunca se acabam.
Há dias em que a faixa branca no asfalto
é só uma armadilha.
Quase sempre somos atropelados.
Na maior parte do tempo
a gente segue carregando no bolso aquela última baga
a ponta de um infinito que não faz o menor sentido.
Luana Vignon
segunda-feira, dezembro 04, 2006
sábado, dezembro 02, 2006
enquanto num velho toca-fitas
alguém coloca trouble man
do Marvin Gaye pra tocar
enquanto na via rápida
os carros, os pedestres e a garoa
fogem da polícia
enquanto num teatro do centro
um ator morre aplaudido
em cena
enquanto a minha pincher
de estimação se desespera
com a sua completa falta de visão
enquanto o bar da minha rua
ameaça fechar as portas
para o feriado
enquanto um casal de apaixonados
se separa com uma proposta
de casamento
enquanto alguém queima a língua
com a caneca de café fervendo
enquanto alguém queima a sobrancelha
acendendo um cigarro no fogão
enquanto alguém toma
o primeiro gole de cerveja do dia
do mês, do ano, da vida
enquanto eu digito um trabalho
de mil laudas que não é meu
enquanto eu digito imagens ao léu
eu paro cinco minutos
cinco minutos ao seu lado
sem querer
sem nem ao menos saber
quem você é
terça-feira, novembro 28, 2006
É desolador e esclarecedor
O cachorro roubando do velho
O resto da barra de cereal
A vontade de misturar bebidas
Para dizer umas verdades
A corrida de fórmula 1
Sem nenhum grave acidente
É desolador e esclarecedor
O dente roxo de vinho tinto
O dedo amarelo de nicotina
O vermelho daquilo
Que não é sangue
O azul daquilo
Que não é céu
O verde daquilo
Que não é mato.
É desolador e esclarecedor
O lacre do iogurte
Não abrir com um simples toque
Uma droga de um desenho animado
Não conter violência por ser educativo
Assistir esta droga
Só para conhecer o final
É desolador e esclarecedor
O resultado da loteria
O resultado de uma pesquisa no google
Sobre você mesmo
O resultado de um teste de gravidez
O resultado de um exame de vista
É desolador e esclarecedor
Reencontrar o amigo de infância
Que um dia o traiu
Reencontrar o primeiro amor
Que não sabe quem você é
E nunca irá saber
Reencontrar o primeiro livro
Que você leu na vida
O primeiro verso que mudou a sua vida
Mas que agora, estranhamente
Não faz tanta diferença
É desolador e esclarecedor
A tendinite do pianista
A amnésia de um poeta
O transtorno obsessivo
De conferir se a porta do banheiro
Esta realmente fechada
O prato cheio de uma anoréxica
É desolador e esclarecedor
Uma grávida chorando
Na fila do supermercado
Alguém chamando pelo pai
No meio de uma festa junkie
Uma senhora mostrando a foto dos netos
Hoje com mais de trinta anos.
segunda-feira, novembro 27, 2006
revendo o clássico do Wim Wenders, me veio uma idéia para um poema. Havia esquecido como a Nastassja Kinski é bonita. Havia esquecido do rítmo desolador do roteiro. têm coisas que devem ser revisitadas todo ano.
atropelamento
(para Sam Shepard)
da janela uma luneta:
alguém procura uma lua,
uma estrela, um brilho
qualquer no quarto ou na rua.
na canaleta do expresso
um guri de bicicleta
abre os seus braços e grita
"sem as mãos" durante um metro.
ele me atropela ao ser
atropelado e eu durmo
acordado sem querer
e o cara da luneta
que me queria pelado
chora comigo um choro
bêbado e desgovernado.
sábado, novembro 25, 2006
quinta-feira, novembro 23, 2006
Da sacada vejo quieto
Um bando de adolescentes
Com um violão tocando alto
Coisas da Legião Urbana
E daqui eu me pergunto
Sobre a condição humana
Exercícios de linguagem
Idéias pra quem reclama
Será que eles me entendem
Sussurrando um mantra sujo
Rogando praga no escuro
Será que eles entendem que
Estou parado bem no fluxo
De pessoas inocentes
Atirando
para todos os lados?
sexta-feira, novembro 17, 2006
Não consegui segurar: chorei no final. E no final eu não queria segurar mais lágrima alguma, por que se eu segurasse, era capaz de transbordar no fígado e no estômago a fúria daquele texto (muito embora, eu tenha bebido todas depois, sem misturar é claro). Eu falo de “Homens, Santos e Desertores” do Mario Bortolloto . Tive que disfarçar o olho vermelho, antes de dar um “oi” para o Marcelo e para o Marião depois do espetáculo. Explico.
Esta é uma peça que nos joga na cara o “inferno” do mundo contemporâneo e que ao mesmo tempo nos sussurra ao pé do ouvido “se não agüenta, por que veio?” Dois personagens: um alcoólatra já sem esperança alguma e um jovem sem perspectiva. Os dois travam uma batalha de nervos, destilando uma série de outros personagens podres e completamente desajustados. É a mãe que dá para todo o bairro, o pai que fugiu de casa, o padre pedófilo, o padre alcoólatra, o “bombadinho” descerebrado do colégio (que pode, neste exato instante, estar comendo a sua mãe), a mãe que se mata com um tiro. Enfim, toda uma galeria de figuras bizarras e dolorosamente humanas a esbarrar sem pena na frágil sensibilidade dos dois coadjuvantes. Mas se o mundo não é isto, um grande freak show humano com lanças de aço apontadas para as nossas cabeças, o que é então? Um conto de fadas? Um final feliz? Não.
É justamente neste ponto que a peça mais me tocou – não existe saída. O mundo é assim e enfrente-o sem autopiedade, sem se fazer de coitadinho, sem se acomodar na futilidade prazerosa que a artificialidade nos impõe dia após dia. E o Marião nos joga isto na cara durante toda a peça (entende por que eu saí meio atormentado depois?). Ele fala sobre alcançar o posto de “santidade”, ou seja, se assumir um excluído e dar a cara pra bater neste mundão velho de guerra. Não adianta se iludir: as pessoas não são do jeito que você pensa e ninguém vai passar a mão na sua cabeça quando a corda apertar no pescoço. Aliás, você não é mais um adolescente, vestido com uma camiseta do Metallica, como todos os outros "coleguinhas" da sua idade...
...O que? Você discorda? Ah, então você é do tipo que ainda se apaixona pela mais cobiçada do colégio, é isto? Só tenho uma coisa pra dizer para dizer pra você: veja, não só uma, como duas vezes "Homens, Santos e Desertores".
HOMENS, SANTOS E DESERTORES
Texto : Mário Bortolotto
Direção : Fernanda D´Umbra
Com Mário Bortolotto e Gabriel Pinheiro
No Auditório Glauco Flores de Sá Brito (Mini-Auditório do Teatro Guaíra)
Quinta a Sábado : 21h
Domingo : 20h
Ingressos : R$ 20,00
R$ 10,00 (Estudantes, Aposentados e Classe Teatral)
quinta-feira, novembro 16, 2006
terça-feira, novembro 14, 2006
Numa bosta de luau promovido por garotinhos cagões
Não é que ele só queira escrever umas canções tristes. O fato é que ele só consegue fazer dessa maneira, com tristeza. Sei que ele era a fim de dar porrada num bando de play-boys babacas que freqüentavam o cursinho pré-vestibular do Colégio Positivo. Sei do desprezo dele pelas patys que circulam ali pelo Shopping Cristal. Então é por isso que ele derruba a munheca naquele violão. Por isso e porque ele adora a noite curitibana com toda sua neblina característica, com todas aquelas pessoas vestidas com sobretudo preto bebendo vinho Campo Largo e fazendo merda no calçadão do Largo da Ordem. Só que o cara não é tosco, ele estudou música clássica, ele estudou violão com o maestro Waltel Branco, caralho, não foi qualquer um que teve esse privilégio. Só que mesmo assim ele prefere enfiar a porrada naquele violão, o mesmo que presenciei uma vez voar e passar raspando por uma fogueira igualmente nervosa numa bosta de luau promovido por garotinhos cagões lá na praia do Condomínio Atami. Naquele dia o maluco vomitou sangue, literalmente, e a partir de então minha má influência havia tomado conta da sua vida. Quer saber? Foda-se. Com toda areia e outras tantas sujeiras ele continuou tocando aquele violão desesperado. Meses depois o violão continuava comprometido, saía areia de tudo que é lugar. Acho que aquele violão nunca mais foi limpo, acho que ninguém teve a manha de passar um paninho nele. Porra, tô querendo dizer o seguinte: Que bom que o violão do França foi sujo por muito tempo. Que bom que a voz dele é uma voz meio estragada já naturalmente e piorada com maços de Malboro e garrafas de conhaque. Foi você, Bróder, que me ensinou que a solidão não mata, só dá a idéia. Isso bem antes do teu disco existir. O que posso dizer? Teu álbum é belo e triste, belo porque triste. E quem quiser degustá-lo tem que saber que por trás duma estudada docilidade virá o veneno sinistro corroendo a garganta, incendiando a traquéia, revirando o estômago. E como resultado final, inevitavelmente sentirá os olhos nublarem.
Luiz Felipe Leprevost
Rio de Janeiro - Baixo Leblon
07/11/2006 - 00:28 horas
segunda-feira, novembro 13, 2006
sexta-feira, novembro 10, 2006
Para o pessoal aqui de Curitiba que está com saudades do mamute mutante mais querido das redondezas da Cruz Machado, aqui vai um vídeo do Leprevost detotando um clássico dos iconoclastinhas: "variação bipolar do humor" (que também está no cd "a solidão não mata, dá idéia" que será lançado em breve)
Variação bipolar do humor
(Luiz Felipe Leprevost/ Alexandre França)
Do alto do Corcovado
O Cristo se atirou
Rachou a cara no asfalto
Aliviado sangrou
Não era fé que ele tinha
Não era nem pela paz
Também não era amor
- então o que ele tinha?
Variação bipolar do humor.
Picharam que ele era bicha
No altar de pedra sabão, irmão
Era uma rixa antiga
Entre o pecado e o perdão.
quinta-feira, novembro 09, 2006
estou com uma vontade
de dar uns tiros no ar
para acalmar a multidão
e me embrenhar no seu colo
babando mágoa de criança
e de me arrastar pelo seus pêlos
fazendo gestos obscenos
para os que ficam para trás.
uma vontade de enfileirar
todos os suicidas que pretendem se atirar
de um prédio e me divertir
empurrando um por um
ou melhor, me divertir dando motivos suficientes
para que eles finalmente pulem.
uma vontade de voltar a dar tiros no ar
mesmo não havendo mais multidão
só para que alguém me acalme.
quarta-feira, novembro 08, 2006
entre
o emparedamento
de prédios partidos,
depredados e pichados.
entre
o guarda-roupa mofado
e úmido.
entre
livros velhos,
desfolhados, despetalados,
grifados com caneta piloto.
Eu ouço a minha música,
a melodia líquida
da minha circulação
e escuto a rua
aplaudir com seus apitos,
gritos e gestos
o réquiem rouco que dedilho
em poucos acordes azuis
derramados do meu umbigo.
Por dormir neste asfalto,
por deixar mensagens de amor neste asfalto,
por ser assaltado neste asfalto,
eu percorro o cárcere
dos órgãos do meu corpo
e o que eu encontro é o sol
cinza.
Estou suado
e com vontade de mergulhar neste asfalto.
Estou vazio
e com vontade
de que alguém
mergulhe em mim.
sexta-feira, novembro 03, 2006
não escreve aqui quem sabe de tudo
o que você quer, o que você sabe, nada
apenas quero daquele que é mudo
dizer o que acha dessa palhaçada
o ritmo vale mais que a métrica e a rima
pois a métrica é salão e a rima cozinha
tudo que a inteligência dizima
é fato a mim e idéia de fato minha
você, que é devorador da comida alheia
que se serve do talento de outro prato
preste atenção: seu sangue não vai mudar de veia
se você não criar pra você um novo braço
Marcos Prado
quinta-feira, novembro 02, 2006
sábado, outubro 28, 2006
já estou imaginando
o que se passa na cabeça
de uma pessoa como esta
na fila do cinema, atrás de mim
a me cutucar com o dedo indicador
até furar o tecido da pele
até incomodar os órgãos adormecidos do corpo
até provocar a minha ira nietzschiana
até que eu não durma à noite com medo
dos insetos que não foram convidados
para a festa silenciosa do meu sono.
ela deve pensar:
"ele me reconhece
ele me quer por perto,
ele sabe que gosta de mim"
daí eu me pergunto:
quem a quer por perto?
daí eu me respondo:
o mundo não é uma máquina de perguntar
eu não estou fazendo este poema
pra você nem pra ninguém
eu posso muito bem
não estar pensando em nada
neste exato instante
eu posso planejar o seu assassinato
mas eu não lhe dei esta intimidade
quinta-feira, outubro 26, 2006
enquanto uma britadeira
de gelo e copo
trava uma guerra sangrenta
contra o silêncio do meu quarto,
um cachorro poodle,
abandonado por seus donos,
tenta uma investida contra
um mendigo sem dono
e sem cachorro.
agora mesmo
enquanto o mendigo
termina de assar este cão branco e mimado
eu tenho um medo canino
de que aquelas pessoas
estendam as suas patéticas e previsíveis mãos
para mim.
e tenho pesadelos
com mães solteiras
me perseguindo pela manhã cinza
de Curitiba
com gordos bebês de colo
com caras gordas de desgosto
exatamente com a minha cara de desgosto
com feias varizes nas pernas
com os seios caídos, com as mãos calejadas, com manchas escuras no rosto,
com uma música brega no fundo,
com uma forçada alegria
de programa de auditório.
estes dias mesmo
uma mulher me ligou me dizendo:
- gostaria de convidá-lo
para um mesa de discussões aqui na universidade
- não participo de mesa de discussões.
- então o senhor não gosta de ser testado?
não falei o que me veio na mente,
esta gente é perigosa,
sem dúvida ela planejava
o meu apedrejamento
em praça pública.
terça-feira, outubro 24, 2006
Tem um cara aí em cima
Tocando uma reforma
Com um martelo de aço
Pregando pequenas reproduções de Picasso
Nos buracos da encanação.
Ele me irrita profundamente
Cravando pregos em machucados
Que parecem buracos
Mas que são apenas a má-digestão
Do dia seguinte.
Tem um cara aí em cima
Que deu uma reviravolta
Ouvindo Paulo Vanzolini
Num bar de rodoviária
Com um copo de cerveja quente
Esbravejando para os vira-latas
E repetindo a frase “eu posso”.
Agora
Ele não cansa de bater
Uma vitamina pela manhã
Agora
Ele não cansa de escutar
Músicas de relaxamento.
Tem um cara aí em cima
Que me quer morto
Por que eu critiquei o Oswaldo Montenegro
Por que a sua mãe me deu mole no elevador
Por que ele não pode mais
Ter um copo de vodka nas mãos.
Tem um cara aí em cima
Que quando eu reclamo
Ele só sabe me chamar de bêbado.
segunda-feira, outubro 23, 2006
sábado, outubro 21, 2006
estou dentro de alguém
como se eu olhasse
uma amiga no olho
e pensasse "estamos no fim".
mais uma vez
tirei sarro do amor
como quem atormenta
o irmão casula
e me rendi a lei de uma mó
que enforca e quente circula
idéias televisivas
em nossa mente-classe-média.
mais uma vez, amiga
você reconheceu que nenhuma luz
foi acesa ou apagada
e que nós precisamos de nós dois
numa célula um-ao-outro
onde o claro e o escuro não existem
onde se nasce mais de uma vez
e se morre carne
por dentro.
segunda-feira, outubro 16, 2006
Músicos tocam juntos, poetas escrevem e como poesia pode ser qualquer coisa, até conversa entre pessoas inteligentes, o França e o Leprevost resolveram levar alguns leros. Olhem bem, os dois iconoclastinhas são aqueles ali no fundo do bar. Estão ali há horas, bebendo e fumando. Só param pra rir. E pra mijar. O magro e o gordo, asterisco e obelisco, duas antenas captando, raptando idéias, conceitos, ícones, delírios, fantasias, pequenas epopéias do cotidiano e colocando no papel. Flashs, eles não perdem um. Parece que estão ligados a tudo e a todos. Epa!... essa frase é minha ... ladrões... ah...então é assim?! Remixar a vida, cortes, edição, a contribuição milionária de todos os erros? A genialidade que soma o que somos e faz a multiplicação dos milagres? A vida reinventada, o perfil inédito através do que é fútil? Pode ser, mas pode ser também que seja mais do que pó de ser. O que eu sei é que eles se apropriaram do discurso simbolista de Curitiba e como bons iconoclastinhas partiram pra destruição das imagens.
Leia com atenção, cada detalhe, minúcia, delícia, lágrima, riso, toda maravilha, miséria, é uma imagem do nosso espelho, que eles, sem dó nem piedade, estão quebrando. E não adianta colar os cacos, se você fizer isso, vai dançar; e eles, rindo da tua cara, certeza, vão requebrar.
Antonio Thadeu Wojciechowski
Poeta e compositor.
terça-feira, outubro 10, 2006
I
O dia em que o Diabo fez uma proposta a um velho Lingüista.
O meu quarto de brinquedos.
Livros de cores diversas contrastam
Com montanhas de xerox.
Nada melhor para digitar do que ler.
Entrar em ritmo.
Mentir para si mesmo.
O coração em banho-maria me viu dormir
E agora sabe dos meus truques de escrever.
Da sacada,
Olho para os prédios:
O céu agora é uma peça de encaixar.
Tolice!
A madrugada em minha casa tornou-se uma velha.
Nada se completa.
Abro a geladeira e as suas mechas geladas também são idosas.
Olhar para o iogurte que será tomado
é olhar para as próprias estruturas movediças do interior do corpo.
Adeus cigarros,
Adeus cafezinhos de fim de tarde,
Adeus chope com os amigos,
Adeus madrugadas não dormidas:
O meu conteúdo está inteiro minado pelos costumes.
Ainda tento entender a minha vaidade de escrever um poema que contenha o tempo.
Uma vaidade sim! Isto pouco tem a ver com o meu passado.
Babo todo tempo do mundo no pasto mal cheiroso do meu passado.
E que se dane!
Meu organismo apenas processa a pastosa e fácil massa de resíduos,
Ditos saudáveis pelas revistas semanais
De inutilidades. E que se dane!
Ponho-me a caminhar pelo baixo batel e descortino anos de impertinência.
Nada passou batido nesta máquina de fotos:
Poses, trocadilhos e nomes,
Pousaram os braços em minhas letras.
E eu solto o latido neste final de voz.
Não economizo as cordas vocais.
Mando tudo para todos os lugares e
Me acostumo a indecisão do todo.
A vida não exporta a alegria aos outros seres.
Se é ser,
que se faça por si mesmo.
Nada parece adiantar a falta de viço que as articulações impõem a necessidade de lembrar (ou de não lembrar de nada).
É velhaca a luz que nos dá a liberdade de escolha.
Ela existe para enfeitar paisagens e buracos
Os buracos que formamos no decorrer da vida.
Buracos como os outros idênticos e pasteurizados buracos que a vida nos impõe.
Alçapões enferrujados usados para pegar a nós mesmos
Na esperança de se obter um pedaço da alma
Para se experimentar antes da manhã seguinte.
Engraçado me lembrar agora destes jantares.
Na lembrança do meu jantar de formatura,
até os cristais me parecem familiares e quebradiços.
Podem quebrar ao menor grito ou manifestação de agora.
É o que acontece. Que se dane o rosto inteiramente cortado.
Talhado com a compostura que uma farsa destas merece.
O que me deixa encantado é a beleza da descompostura
que um copo cica me provocava.
Encantava-me a descompostura que a aurora recebia os meus.
E eu admirava a sonoridade da panela de pressão.
O que na manhã era maravilhoso era ler o jornal e desmaterializá-lo em função da imagem humana.
Hoje, vejo exaustivamente televisão na tentativa de me tele-transportar a um tempo que já não é mais o meu.
O que de fato fica,
são estes entalhes de fanfarrice que a vida nos permite.
Deixo o tempo brincar com as incrustações de suas páginas-pele.
E me descubro um bloco de notas amarelo.
Cada nota uma ruga sutil
A reverberar a existência
Ou a falta dela.
O que guardar nestas velhas caixas?
Por que não desarrumei a mudança?
Ainda meus documentos pesam nestes compartimentos imunes a qualquer culpa.
A minha culpa,
A culpa que eu insisto em ter e reter no passar de capítulos.
A forma barroca de controlar tudo isto
Está nas manchas que a minha mão ostenta como troféu de uma velhice
Quase acabada.
É como uma corrida no deserto
Onde multidões de grãos de areia
Acompanham as formas de existir, inexistir e desistir.
O que me importa agora as oposições?
Se mais uma vez a vida me faz falta.
A minha vida se comporta como um pai que
É sempre uma lacuna
Por trocar os seus
pelas viagens.
Um copo de água,
Um copo de canetas,
Um copo de solidão agora desaba as lágrimas
Que há tempos eram entornadas para dentro.
Transbordar é a face feliz de um rio.
Sou um rio que corre relativamente satisfeito com o que foi realizado.
Um rio morno e limpo por que esquecido.
Depender da metáfora
Foi o meu maior erro.
Muitas vezes
Viver sem em nada pensar
é uma maneira prática de apagar os erros.
Seria idiotice me confundir com um destes velhos móveis?
A minha consciência esta completamente mofada.
Já estou automatizado, mesmo aqui escrevendo este poema,
Que é na verdade uma charla mal construída. Logo você se tocará do tempo que perdeu! Pois este poema contém, pelo menos, o seu tempo perdido.
E isto é um entidade.
Ser uma entidade já não parece um júbilo,
Mas uma sangria de velhas imagens reutilizadas.
Eu me reutilizo na preguiça do existir.
Faço as mãos darem as mãos às minhas mãos.
Troco o andar pelo andor da tarde.
Desperto o vegetal em mim.
O vegetal que sempre pousou leve em mim.
E se eu morresse mais cedo?
Se eu dependesse do antes da minha carência?
Este descontrole me envolve
E descubro que a perda do senso
Revigora a vontade de existir.
A luz do dia não soa ao cair da tarde das almas.
Como é perder a alma?
Pois eu conto a você como é deter uma alma.
Matar dá esta impressão.
A impressão do nada como um objeto.
O nada como um sabor.
O nada como o quente e frio.
O nada com braços e pernas: a morte.
Há de se ter olhos suficientes para ver todas as mortes andarem.
Todas as mortes se cumprimentarem.
O meu livro de recortes de jornal me acalenta em insônias como estas.
Remonto o dia com as notícias que quero.
Sou ranzinza, preciso deste mimo.
Este sufoco que eu impus a minha respiração.
Quero a paz do afogado
Que finalmente fez parte do mar.
Quero fazer parte de algo e descansar.
Dormir.
A mãe abre a porta
Para conferir se o filho já chegou
Existo por alguns segundos
Por um fiapo de admiração
Será fácil perceber
Que estou morrendo?
Ligo a televisão.
Em todos os lugares eu ligo a televisão.
Nos bares e lanchonetes,
Nas feiras de artesanatos,
No aeroporto internacional,
Antes de dormir
Eu ligo a televisão e dou boa noite a minha solidão.
Não é a toa que este dia rime com solidão,
Pois ainda lembro de você quando sem querer
A novela liga a televisão do fim de meus dias.
E quantas tardes desperdiçadas com tratados e coisas mortas.
Não é necessário falar meu bem,
Eu ainda durmo com a falta de seu calor em minha cama e com o som da televisão ligada.
A oposição que sinto crescer nestes horários:
A minha vida e a sua morte.
É a fabula que tento reproduzir nas beiradas do crepúsculo, esta esperança de um ontem que não acontecerá. E tudo isto por que eu a amo. Amo todas as nossas coisas e amo morrer em paz para a encontrar a sós.
Nada mais justo do que o tempo me dar a mão.
Caminhemos nesta ciranda, amor.
Já é chegada a hora do tempo desinteressar.
Na rua de baixo já sou uma sombra idosa.
Invento uma bela velhice para demonstrar em meu quarto.
Nada do que havia escrito, nada do que havia falado cabe nestas lacunas de pele.
Sobre as moedas do troco eu me jogo e esbravejo: um gole desta xícara de nada.
E tomo, engulo o nada como chumbo em calda.
Sobrevivo como um piolho-de-cobra a deriva no assoalho do pensamento mortal.
O que quer que eu dirija?
Um carro, uma moto, a filosofia inteira?
É distribuir beijos na chuva esta poesia
É catar pingos de lua esta poesia
É envelhecer com os pregos esta poesia
É ser a ferrugem esta poesia
É sobrar no alto dos restos solares esta poesia
É embebedar as estrelas esta poesia
É confessar a morte já anunciada esta poesia
É perceber que nada atrapalha o fluxo de tudo existir nesta poesia.
Ah, noites de curvas imperfeitas e sábios beberrões
Ah, claridade de vento do ventilador de teto
Ah, média requentada na barriga do velho esclerosado
Ah, multidão de sem-tetos que batem a minha porta, que infestam a minha rua.
Eu estou completamente tomado pela cafeína, cocaína, nicotina, pela tinta de qualquer vício.
Me iluda mais um pouco, leitor imaginário.
Pois sou esta sombra que baila de parque à parque
Destilando o seu incomodo
Acumulando desgosto e alterando o fluxo deste adubo de vida.
Sou eu que faço você sorrir do desgosto do mendigo.
E eu gosto do gosto de todos os gostos amargos
E eu já acostumei a língua a esta ilha de flores encarniçadas
Boto o chapéu e saio a procura da amada.
Quem não teve a amada, quem não a possuiu?
Vem cá que eu o conto como é o gosto de pele e o mostro o porquê do amargo.
É esta cidade que eu vejo do alto.
Combustão de carros e cores, ferrolhos abertos, campainhas em surto frenético de rebeldia, os tímpanos pegando o fogo de prometeu, os tímpanos deitados em fogos de musas esquecidas, loucas, Cassandras perdidas no asfalto deste pensamento senil e ardiloso, um ranço de bebida falsificada, uma corisa incandescente, os lábios tortos de chicletes, balas, doces, desinfetantes bucais, água boricada, chacina em massa dos senhores da morte, dos meus companheiros Mortes.
Limpo estas intenções com o pano das pálpebras e a vejo, ainda com vinte anos, lambendo as carnes da ampla carne do tempo, pois eu ainda a tenho, e a venero, e a condeno a ser minha, como minha é esta poesia que já é das coisas, do mundo, do universo e das pessoas, dos animais invertebrados e vertebrados, pois eu te amo e é de todo ser humano provar certas coisas no cemitério, em qualquer enterro, em qualquer velório, sou esta carpideira de língua absorta e nojenta e asquerosa, pois eu não a tenho e não há outra forma de não anunciar a minha velhice escrota, esta caminhada louca para o nada, pois me resta pouco e pouco é o que alimenta as vértebras, a falta de osteoporose, a renite alérgica, a desculpa esfarrapada, a vergonha de não ter absolutamente nada a dizer diante do mar, diante de um espirro de Deus, frente à oposição que me faz o que sou, frente ao que me faz dizer “não me deixe sozinho, amor, não me deixe”.
A balança anuncia: cento e poucos quilos.
A minha alma era tão magra, seus cachos espaçosos.
Tive a coragem de chorar e de não chorar quando necessário.
Vê esta ferida debaixo dos olhos?
É uma das lágrimas que secou solitária, porém fescenina.
Não criei meninas em meu peito, soprei cabelos de mulheres,
Soprei verdadeiras feridas.
A varanda abre seus braços, me larga na respiração do mundo e ainda assim espero respirar o perfume de uma flor suburbana de quintal.
Um desejo derradeiro, talvez.
A minha frenologia do frenético:
Grito e assalto o eco das equações impossíveis,
De tudo o que não irei descobrir,
Pois a vida é também este render-se no rendez-vouz do infinito descobrir.
Acabou e vou dormir e nada mais de descobrir, descortinar, desbraguilhar, desatarrachar, desenfrear, desarmar.
Não se contenta em apenas existir, velho chato?
Não! Milhões de vezes Não! Gosto de negar; negar me dá poder de me afirmar frente à estes idiotas sem consciência e dor.
Não, pois tenho a minha dor que sei muito bem como cultivar.
Quer simplesmente vomitar o passado para fora?
Ter as idéias depositadas em cada célula do corpo?
Ser o mestre Yoda de todas as gerações
Que não sabem ainda a que ponto um ego pode inflar?
Neste caso,
nado com os gregos rumo a alguma guerra;
O destino é um inimigo visceral,
Não me rendo a Guerra nas Estrelas,
Remonto a Ilíada.
não se engane com esta certezinha de dor que você já tem.
O destino é um vírus que o mata sem saber por quê.
Envelheça.
Envelheça de uma vez.
Mas ainda me vejo,
doido e nu pelas ruas da cidade que sempre me desprezou.
Eu gosto do desprezo como quem gosta de mosquitos a rodar por uma suculenta bolsa de sangue noite afora.
Por que eu mesmo agora rezo para que me ataquem as moscas e as pessoas com suas asas pegajosas.
Eu não desprezo mais a dor, eu a quero.
Gostosa e fogosa pela minha pele enrugada e muito pouco saudável.
Pois sou mesmo esta língua a corrompê-la pelos vãos destas sarjetas de mulher.
Sou mesmo estas notas que Bach destila com uma sabedoria de messias.
Sou mesmo este sol que ofusca a mente em dias de eclipse.
Venha galopar neste louco alucinado que sonha com garrafadas e mais garrafadas de ejaculação sobre a sua face sem dor e arrependimentos.
Pois você é a dor.
Pois é assim que gozarei a parte final da minha desastrosa comédia romântica.
Gozando na sua boca, nos seus pensamentos, na sua falta de dor, de remendas e band-aids.
Venha dor,
Vamos macular o que sempre sonhamos macular, querida dor.
Vamos acordar este ódio que há tanto tempo ficou reprimido na sala 1 dos nossos corpos chamada “sociedade”.
E vamos sim beber até arrotarmos o arrependimento de Deus.
Vamos nos espalhar feito praga a influenciar jovens e crianças.
Vamos chamar a polícia sem motivo algum,
o hospício, o inferno, todos os infernos...
...ahahahahahah, mas de que me adianta isto agora,
Sou uma figura deplorável mesmo.
Anos e mais anos escrevendo sonetos e agora
Do nada
Querendo dar uma de libertário contemporâneo.
Só faltava eu estar escrevendo esta porcaria em inglês.
Ah, universidade, com seus nefelibatas de pensamentos pré-fabricados,
Ah, positivismo de gaveta, máscara fútil de ideal capitalista.
Ah, o dinheiro e o seu cheiro de buceta lavada.
Ah, o licor de tudo que é pago.
Ah, a minha vida que quer ser paga em três vezes se possível para demorar mais.
Ah, caça-niqueis chamado amor.
Engulo quantas balas halls for preciso, amor, e desativo todas as senhas que o corpo possui para te ter.
E venerarei todas as pedras que combinam com os seu signo, seu rosto, seu dia, seu eu.
Pois debaixo da cama ainda sobra um pouco de ego,
Em segundos deflagramos este maravilhoso chaveiro-ego
E nos adoramos até dizer chega e trepamos de lado, você rebolando feito uma louca atrevida e completamente depravada, com o pescoço torto a pedir os meus lábios, o meu ego, a minha fala e o meu falo.
E você vai se submeter assim como eu
Com todo o prazer, também.
E deixaremos de viver: comer, banho, acordar, dormir, trabalhar, falar, comentar, obedecer.
Nós já sabemos o caminho, amor. Por que não seguimos?
Eu a engulo e você me engole. Pois eu já conheço o seu delicioso sabor de mulher.
Chega de vitamina C, Xenical e Viagra: nós só precisamos nos engolir.
Atirar as nossas roupas pela janela e desvendar o segredo do guardador de carros.
O segredo da antena circular.
O segredo da vendedora de bilhetes.
Da vendedora de chicletes.
Ah meu amor, só precisamos repetir este gesto exaustivamente até sentirmos este nosso roçar de objetos soar a última melodia das nossas vidas.
Pois o meu quarto já não tem mais chão e nem teto,
Apenas esta sua pele suada, respingando dúvidas e mais dúvidas.
E retratos da juventude a conversar com esta sua cabeça insaciável.
A minha identidade amarelecida, uma foto do Sebastião Salgado,
A pobreza maquiada ao alcance da minha mão de velho imbuído de tola compaixão.
E...
...de que adianta? De que? De que adianta dominar todas as técnicas poéticas? Todas? Adianta dominar? Dominar Dominar Dominar. De que? Todas elas? De que? De que adianta dominar todas as técnicas poéticas? Adianta? Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar Dominar. De que adianta dominar todas as técnicas poéticas?
Se quem esta falando não é você,
É sua vaidade.
É a minha pura vaidade destilada e branca.
Já passa das três, a fome bate como tombo na sarjeta.
Eu, por vaidade, não vou comer.
Não quero.
A minha vontade tem de ser maior que a minha gula.
E será.
O cheiro do desodorante já demonstra as horas que passei escrevendo sobre mim.
Não posso mais falar sobre mim, senão estouro de vez.
E como mastigo fundo os órgãos do meu espírito.
Isto, funcionando como se o resto não importasse.
E talvez não importe mesmo.
Agora choro e me arrepio com a lágrima que escorre pelo meu rosto
Até, subitamente cair em minha mão direita.
Estou aliviado, a cada verso o meu passado parece fazer as pazes comigo.
Como se o meu inferno finalmente apagasse o seu fogo.
É o que realmente sinto: estar sendo inteiramente puro com o meu passado.
A raiva, assim como a solidão, sente um pesado sono
Em tardes como esta.
Irei limpar as minhas gavetas, faz tempo que não faço isto.
Meu quarto perdeu o rumo, o sentido.
Tudo espalhado e fedido como um verdadeiro chiqueiro.
Preciso espelhar a minha atual condição mental:
A de alguém que fez as pazes com o passado.
Não foi truque ou logro de qualquer espécie:
Aos poucos sinto conhecer o meu passado
E sinto como aprendo a entende-lo e principalmente,
Não julga-lo.
Hum...mas nada que você não me instigue.
Eu sei que passarei mais 48 horas escrevendo ininterruptamente,
Eu sei que o seriado 24 horas sairá do ar,
Eu sei que as noites e os dias pareceram iguais
E irretocáveis,
Eu sei que uma geração inteira ficará órfão do seriado 24 horas,
Meu corpo perderá o restante do seu viço,
O laivo de juventude que poderia subsistir em mim
Se perderá a cada clicada neste teclado cheio de dentes
A me mastigar a cada minuto, segundo ou coisa que o valha,
Pois já começo a sentir a presença dele...
...é isto mesmo a sua presença
que me incomoda.
A geração 24 horas cairá e, se eu não morrer, talvez me sinta menos idoso.
Ah, eu sei
eu só tenho a sensação que o meu passado mudou,
mas eu não sei de verdade, não tenho esta plena consciência,
coisa que me deixaria, sim, poderoso e menos vaidoso,
já que conviver com esta artificial vaidade que me toma,
me enforca a cada verso, a cada digitação, não me agrada,
me envelhece cada vez mais, a minha pele parece não aderir mais a minha carne
aos meus ossos, já que esta música, incessante e triunfal nada diz respeito ao meu passado.
Ele nunca mudará. Nunca.
O trato foi que eu conseguiria mudar o passado.
Ah, desgraçado.
Ah, só por que eu domino o tempo não quer dizer que eu conseguirei mudar o meu passado.
Então é isto?
Ora, por que tal tortura?
Estilete, gilete, navalha, bisturi, de que mais você precisa?
Vai me dizer que você precisa de versos?
Só tenho que rir de você, a me perscrutar com estes olhos vermelhos e chapados de demônio arrependido.
Ainda não sei como o chamar, ser ansioso.
Seria pelo nome mais abjeto? Satã, é você a me acariciar o dorso?
Eu conheço as suas mentiras de moleque,
O seu papo, a sua lentidão de fala, de boca e de língua.
Pois eu o odeio e não perdôo os seus atos.
A sua enganação
A sua maquiagem borrada.
Tenho 70 anos
E talvez hoje,
Falar meu nome seja o meu maior verso.
Acredito que a multiplicação de mariposas no meu lar
Seja as palmas que eu esperava de Deus ou de algo que me espera chegar.
Mas vejo, Diabo, que você me fez a melhor proposta.
Se eu conseguir conter o tempo com um poemaTerei o maior prazer de mudar o que eu quiser no meu passado.
Ao pegar como ponto de partida o tema da solidão, o poeta e compositor Alexandre França tece, em seu primeiro CD de canções, um painel da vida noturna, desde os seus personagens mais célebres, como a prostituta e o músico de bar (retratados nas músicas “Neurótico cantor de boteco” e “Ela”), até os seus coadjuvantes, como os estudantes universitários descritos na música “Reitoria”.
Com um estilo ácido e direto de escrever letras, Alexandre não perdoa os defeitos e manias de seus personagens, que acabam, através de um antilirismo, adquirindo contornos humanos bem próximos à realidade. Inspirado em compositores que vão de Lupicínio Rodrigues a Arrigo Barnabé, este cd é uma releitura contemporânea do tema “noite”, que foi tão recorrente na mpb do passado, e que hoje está praticamente esquecido.
Os arranjos do cd foram confeccionados para, no total, doze instrumentistas - dos sopros (trompete, trombone, clarinete, clarone), passando pelos instrumentos de base (bateria, percussão, piano, baixo, guitarra), até as cordas (violino, viola, violoncelo) - formando assim uma ampla gama de possibilidades e “cenas” sonoras, dando ainda uma cara orquestral para o trabalho.
“A solidão não mata, dá a idéia” conta com a produção musical e com os arranjos de Gilson Fukushima, guitarrista do Grupo Fato (um dos grupos mais importantes da cidade) e também com a participação de músicos de renome internacional, como Endrigo Bettega, Sérgio Albach, Sérgio Justen e Guilherme Romanelli. Há também a participação especial da atriz Claudete Pereira Jorge declamando um poema do autor.
sábado, outubro 07, 2006
O Leprevost, o Troy e o Ivan Justen que se cuidem, pois arrumei um novo parceiro de canções: o Guilherme Diniz, mais conhecido como Diniz na noite curitibana. Só pra vocês sentirem o aroma da perpétua...
Dançando na chuva
você fugiu pelo tubo do expresso
te persegui com a caloi cross
era dia de jogo, eu gritava
você fingia não ouvir minha voz
de repente garoava no asfalto
e derrapava aqui dentro sua fuga
deixei de lado aquela bicicleta
me sentindo em "dançando na chuva"
cantava "sing in the rain" pras pessoas
ninguém entendia a minha arte
fui atropelado na hora do rush
às sete horas da tarde.
frança e diniz
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