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quinta-feira, agosto 17, 2006

Vocês conhecem o Rodrigo Madeira?

Pois é: um dos melhores poetas que eu já li. Já havia lido alguns textos do cara numa oficina de poesia ministrada pelo Koproski, mas antes de ontem, no porão loquax, o Rodrigo superou qualquer espectativa. Numa homenagem ao Paulo leminski, Madeira foi destaque ao declamar esse sensacional poema:

Ao meu assassino

há muito equívoco nesta
cidade
sobre a morte de paulo leminski.
morreu de bebida, de curitiba,
de harakiri e o diabo!

deixe-me dizer-lhe:
leminski está morto e fui eu
que o matei.
era tardinha, sete de junho
de 89, na esquina do stuart.
eu tinha apenas dez anos de idade.

abracei-o no golpe de faca
e só largaria
depois que ele se largasse. olhou-me,
excepcionalmente, com olhos de
cachorro manso e disse: "quem é vivo
sempre desaparece".
sorriu-me como se eu morresse.
nem perguntou
por quê sabia que aquilo
era obra de um tigre...

hoje entendo a razão
de não ter cabido um "sinto muito,
poeta!"
é a ordem natural das coisas.
leminski também matou seu touro
e voltou pra casa de mãos novas

comigo
acontecerá o mesmo.
não fiz nem 28 anos e já espero
o golpe de meu vingador.
tenho esta impressão
de que ele virá da direita,
sabendo que sou canhoto em tudo.

morro de medo do menino que
fala sozinho, possível poeta,
da menina que penteia os cabelos
no vento (será poeta?),
do adolescente no expresso
que lê a ilíada em pé.
morro de medo, morro de medo,
mas não há jeito, é certo como o sábado.

na esquina de casa,
na saída do barbeiro,
na volta da banca,
na fila do banco,
num estacionamento
de supermercado, ele estará
a minha espera.

inevitável que seja.
em algum lugar da cidade
meu assassino está nascendo.

escute daqui alguns anos estas palavras:
"tudo bem,
cara, eu entendo! perdoe-se como me perdoei,
ou não escreverá sequer um verso.

apenas interceda em meu favor para que eu seja
enterrado em meu bar preferido.
só isso. os poetas merecem ser emparedados
em seu boteco eletivo, assim como as aves
devem ser sepultadas no ar.

o botequineiro saberá rezar minha missa."

não há jeito,
é certo como o sábado:
tal qual as putas de outros tempos,
o poeta cora seu rosto com sangue.

o sangue de outros poetas

Rodrigo Madeira
_________________________________________

até me arrepia ao reler. então meu caro Corona (se você estiver lendo este post), quem sabe não é a hora de editar este grande poeta, ein?

quarta-feira, agosto 16, 2006

Beber é fácil (para o amigo Ivan Justen sobre a noite de ontem)

o silêncio é uma arma branca
se aparecerem com uma branca
fita, ri e prende fôlego
pois ele é uma arma branca
mesmo com um 38 ou com uma 45
é um vício alguém se fuder pelos outros
o silêncio é uma arma branca
se você é ferido ao dar a outra face
lembre-se: ele morreu asfixiado
e você, um sacana, simplesmente
olhou para o gênio e em silêncio
quebrou a lâmpada

segunda-feira, agosto 14, 2006

diálogo em noite frustrada

Ela diz - eu sou um redemoinho de sentimentos e sensações, uma alma pronta para alçar vôos cada vez mais profundos por entre os galhos rotos que a vida nos impõe, pois esta é a minha vida, um rio transbordando e transbordando e transbordando um céu de sentimentos múltiplos, de cores nunca antes vistas queimando o que é diáfano e lacrimoso.

Eu digo - você está carente.

Ela diz - você nunca vai entender o que se passa nesta alma-fênix de mulher rasgada pelas artimanhas ferinas da vida, já que esta sua forma machista de impor a sua opinião será sempre uma barreira entre esta represa tórrida de sentimentos, que sou eu, e esta sua mania irritante e reducionista de limitar todo e qualquer assunto que diga respeito à mim.

Eu digo - você está carente.

Ela diz chorando - você nunca vai me entender. você com este seu ar de pseudo-intelectual, com este cigarro entre os dedos, com este brilho irritante no olhar. sabe o que mais, você é um bêbado, eu nunca deveria ter me envolvido com um tipo escroto como você, já que você, com esta sua enpafiazinha de moleque, nunca irá entender uma mulher de verdade, uma pantera desvairada no cio dos mais puros e impuros sentimentos, uma estrela cadente do eterno brilho da sexualidade feminina de um fera em extinção

Eu digo - você já não está falando coisa com coisa

Ela diz - e o que você entende disso, seu merdinha?

Eu digo - me dá um abraço?

sábado, agosto 12, 2006

cidade-renite

aqui na cidade-renite com dentes cariados de
gente friorenta de crack
aqui neste mar cinza de cinzas de cigarro
e solidão enlatada em postos de conveniências
aqui enconstado em uma mensagem de amor
brilhantemente brega
no muro do cemitério municipal
aqui consumindo o resto da ausência
que o silêncio nos leva de aviãosinho até a boca
aqui carente de crenças de templos em templos
procurando um colo de pedra um abraço de gesso
faz tempo eu tento encerrar o assunto
aqui na cidade-renite espirrando respostas
costurando a vida
com os retalhos da morte
costurando a vida
com os retalhos da morte
com os retalhos mofados da morte
da cidade-renite

sexta-feira, agosto 11, 2006

Aniversário

Eis que convido alguns amigos (mais especificamente, Gugão, Troy e Helena) para tomar uma cerveja no PF e ninguém aparece. Claro que os amigos de sempre do Ponto Final estavam lá: Drica, Diniz, Samuel...enfim, toda a cambada. De repente, para a minha surpresa, surge Gilson Fukushima...porra, Fukushima, a última pessoa que eu esperava que fosse aparecer no Ponto Final...Fukushima, se você por acaso ler este post, saiba que você subiu no meu conceito.

segunda-feira, agosto 07, 2006

LEITURA PÚBLICA DA PEÇA ‘TUA PASSIVIDADE ME EMBRUTECE’

DE – LUIZ FELIPE LEPREVOST

Com os atores Gabriel Gorosito e Renata Hardy

Onde?
Solar do Rosário
Rua Duque de Caxias, nº 04, Largo da Ordem
CURITIBA-PR
Quando?
08.08.06 – Terça – feira – 20h30


Sinopse de TUA PASSIVIDADE ME EMBRUTECE

Tua Passividade Me Embrutece é a primeira incursão do poeta Luiz Felipe Leprevost em dramaturgia. Resultado de um estudo que alia diálogos cotidianos de um casal com um discurso poético de imagens ousadas. A história se passa em Gélida, cidade inventada pelo autor que contém coincidentemente referências não explícitas à cidade de Curitiba, onde o dramaturgo nasceu e vive.
O ator Gabriel Gorosito interpreta o personagem Ele, um cara obcecado por uma garota que o despreza quando o admira e se entrega de olhos fechados, mordendo os lábios, ao mesmo tempo em que se prepara pra dar o bote. Renata Hardy faz Ela, personagem antítese, ou complementar (como preferirmos) de Ele. A relação entre os dois pode ser considerada um tipo de ódio que vem engarrafado, um antídoto que é tomado em doses homeopáticas, ou seja, uma ampola pra cada um dos atos.
O que a trama de Leprevost discute é a impossibilidade do amor. Logo nas epígrafes da peça, a chave do todo nos versos de Cazuza “O teu amor é uma mentira / Que a minha vaidade quer” e de Gonçalo M. Tavares “é uma probabilidade raríssima: / as mulheres amarem / homens que as amam.”
Com características autobiográficas e diálogos retirados de conversas e conflitos reais entre o autor e a atriz pra quem a peça é dedicada, Tua Passividade Me Embrutece acaba sendo um estudo profundo e sensível sobre as facetas da paixão. Levando em conta esse tema recorrente em toda a literatura universal, mais as artimanhas de estilo e forma, a obra de Leprevost, extremamente original, pode ser considerada um inteligente e delicioso pretexto pra poesia.

terça-feira, agosto 01, 2006

olho fixo pra cegueira da parede e de repente Vinícius de Morais no som aqui de casa cantando rouco rouco bem rouco mesmo depois de uma ampola de Dimple essa coisinha mais linda (é a melhor versão que eu conheço dessa canção):
nature boy

There was a boy
A very strange, enchanted boy
They say he wandered very far
Very far, over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he

And then one day,
One magic day he passed my way
While we spoke of many things
Fools and Kings
This he said to me…

The greatest thing you’ll ever learn
Is just to love and be loved in return.
(ainda estou aprendendo a ser triste. um dia, quem sabe. segurar o choro, que a parte mais fácil, eu já consigo).

sábado, julho 29, 2006

quarto

estou enfurnado novamente
entre a minha cadela sarnenta
e o edredom sufocado pelo olor
de nicotina da noite.

vou procurar outra posição
para deitar em outra posição
nos meus sonhos em outra posição
na região dos pesadelos em outra posição
dos desertos dos nadas de outras tantas posições
de dormir e dormir e dormir.

a vida não está satisfeita comigo
e eu insisto no silêncio tétrico
dos galhos quase secos da minha circulação
e insisto em sorrir em fotos de família
e em beijos que não são dados com a boca.

eu insisto em coisas natimortas:
tenho a certeza de que nada
sobreviveria entre os meus braços.

quarta-feira, julho 26, 2006

resultado do encontro de ontem na casa do Polaco da Barreirinha, Antonio Thadeu Wojciechowski:

as melhores idéias tive mijando
cagando ou andando
necessidades fisiológicas
são descarga pro tutano
o mijo bate na água
e a água bate na bunda
você sabe quando

Antonio Thadeu Wojciechowski, Alexandre França, Luiz F. Leprevost


70 VIVER MELHOR

solte o animal, bicho
não sufoque a fera
que vive em você
ela é uma brasa, mora
de aluguel alternativo
não sou do tempo do onça
cutuco com vara curta a nova era
não sou da galera do arena e nem do PMDB
sou do LSD
as mina livre não são puta
Sócrates levou a vida
tomando cicuta

Antonio Thadeu Wojciechowski, Alexandre França, Luiz F. Leprevost


tenho um coração tão frio
a tristeza é uma alegria
sorte dela soltar lágrimas
em toda dor que resistia
será que minha lágrima é hemorragia
sangue velho que fluía
nas veias da canção que nascia
da barriga de uma tristeza
aberta sem anestesia

Antonio Thadeu Wojciechowski, Alexandre França, Luiz F. Leprevost


EVANGELHO PUNK

meu amor, daqui pra frente
tudo vai ser para sempre
o passado acaba de repente
e o futuro não existe simplesmente

não, não, o futuro não existe simplesmente
não, não, o futuro não existe simplesmente

o presente vem de embrulho
tem que fazer um esforço hercúleo
pro ano não acabar em julho
e o resto do tempo eu ficar pagando os juros

não, não, desse jeito o futuro não existe
não, não, desse jeito o futuro não existe

viver é melhor que pagar
a minha cova não adianta hipotecar
na pança dos vermes pode vir me cobrar

Antonio Thadeu Wojciechowski, Alexandre França, Luiz F. Leprevost


COSTURA PRA FORA

meu reflexo está comprometido
quando te vi, você já estava intrometida
e tão metida
você costurava pra fora, meu amor
e as suturas de dentro
me deixaram em carne-viva

o médico tem seu diploma
mas deus, deus é que opera

antes de cair de coma
consulte a fila de espera

me espera, amor
fila de espera

consulte o tamanho da fila de espera

tinha um amigo nosso
que caiu de coma alcoólica de tanto beber de amor
aí entrou na fila do SUS
a gente não sabe se ele morreu de tanto esperar
ou se morreu de susto mesmo
só que é o seguinte, resolvemos não deixar barato
fomos prum boteco, enchemos os cornos de cachaça
e então compusemos esse blues-sambástico
pro nosso saudoso amigo João Otávio dos Santos
que a gente gostaria que estivesse agora
entre todos seus familiares
isto é, entre todos os Santos


me espera amor
fila de espera
consulte o tamanho da fila de espera

Antonio Thadeu Wojciechowski, Alexandre França, Luiz F. Leprevost

segunda-feira, julho 24, 2006






CONVITE

Quando vocês esperavam um show do Black Maria ou do Relespública, uma peça pop do Felipe Hirsch, uma tarde de chorinho no Beto Batata com o Trio Quintina, uma madrugada poética com o pessoal da Quinta dos Infernos, um livro minimalista do Dalton Trevisan, uma tarde de autógrafos com o Dante e o Solda na Biblioteca Publica do Paraná, uma festa no Largo da Ordem com o folclórico Mundaréu, o novo cd do Grupo Fato, uma polêmica levantada pelo Ricardo Corona, a performance de poetas vanguardistas no Wonka, as estripulias do baixo do Glauco Solter, uma performance comandada pelo Otávio Camargo na Ybakatu, uma estréia do Luis Melo em longa-metragem carioca, um daqueles deliciosos pratos brasileiros do Jacobina, a discussão comunista do Walmor Marcelino, a abordagem na XV do Grupo Epopéia, um evento modernoso na Casa Hoffmann, aquela parceria tão esperada entre a Etel Frota e Waltel Branco, o beijo dos vocalistas do Denorex-80, o batidão do DJ Ilan, uma seleção de atores no ACT, um festival de bandas na Lapa, o sorriso do Batista de Pillar, a nova edição da Agenda Arte, os vocais do Alexandre Nero, uma comédia dirigida pelo Fiani, um bafafá do Maurício Vogue, uma palestra do Tezza sobre o Bakhtin na Universidade Federal, a milésima edição do Prêmio Saul Trumpete, o novíssimo investimento literário da Travessa dos Editores, eis que “com seu humor ótimo” eles surgem:

OS ICONOCLASTINHAS

5ª feira, dia 27 de julho, de 2006 (o ano do cão chupando manga), às 21 horas, no kappelle Pub (rua Saldanha Marinho, nº 670, centro — bem ali na boca do lixo. Fone 3233-4699, 9186-3527)

participações especiais dos ídolos dos Iconoclastinhas:

Poeta da Boca Maldida João Bosco Vidal

Profeta do Largo da Ordem PLÁ

domingo, julho 23, 2006

eutanásia

se
quando eu estiver nas últimas,
entregando de vez os pontos,
eu começar a dizer canalhices do tipo:
"a vida é uma dádiva divina"
"a felicidade sempre esteve ao meu lado"
"o amor salva o ser humano"
"solidão é uma palavra que não existe
no meu vocabulário"
é sinal que chegou a hora
de desligar todos os aparelhos.

sábado, julho 22, 2006

"Os Iconoclastinhas", quinta-feira que vem no Kappele Pub

não marquem nada para quinta que vem: depois de milhares de cartas de fãs e organizações não governamentais, os iconoclastinhas decidiram dar uma colherinha de chá e fazer um show às 21:00 horas na saldanha marinho (uma rua super segura para se andar à noite com as crianças) no Kappele Pub...o número eu não sei, mas em breve saberei. Ah, sempre lembrando a imprensa: os iconoclastinhas não concedem entrevistas.

quarta-feira, julho 19, 2006

pelada sangrenta

agora mesmo
eu quero pisar naquela
cabeça
esmagá-la, só pra sentir o barulhinho
e experimentar o arroto sincero
que o ego faz em situações de emergência.
agora mesmo
eu quero chutar aquela
cabeça
colher espinhos na madrugada do meu medo
e enfeitar com sangue e cuspe
esta testa tão imponente.
agora mesmo
eu quero mastigar aquela
cabeça
e quero lamber todos os comentários
discussões, petis e revoltas
que sempre sobram
no prato de pedra
da inveja.

terça-feira, julho 18, 2006

momento "maloca"

uma guitarra nacional
com as bordas desgastadas
é o que sobrou do rock
e das tardes queimadas
a cigarros roubados
de uma banca especializada
em quadrinhos eróticos
e drogas caseiras

segunda-feira, julho 17, 2006

meu humor continua péssimo

o meu choro
ainda cai quebrando
como estes copos americanos
com restinhos nojentos despencando
aos montes pelas mesas sem calço.
o meu olhar
ainda é duro e manco
como estas ressacas morais
que vem com dor de cabeça
e um paracetamol há anos vencido
no fundo do armário de remédios.
o meu humor
continua péssimo
mas atualmente eu me divirto
com comentários do tipo "seu grosso"
com a inevitável vontade de ir ao banheiro
ou com a briga aos berros
entre os moradores de um prédio
numa reunião para decidir
quem será o próximo
imbecil do síndico.

domingo, julho 16, 2006

Porão Loquax com Leprevost
18/07 – Monólogos dos analgésicos que não fazem mais efeito – Luiz Felipe Leprevost &. Melina Mulazani. LuFe é ator e poeta, Melina é atriz e cantora (Mundaréu). Juntos, farão performances mesclando canto e fala, dando continuidade à pesquisa que Leprevost vem desenvolvendo no campo da poesia oral desde seu primeiro livro Fôlego. Luiz também dará uma "canja" de alguns trechos de sua peça de teatro Monólogos dos analgésicos que não fazem mais efeito (inédita). O espetáculo conta ainda com a participação do ator Marcelo Melo, do guitarrista Marcos Lírio e do poeta Alexandre França.

Serviço - Porão Loquax - Wonka Bar - Trajano Reis, 326 - 22h - couvert 1,99.
- IMPERDÍVEL!!

segunda-feira, julho 10, 2006

um ou dois meses

a cada um
ou dois meses
volto a visitar
uma foto sua e um poema
feito quando ainda
se acreditava no suicídio
da solidão pela tela
do computador
a cada ano
procuro no espelho
e nas vitrines das lojas
de departamento
o que realmente mudou
na minha cara de ingênuo
consumidor
de cidadão comum
que acredita no amor
a cada década
o meu quarto acumula
livros e mais livros
escritos por poetas
que acreditam no amor
de doze em doze horas
eu tento em minha cabeça
desmentir estas pessoas
que acreditam no amor
mas
a cada um
ou dois meses
eles acabam sempre
me convencendo
do contrário

sábado, julho 08, 2006

Busca

e o meu amigo Cláudio Bettega lançou semana passada o livro Busca e já nas primeiras páginas nos mostra que tem ainda muita poesia pra dar:

Encontrei certa vez um verso
Todo esfarrapado e sujo
Disse-me não ter passado
E também estar perdido e sem futuro
Pediu-me encarecidamente
Que escrevesse um poema belo
E nele o colocasse
Formando aqui e ali um elo
Prontamente atendi o seu pedido
E dei-lhe vida poética
Aqui esta o poema
Mas não vou revelar o verso
Quem quiser que advinhe
Sem dar significado inverso

(Cláudio Bettega)

quarta-feira, julho 05, 2006

...mas eis que

entro no blog da Luana Vignon (destaque da poesia da minha lista de links favoritos) e me deparo com esta agulhada na unha do pé:


Um a um eu vou tirando os cacos,
aprendi cedo a rimar as cicatrizes,
aprendi que o sangue nunca coagula na memória,
sei que na sola dos pés a dor é mais aguda.
Sempre entrei arrebentando as portas de emergência,
mijando no contrafluxo,
entrando com os sapatos encharcados de urina na sessão espírita.

A gente caminha sobre farpas.
A gente segue deixando nossos pedaços esparramados por aí,
dentro de xícaras vazias
e travesseiros.

(Luana Vignon)




É, minha gente: nem tudo está perdido.

terça-feira, julho 04, 2006

então tá...

eis que recebo um e-mail contendo o seguinte poema da Jussara Salazar:

poema retirado a pedido da autora
_________________________________

assim...não tenho nada contra a tal Jussara Salazar, nem a conheço, mas cá entre nós: alguém entendeu alguma coisa neste poema? Não?! Ah, tá: então é por isto que a poesia aqui no Brasil é vista como algo chato e restrito ao meio acadêmico.

sábado, julho 01, 2006

competição (com o patrocínio do creme dental Sorriso)

da rua, o som de uma corneta
verde-amarela ressoa
em meu ouvidos de ressaca.
daqui, um pesado tijolo
laranja-queimado ressoa
na cabeça de alguém.

ahhhhhhhhhhhhhhh

que alívio refrescante
para os meus ouvidos.

quinta-feira, junho 29, 2006

pensando bem...
para Mari

rever você
depois de tanto, tanto tempo
é como ler atentamente
uma letra do Chico Buarque e pensar:
"por que não pensei nisto antes?"
saber que agora
você está acompanhada
é ouvir à sós Maysa
se embriagar elegantemente e pensar:
"eu teria pensado nisto"
me lembrar que
você não me dava a mínima
é baixar a cabeça,
fechar os olhos e pensar:
"sim, entendo bem
o velho Lupicínio".

quarta-feira, junho 28, 2006

você sabe

você não sabe o que um tablete de diamante negro
e uma coca light fazem em minha cabeça.
nem imagina por quantos botecos passei
até conseguir uma conta neste.
não tem idéia das idéias que eu tenho
quando você me aborda semi-nua.
não dá à mínima para as latinhas de cerveja pela metade
e nem tem vontade de reclamar deste desperdício que é
tomar os restos de alguém.
é por isto que finjo fumar um cigarro lá fora.
é por isto que acredito que aquilo foi um beijo de tchau
é por isto que construo este castelo de cartas
com um baralho das estrelas da penthouse.
você sabe que eu adoro este seu perfume de sabonete
você sabe que o carro está esperando na garagem
você sabe que eu saio com chuva,
com neve, com o raio que o parta.
e eu sei que você sabe o suficiente
para não me olhar na cara.

quinta-feira, junho 22, 2006



amanheceu e o sol me deu uns tapinhas na cara para acordar. então, resolvi gravar um cd chamado "a solidão não mata, dá a idéia" e lançá-lo em agosto. aguardem.

segunda-feira, junho 19, 2006

masturbe-se

alguns se masturbam
com virtuosos solos de jazz.
alguns, com teorias e suposições
a cerca dos povos que falavam
o indo-europeu.
outros se contentam
com os orgasmos
de certos clássicos lidos
em língua antiga.
outros ainda se masturbam
rindo dos que não entendem
absolutamente nada sobre
estes clássicos lidos
em língua antiga.
há também
os que se masturbam
com filmes eróticos
e eu
que me masturbo
com a mão mesmo.

sábado, junho 10, 2006

Porão Loquax com Alexandre França

e na próxima terça, às 22:30 (ou seja, bem depois do jogo), vai rolar uma apresentação minha lá no Wonka bar (que fica na trajano reis, entre inácio lustosa e carlos cavalcanti, onde era o birinites) dentro do projeto "porão loquax"organizado pelo Mario Domingues. O nome do espetáculo é "canções e poemas do véio-frança-de-guerra". Apareçam e levem muitos aplausos contidos para o deleite do meu ego de borracha (heheheh).
se tratando

- Quantas vezes você ouviu Willie Dixon hoje?
- Cinco vezes:
uma ao acordar,
duas para curar a ressaca
e mais duas para voltar à ressaca.
- E você riu da situação?
- Não.
- Então, me desculpe:
cinco ainda
não é o bastante.

segunda-feira, junho 05, 2006

poética

É simples:
lembra do "a teus pés" de sebo
que eu dei pra você de aniversário?
você pode dar a desculpa
de que o volume estava mal colado
e arrancar a dedicatória
e acabar com o duplo sentido da situação.

E das correções com caneta vermelha
que eu fazia no seu dia?
você pode abrir a bíblia numa página qualquer
ou tirar no cara ou coroa
se o melhor a se fazer é atirar
na cabeça ou no coração.

Lembra também quando eu beijava a pinta no seu pescoço?
então, você pode começar falando
do quanto você a odeia
neste exato momento.

quarta-feira, maio 31, 2006

falando em cinema...

Piñero (2001)


Vi pela segunda vez na HBO e de novo mexeu comigo. Este filme conta a história do poeta e dramaturgo porto-riquenho-criado-em-nova-york Miguel Piñero (1946-1988), que ganhou notoriedade com a peça Short Eyes em 1972. A peça, que foi premiada com o Tony (um dos mais importantes prêmios do teatro norte-americano), relata as experiências que Miguel viveu nas ruas de Nova York em tempos mais difíceis. Piñero fez parte ainda de um movimento artístico/ político chamado Nuyorican, que através da arte buscaria uma identidade porto-riquenha esquecida nas entranhas da cultura americana. Vale a pena conferir

sobre Piñero e Nuyorican

"Piñero e outros poetas Nuyoricanos reivindicaram uma identidade a qual foi definida por eles mesmos, negando rótulos e identidades binárias de branco e preto impostas pela cultura americana. A partir daí, Latinos, que se encontram em uma situação geográfica e/ou cultural de fronteira, passaram a buscar seu próprio espaço e voz". Adriane Ferreira Veras

terça-feira, maio 30, 2006

Minta

Toda segunda-feira rola uma sessão grátis de cinema lá no shopping cristal, às 22:00. Ontem fui assistir a um filme que fala sobre a vida "romântica" do escritor Jorge Luis Borges. O filme é baseado num livro de Estela Canto, grande paixão de Borges. O que ocorre (coisa que eu nunca tinha reparado) é que o Borges dedicou o conto "O Aleph" para a tal Estela. Impressionante que hoje (já que ontem eu terminei a noite depois de umas quatro cervejas) eu fui dar uma relida no conto em questão (por causa do filme) e encontrei uma frase que (coisa do destino) eu precisava ouvir. Lá vai:

"compreendi que o trabalho do poeta não estava na poesia (aqui ele fala, não do fazer poético, mas sim da análise de poemas); estava na invenções de razões para que a poesia fosse admirável; naturalmente, esse ulterior trabalho modificava a obra para ele, mas não para os outros"

(Do conto "O Aleph" de J.L. Borges)

Bom, mais impressionante ainda é eu lembrar neste exato momento de uma das últimas falas do Borges no filme, algo do tipo "Schopenhauer nos dizia que tentar compreender os fatos do mundo é como tentar achar formas de animais e árvores nas formas das nuvens". A questão é que agora entendo o motivo da menina do verão x ter me levado para a sua casa na noite em que lhe entreguei um poema: ela não entendeu aqueles garranchos da forma que eu entendia, mas reconheceu o nobre gesto de alguém dedicar um poema para outrem. Moral da história: por mais que o presente seja uma bijuteria, minta (hoje estou maquiavélico) que você gastou todas as suas economias nele.

Mas esperem, agora que entra o desfecho, a chave de ouro desta minha história. Eis que agorinha mesmo, pirando nestas coisas tolas, eu me deparo com o cd do Luiz Tatit "ouvidos uni-vos" que contém uma música cantada pela Ná Ozzeti chamada "Minta". É claro que vou reproduzir a letra aqui pra vocês. Quem possui este cd, releia este texto em voz alta com o fundo musical de "Minta" (o efeito que dá é no mínimo mentiroso).

Minta
(Ricardo Breim/ Luiz Tatit)

Minta que você sozinho
Fez tanta proeza
Que já tem certeza
que este mundo é seu

Minta que no fim das contas
Pra ser bem sincero
Você nem se lembra
Que me conheceu

Minta mas com muita classe
Como se não se importasse
Com sei lá quem quer que fosse
Mesmo quem lhe trouxe
Toda essa confiança
Que lhe cobre a face

Minta que depois da gente
Bem rapidamente
Você virou outro
E logo me esqueceu

Minta descaradamente
Que daí pra frente
Tudo que cê teve
Foi melhor que eu

Minta mas com segurança
pra que eu me sinta criança
E me dê a doce liberdade
De ouvir mentiras
Em palavras
Que são de verdade

domingo, maio 28, 2006

ah, mulher
hoje, aqui dentro,
eu não passo mais frio:
você tirou a roupa na minha cara.
e eu desmaiei as cobertas da cama
e conservei um gosto de vulva
debaixo da língua
e a estalei diversas vezes
para a sua foto também ter este gosto
e desbotei a memória
para ficar como a sua pose preto e branca
e reinventei
as suas preferências e manias
e reiventei a sua mente
para que ela apenas me imaginasse
pensando na sua nudez
eu sei o frio que me dá, mulher,
quando eu não a vejo nua.

(e na foto, a atriz CHLOË SEVIGNY. Pra quem quiser mais fotos dela, é só entrar no blog do Kim)

sábado, maio 13, 2006

MúsicaPrageada

E no novo cd do Fato há participações de poetas do calibre de Thadeu Wojciechowski, Luiz Felipe Leprevost e Marcelo Sandman. Mas quem me surpreendeu mesmo foi o Ulisses Galetto com a indignada e ótima canção "a Deus". Para quem tem dúvidas ainda sobre comprar ou não este cd, uma pequena demonstração:


A Deus


Dei um adeus a deus
Pra depois o encontrar assim,
De igual pra igual,
Tete a tete,
Olho no olho.


Tenho cá pra mim
Que ele, após cair em si,
Vai me explicar tudo,
Tim tim por tim tim.


E neste dia,
No vai e vem das idéias
Dos ideais e dos desejos,
No calor da conversa
Que haveremos de ter,
Viveremos, por fim,
Um momento sublime.
Ele, como todo deus que se preze,
Seguro de suas belezas
E eu, na condição de errante,
Duvidando das suas certezas.


Ulisses Galetto

sexta-feira, maio 12, 2006

E os Iconoclastinhas?

Eu é que pergunto: Luiz Felipe Leprevost, o que aconteceu com os iconoclastinhas? Você pegou os originais e cruzou a fronteira com eles debaixo do braço? Você tacou fogo neles num ato de histeria iconoclástica? Você, depois de uma noitada daquelas com os seus novos amigos cariocas, teve uma amnésia alcoólica e esqueceu os cadernos de poemas numa favela barra pesada? Você fez algum vodu com eles para que a gente esqueça de vez esta bobagem de escrever poesia? Você os comeu no almoço, já que na verdade você está falido aí no Rio e sem um puto para o PF da esquina? A empregada jogou fora? Você enrolou cigarros politicamente incorretos com eles? Você fez uma fogueira para escapar do frio glacial do Leblon? Você arrumou tanto os meu versos que não sobrou nada? (heheheh) Fez um "banheiro" para os cachorros? Deu em troca de sexo rápido? Fez aviõesinhos de papel para jogar na aula de teatro? Enfim, que fim levou os I-CO-NO-CLAS-TINNN-NHAAAASSS?

...to be continued

quinta-feira, maio 11, 2006

cd novo do Chico Buarque.

Bom, tá certo que eu sou muito fã do cara, mas devo admitir que o velho francisco já está caindo numas de se repetir gritantemente. Deste novo cd, a primeira música "subúrbio", por exemplo, lembra demais a primeira música do disco anterior, chamada "carioca". E notem que o nome da primeira música do disco anterior é o mesmo nome que dá título a este último trabalho (que coinscidência maluca). Estão lá a enumeração caótica de elementos do submundo, a mesma tonalidade e, o mais impressionante, mudanças de frases muito parecidas umas com as outras...acredito até que ele utilize os mesmo acordes, quer dizer esta prova ainda eu não avaliei. Será que foi proposital, tipo "carioca número 2" (como tem a cotidiano número 2, do Vinícius de Morais)?

Enfim, há, porém, neste cd um elemento novo na forma de composição. Se é claro que Chico tenta a todo custo não se repetir, isto se vê pela construção assimétrica da maioria das melodias e harmonias do trabalho. E esta assimetria pode parecer, num primeiro momento, algo enfadonho, mas logo depois de algumas atenciosas audições o ouvinte começa a perceber caminhos, estruturas e dimensões cada vez mais diversas nas canções. E isto acontece bastante com a surreal "outros sonhos", "porque era ela, porque era eu", "as atrizes" (uma homenagem genial as atrizes do cinema francês) e principalemente com a "bolero blues". Esta última, é preciso ouvir muito mais do que dez vezes para entrar no clima. Eu ouvi mais de dez vezes e valeu a pena no final...é uma das músicas mais labirínticas da mpb. Há também "imagina", a última parceria entre Tom e Chico, que na voz da Mônica Salmaso se transforma numa viagem para algum paraíso desonhecido.

Para o jornalista da Folha que disse que não há nenhum clássico no disco, eu aponto "sempre", cuja letra irei reproduzir aqui pra vocês, e "renata maria", única parceria entre Ivan Lins e Chico. O que posso dizer sobre esta última é que a química vingou, já que do Ivan Lins o que eu nunca gostei mesmo era das letras forçadas, lacuna agora preenchida com a precisão cirúrgica do Chico ("ela era ela no centro da tela daquela manhã"...não preciso dizer mais nada sobre esta "tela" de rimas internas). "Sempre" é um clássico, na minha opinião, do calibre de "futuros amantes", por exemplo, e a imagem do "gato aos pés da dona" é uma das mais inusitadas que eu já ouvi do velho Francisco.

Enfim, no geral a gente sempre acaba dizendo "porra, chico é chico", já que mesmo as canções mais fracas do cd, se comparadas com a mpb de hoje, são obras primas. Enfim, pra vocês "sempre":

SEMPRE

sempre
eu te contemplava sempre
feito um gato aos pés da dona
mesmo em sonho estive atento
para poder lembrar-te sempre
como olhando o firmamento
vejo estrelas que já foram
noite afora para sempre

o teu corpo em movimento
os seus lábios em flagrante
o teu riso, o teu silêncio
serão meus ainda e sempre

dura a vida alguns instantes
porém mais do que bastantes
quando cada instante é sempre.

quarta-feira, maio 10, 2006

Blog do Alexandre Nero.

E por falar em grupo Fato, acabei de receber a notícia no orkut de que o Nero está com um blog na área. Eu já entrei e é muito bom, tem inclusive um texto de apresentação do Luiz Felipe. Vale a pena conferir. Eu já disponibilizei o link logo ao lado.

Sobre o Alexandre Nero, nada melhor que um textinho do Leprevost estilo "iconoclastinha". Lá vai:

"Ps. Porque eu quero que publique esse texto na íntegra, mesmo que você ache que é um texto de merda, eu coloquei o “ps” logo no começo. Esse “ps” é pra dizer que não tem problema o “ps” vir na frente. É claro que alguém dirá “Ó que subversivo que o Leprevost é, ele põe o “ps” no começo do texto.” Mas esse “ps” aqui é só pra isso: pra dizer que é pra você publicar todo esse texto, inclusive esse “ps” do começo.
Então, aí vai:

UM CURITIBOCA DE FORA

(de Luiz Felipe Leprevost)
A mão esquerda está caída. É como ele desmunhecasse. É um cacoete de estilo (se é que estilo tem cacoete e cacoete tem estilo). A mão direita segura o microfone. O quadril e as pernas se movimentam, e é o suficiente pra alguém pensar “Nossa, ele rebola!”

É, ele é um cara que canta. Canta rasgado. Timbre de tenor. Atitude de roqueiro. Ele é o cara que me disse “Existe uma técnica pra gritar assim e não ficar rouco, mas eu não sei qual é essa técnica.” Ele tem o suingue de um não-curitibano (os curitibanos não têm suingue). Então o que é essa porra que ele tem, que todo mundo confunde com suingue? É o balanço de um maluco que se transformou em CURITIBOCA (assim mesmo com caixa alta). (Vou até repetir) CURITIBOCA, ou seja, sujeito que mente ser introvertido, que mente ser frio, que mente ser metido, que mente ser CURITIBOCA, pra no fundo ser introvertido, frio, metido, CURITIBOCA enfim. Veja, é o mesmo princípio daquele poema do Fernando (isso, o Pessoa) no qual ele diz que “O poeta é um fingidor” etc e tal (o resto você já sabe). Taí, o CURITIBOCA é um fingidor. Esse cara, malandro, não é CURITIBOCA, mas finge que é CURITIBOCA, e então acaba sendo CURITIBOCA. Sacou a jogada? Ser para não ser, não ser para ser, tudo para ser e não ser (e assim por diante, sempre).

Certo, alguém deve estar pensando “Mas o termo CURITIBOCA é pejorativo.” O sujeito que está pensando isso, é o verdadeiro CURITIBOCA (ou o falso... caralho, já não sei). Acontece que esse maluco sobre quem estou me referindo (o tal cantor) descobriu muito facilmente que numa cidade como a nossa, numa cidade chamada Gélida, só se é possível ser CURITIBOCA.

Outro tópico: As pessoas dizem que eu e esse cantor somos parecidos. Que temos personalidades parecidas (Talvez porque sou o maior dos CURITIBOCAS. Que saco!, não consigo parar de usar essa maldita palavra CU... Pára!). Sem dúvida somos mesmo dois vaidosos, talentosos, inteligentes etc e tal até o infinito. Mas as semelhanças ficam por aí. Se eu fosse um chato que só pensa em trabalho, que é extremamente profissional; se eu fosse muitíssimo original, e ainda soubesse ganhar dinheiro com arte (Lembrem do ensinamento do mestre: Só pode pedir dinheiros pro produtor “cultural” quem faz com que o produtor “cultural” tenha lucro; e isso é mais velho do que caranguejo andar para todos os lados e afundar no lodo); se a mulherada toda quisesse dar pra mim; se eu fosse um poço de genialidades, grandes sacadas, e incontáveis contradições; se e fosse casado com uma atriz gostosa e talentosa pra caralho, que todo mundo queria beijar, amassar, fazer bilu-bilu; aí sim eu seria parecido com essa cara. Olha, vou dar a real. Eu nem devia escrever esse texto porque tô puto com o cara sobre quem esse texto fala (Tá ouvindo aí? Você mesmo, que nunca musica meus poemas sem desconstruí-los, decepá-los, tá ouvindo? Então se toca!).

Eu não sei vocês, caríssimos leitores, mas sempre achei furado esse papinho de artista, que diz “Ai eu me prostituo porque tenho que comer, sustentar família etc e tal e etc até a vaca ir pro brejo.” Pra esses eu digo plagiando a música (Pausa. Grito) “Artista é o caralho!” Agora, se nego vai continuar com essa porra de “Sou artista mas tenho que comer, fuder, ir ao shopping, fazer novela na Globo, jantar no Ilha da França com o Antônio Fagundes etc e etc e etc.” Aí eu sou obrigado a alertar “VOCÊ NÃO É ARTISTA!” Sabe o que eu penso? Eu penso que “ARTISTA NÃO COME, NÃO TEM FAMÍLIA, NÃO TEM CACHORRO, NÃO TEM DINHEIRO, NÃO TEM MAMÃE NEM PAPAI, ARTISTAS PAGAM O PREÇO!” Hum, não gostaram? Não era isso que você queria ouvir? Foda-se. Vou dizer “NÃO SOU ARTISTA, NEM ESSE CARA SOBRE QUEM ESTOU FALANDO É, NINGUÉM QUE EU CONHEÇO É!” Tudo bem, me explico melhor: Esse “conceito” de artista acabou. Artista era um Van Gogh, um Nijinski. No século 19 havia ainda artistas. No 20 eles começaram a desaparecer. No 21, meu bróder, viramos todos ESPECIALISTAS. É o tempo dos ESPECIALISTAS. E olha que existem ESPECIALISTAS geniais. Assim como existem CURITIBOCAS geniais. Esse cara sobre que estou falando, ele é um ESPECILISTA CURITIBOCA genial. Ele é um cara em que a frase “Me prostituo porque tenho que comer, tenho que me vestir, tenho que freqüentar o Clube” não soa de maneira pejorativa. Porque ele não é um artista, mas um ESPECIALISTA CURITIBOCA genial. Uma vez minha professora de marquetingue (Sim, os CURITIBOCAS ESPECIALISTAS geniais estudam marquetingue, tem que estudar marquetingue senão não se tornam CURITIBOCAS ESPECIALISTAS geniais) Essa minha professora deu a seguinte aula “Quem é bom se estabelece.” Eu levantei, dei boa noite, e nunca nunca mais encontrei aquela professorinha (até hoje acho que ela não se estabeleceu... bem, pelo menos nunca cruzei com ela ali pelo Largo da Ordem). Mas eu aprendi alguma coisa com essa minha professora.

Essa “teoria” de que ARTISTAS não existem mais.

Onde cheguei tendo aprendido tantas coisas? Cheguei até a seguinte opinião “Quem é vendido se estabelece.” Esse cara de quem falo, esse cara é um CURITIBOCA ESPECIALISTA genial VENDIDO. Sim, irmãos, deus é bom com alguns. Tudo bem, leitor, você está discordando de mim nesse momento (Você também “cara de quem estou falando” está discordando de mim). Mas vai dizer que um cara que toca violão pra caralho, com um suingue ducaralho, canta em três bandas ducaralho (super-contraditórias em suas essências), faz comercial de televisão, atua em peças de teatro (aqui me refiro a Lingüiça no Campo, ducaralho), faz performances, é cineasta experimental, cozinha bem, e motiva um escritor bom pra caralho a escrever um texto sobre ele, vai me dizer que esse cara não é um vendido ducaralho?

Vou expor um pouquinho mais da realidade pra vocês: 1º, sou apaixonado por esse cara; Segundo, ele adora trocadilhos (e com ele trocadilho tem peso de soneto); Sexto e décimo e ponto final, o lance dele é grana, e ele se prostituirá caso você pague bem. Parem de ser hipócritas, todo mundo aqui e aí e ali adora puta.

Então é isso, tá na hora de vocês conhecerem o Nero. Ouçam suas canções, seus poemas. Vá ver suas peças, seus desfiles no não-carnaval do Largo da Ordem. Procure por ele em Antonina e nos bares mais quentes de Gélida. Vire amigo íntimo do Nero, e você verá que ele não é tão metido, tão antipático quanto você pensava (mesmo que você nunca tenha pensado isso a respeito dele). (Mesmo que você tenha sempre o achado um doce, um fofo, um amor, um cara parecido com o Luiz Felipe Leprevost) Vá então confirmar que ele é tudo isso: um fofo, um doce, um bilu-bilu, um Luiz Felipe Leprevost. ATENÇÃO, invista seu dinheiro no talento de Alexandre Nero. Lembre-se sempre que ele é um CURITIBOCA ESPECIALISTA genial VENDIDO e contrate seus atributos. Isso faz dele um cara único, ótimo, sábado, proparoxítono. COMPRE JÁ ALEXANDRE NERO, COMPRE, COMPRE, COMPRE, seu cachê vale a pena, na insatisfação, seu dinheiro de volta, COMPRE, AJUDE A FAMÍLIA, AJUDE NERO QUEIMAR ESSA CIDADE, VAMOS BOTAR FOGO EM GÉLIDA.Alexandre Nero é um que sabe que “debaixo dessa neve mora um coração.”Ps. do final. Tanto o “ps” do começo como o “ps” do final devem ser publicados. Não esqueça. Não mude nada. Não edite. Se não couber no teu site, sinto muito, não entrará. Só coloque se for na íntegra. Se é um texto ofensivo, ofendido, defensivo, brutamontes, humilhante, nada disso importa. Esse texto é isso, nem menos nem mais. Inclusive os abraços, a assinatura, a data e o local, que escreverei em seguida, devem estar publicados com o todo. Abraços,

Luiz Felipe Leprevost
16/03/2006 – Rio de Janeiro.
(Luiz Felipe Leprevost é jornalista, escritor,ator, compositor e poeta. Autor dos livros "Fôlego" e "Ode Mundana")
Lançamento do 5º CD do GRUPO FATO, "MúsicaPrageada".
Dias 11, 12, 13, e 14 às 21:00 no Guairinha.
Ingressos a R$ 10,00
estudante R$ 5,00
informações 3304-7982
APAREÇAM

segunda-feira, maio 08, 2006

poeminha singelo para uma noite singela com uma guria singela (ou beijo estilo Guilherme Tell)

seu beijo fala
e me interrompe sempre
quando vou fazer um verso bom.
seu beijo cala
e me constrange ante
a possibilidade de errar o tom.
seu beijo saca
e me dispara balas
e mais balas de hortelã.
e ele acerta
e avermelha o rosto
bem na parte
onde chamam de maçã.

sexta-feira, maio 05, 2006

o dono da bola

escondo as suas bitucas
manchadas de batom aqui
no meu umbigo profundamente
infantil,
por que é minha agora
a respiração da fumaça,
assim como o seu novo toque de celular
e a nossa música não composta.
é meu o seu comentário
sobre a minha imaturidade e
sobre o clima de mofo da cidade.
são minhas as doses de pinga,
as doses de glicose da cor refrigerante lata
e da cor caipirinha.
é minha a bêbada do meu lado,
assim como você é minha,
por mais que as suas coisas digam
não.

quinta-feira, maio 04, 2006

psico

não, eu não sou um ator.
sempre quis ser um, mas não,
a minha cara não consegue fugir de mim.
e eu não sou um cara comunicativo
antes, talvez mais palhaço,
mais alugado, mais chato,
inconfundível,
mas hoje não,
a minha voz não consegue fugir do peito.
e eu tenho raiva daqueles que vomitam palavras,
dos que riem alto,
isto me lembra adolescentes em excursão para a Disney.
eu odeio adolescentes e suas risadas
e o seu pleno bem estar com o mundo
e a sua vontade de "curtir o momento"
e a sua tristeza de shopping center.
não que eu nunca tenha tirado um sarro
de mim mesmo, mas hoje não,
a minha risada não conhece mais o que não é vingança.
e pra falar a verdade,
que bom que eu não sou um ator,
já que eu poderia muito bem
começar a carreira num programa
em que tudo acaba em risadas e adolescentes
rindo pra caralho das nossas caras,
mas não, eu não sou um ator
e o meu passado não conhece direito
tanta felicidade.

quarta-feira, abril 26, 2006

a morte, esta sacana (para Leprevost)

no final das contas
estaremos na mesma cidade-renite,
contando as mesmas histórias de sempre,
e com a nossa empáfia de sempre
acusaremos o T.S Eliot de bêbado.
diríamos coisas idosas do tipo:
"todo livro é útil por mais
que ele insista no contrário".
daí, certa hora ficaremos loucos,
como sempre ficamos em tantos costelões
e pediremos uma porção
com umas seis fatias de picanha gordurosa
e lembraremos de alguma frase de efeito
que o Tibério nos disse numa madruga qualquer.
colocaremos o Edson Falcão na vitrola,
sempre lamentando o fato dele não publicar mais poesia.
nos questionaremos "será que o Troy já casou?"
lembraremos do Thomas que, provavelmente,
ficaria resumido na frase "é, está bem"
e finalmente nos comparamos a algum poeta
que já possui uma cine biografia.
voltaremos com a mesma vontade de ir ao banheiro,
com o mesmo arroto ególatra de ter cumprido algum papel,
com um verso a mais na coleção de versos esquecidos,
com um arrependimento imbecil
de ter conhecido uma menina peitudinha,
com uma vontade de ir a um puteiro
e esquecer que um dia a gente se arrepende.
e dormiremos aliviados mais uma vez
ao lembrar que já fomos poetas um dia
e que achamos o final da noite uma bobagem
e que a morte, esta amiga sacana,
ainda não nos deu a sua carona final.
o estranho

então foi você
que aprendeu a gostar do que é belo
do respeito, da amizade e das coisas do coração
e com o tempo aprendeu a escrever
cartas de amor, sonetos de amor, declarações
e mais declarações.
você que treinou
por durante anos no espelho
a falar "eu te amo" para a sua menina
a comentar com ela as suas preferências
seus sonhos, manias e virtudes.
você que agora sozinho
consome feito um louco
as porcarias que sempre gostou de consumir na infância.
você que agora as consome só de raiva,
pois sabe o mau que um litro de coca-cola
e dois tabletes de diamante negro
fazem para o corpo.
você que ouviu ontem à noite Nina Simone
e chorou ao ser ninado num berço
cheirando a cigarro e insônia.
você que descobriu ontem que
a sua namorada só disse que gostava de jazz
para o agradar.
você que ontem
mesmo sem um puto na conta
insistiu em pagar o motel.
você que finalmente se deu conta que
o que a garota do verão de 99 queria
era que você a descabaçasse.
você que hoje se masturba com a mente vazia
e de olhos fechados.
você que sozinho rumina angústia e saudade
ao ler antigas revistas pornográficas.
você que hoje prefere beber sozinho
a insultar o próximo.
à você, este bêbado no banco de trás do carro
eu apresento este estranho
chamado você.

domingo, abril 23, 2006

Sono solitário

as pessoas têm dormido em portarias
em caros restaurantes, em almoços de família
com a família.
elas dormem em jantares de negócios
em filmes de quinta, em filmes de primeira,
em tecnicolor.
as pessoas têm dormido na avenida
na via rápida, no ponto de táxi, no ponto de ônibus
ou em qualquer ponto do mapa.
elas dormem em posições nada cômodas, acomodando nada,
sem nada incomodar, sem nada a perder ou a ganhar,
com tubos de insônia e apatia pelos buracos do corpo e da vida.
elas não falam, elas não gritam, elas não roncam.
elas dormem
por estarem sozinhas.
por acordarem sozinhas.
sozinhas.
sozinhas.

Imperdível



Dia 23.04 - 19 H
lançamento do livro:ODE MUNDANA
LUIZ FELIPE LEPREVOST
Ed. Medusa.
T R A V E S S Ã O - Livraria da Travessa
Rua Visconde de Pirajá, 572- Ipanema - Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3205-9002

quinta-feira, abril 13, 2006

Meu amigo doente,
quem poderá saber que você
está assim?
E quem vai ouví-lo quando você
não conseguir dormir?
E que culpa as pessoas tem
de tudo isto?
Estarei ao seu lado, amigo.
Eu, um pedaço de sombra do seu passado.
Quem dita as regras da amizade?
Meu amigo doente, meu amigo,
você gostará de mim
mesmo que eu não morra contigo?

segunda-feira, abril 10, 2006

In my solitude...

Eu falo de uma loira
com um tribal tatuado no braço
a ouvir summertime
escorada num quadro da Billie Holiday
com um ar de arrogância
para os que não escutam
os longos improvisos da banda.
eu falo que ela bebia
algo transparente com limão
a propagar a cor da sua mão
a criar asas escuras
por entre as raras impressões de alívio
que o bar suspira entre uma canção e outra.
eu falo do seu olhar
e das estrelas mortas que ele carrega
um firmamento aquoso
onde bóiam as noites de solidão
(eu bebendo algo barato por ela
e formando uma família inteira
de versos parecidos com a gente).
eu falo desta que queima
a minha visão com a sua acidez
por que tudo que chapa é ácido
e as cores de uma beleza ácida
possuem vida própria.
eu falo desta mulher
com quem não quero conversar.
prefiro conhecê-la assim:
ouvindo summertime
escorado num quadro do Chet Baker
com um ar de arrogância
para os que não escutam
os longos improvisos da banda.

sábado, abril 08, 2006

Em troca de nada

Durante anos
Amei a puta
Que tirou o meu cabaço.
Amava como nunca amei a mim mesmo
O seu corpo, a sua voz, o seu cabelo
E até o cigarro que ela
Gentilmente me roubou.
No fundo ela era uma noite
Na constelação das noites todas
E eu, um pau a mais que ela
Era obrigada a excitar.
Mas de uma coisa eu não esqueço:
O morto do olhar a procurar
O oco da mente.
A solidão que soluçava de repente:
“vem cá, baby.
Fica comigo abraçado mais 5 minutos.
Apague esta luz e feche a porta.”
Ali eu entendi
O que é amar sem pedir nada em troca.

quinta-feira, abril 06, 2006

Pobre gerundismo

E quem perderia tempo lendo um blog que se ocupa apenas em condenar o gerundismo? Eu perdi. E, como um bom brasileiro que sou, resolvi tomar as dores desta pobre criatura. Gerundismo, apesar deste seu nome desgraçado, fiz uma carta de amor pra você e faço questão de usá-lo em meus próximos poemas. Lá vai:


Carta de amor ao Gerundismo

Gerundismo,
Estou amando cada vez mais
Você e esta sua dupla-hélice do “estar sendo”.
Você está me completando a cada minuto
E eu sei que a sua cara anda estando
Mais parecida com a cara do tempo
Do que as outras, no fundo.
Antes você do que outros vícios, como a ressurreição de línguas mortas,
Que os nossos preciosos vates tanto insistem em cometer.
Gerundismo,
Está chegando o dia em que gritaremos: “gerúndiooo!”
E arrombando portas, junto com as nossas amigas
“salada de pronomes, “repetição” e “rima em ar”
Estaremos comprando a briga dos vícios renegados
E assim viciando acadêmicos viciados em outras quinquilharias,
Estaremos tomando o nosso trago em qualquer esquina
E gerundiando sem a possibilidade de estarmos sendo incomodados.
Gerundismo,
Ando te amando assim: sujamente.
Te usando em versos em forma de coração
Embaixo de um teto de espelhos, entre uma
Ou outra declaração de amor.
Adoro estar enfiando o dedo nas suas terminações
E estar falando sempre deste jeitinho que não quer acabar.
Gerundismo, ah Gerundismo,
Você não precisa estar ficando assim tão triste.
Se eles não te usam mais,
Eles não sabem o que estão perdendo.

quarta-feira, abril 05, 2006

Douglas Kim e o seu humor afiado.

Tudo bem que eu sou fã da Scarlett Johansson, mas o Kim me fez ter cãibra na boca de tanto rir. Com licença grande Kim, mas serei obrigado a compartilhar com outros este texto. É do caralho.

EM QUEM VOCÊ PENSA DURANTE O BANHO?

(Douglas Kim)

"Enquanto milhares de onanistas pensam em Scarlett Johansson refestelada em seu apartamento de 1,95 milhas em TriBeCa, penso na Lurdinha. A Lurdinha não foi abençoada com um tronco anglo-saxão, mas mancava levemente da perna esquerda. Deitado na cama, eu sempre pedia para a Lurdinha buscar um copo d’água, mesmo sem sede, apenas pelo prazer de vê-la andar. Sob seus pés, o quarto parecia um campo minado. Um pezinho aqui, o outro ali, uma bamboleada, ah, a glória!

Falando em glória, tinha a Glorinha. Ela não mancava, mas tinha um odor sui-generis em sua axila esquerda. Agora me dei conta que as duas eram de “esquerda”. Não, nada fétido, algo mais parecido com aquele famoso prato chinês de ninho de pássaro que comi, certa vez, em Xangai. É verdade, pensando bem, talvez não fosse paixão, somente banzo por Xangai.

Mesmo após a invenção da pedicure – a maior invenção humana depois da mulher barbada -, a Ritinha se recusava a cortar as unhas dos pés. Um Zé do Caixão do avesso. Aquelas garras raspando em minha perna faziam uma depilação natural. Nunca esquecia de usar meião quando jogava futebol, temeroso que meus companheiros descobrissem minhas pernas lisinhas, lisinhas, e me comparassem ao David Beckham.

A Marizinha tinha o olho caído. Não me lembro se era o esquerdo ou o direito, a memória me trai, as lembranças se embaralham nesse momento nuno-leal-maiano. Em alguns dias, parecia o Victor Mature tentando fazer cara de mau; em outros, parecia o Amaral, jogador do Palmeiras. Ambas as situações eram horríveis. Adorava assoprar aquele olhinho enquanto ela tentava dormir. Aquela pele vibrando como se fosse asa de graúna, saia de Marilyn Monroe. Fuuu-fuuu.

As mulheres da minha vida. Todas soberbas, apesar do diminutivo dos nomes. Isso tinha uma razão: como os politicamente corretos gostam de dizer, eram todas 'verticalmente prejudicadas'."
Poema da semana (já que hoje irei beber um pouquinho)

Alcoólicas

V

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

Hilda Hilst

segunda-feira, abril 03, 2006

sempre quando encontro você
eu recebo você como quem vai receber
a notícia "estou grávida".
é por que sempre você
me carregou para o seu mundinho meg ryan
e eu tive sempre a certeza
de que o meu mundinho pelo menos
não estava em liquidação na seção de dvd's
das lojas americanas.
até por que
o único ser em que
atualmente gosto de passar a mão na cabeça
é a velha pincher marrom aqui de casa.
ela odeia visitas
e odeia quem insiste em conversar
com cachorros.

sexta-feira, março 31, 2006

alguém está tramando em meu fígado,
a me oferecer porções de salgadinhos e azeitonas em conserva.
alguém, que avisa pelo telefone que ainda me quer vivo,
pois hoje eu não atormentei os vizinhos, as despedidas de solteiro
e os postos de conveniências.
alguém aqui dentro me acha um vagabundo
e tenta convencer os neurônios que usam bengalas
e longas e proféticas barbas brancas
a não se acostumarem com os cenários e papéis
que alguns atravessadores, criminosos
e vadias de plantão me oferecem com um canivete suíço no punho.
eles estão em grupos de cinco para me pegar
aqui dentro, enquanto eu distraído
relembro a seção de cartas da minha curta trajetória.
eles são esquivos, escapam com facilidade dos dedos do sol
e à noite mordem a lua de sobremesa para na volta
se empanturrarem com a minhas mofadas descobertas.
eles riem da minha cara no escuro do estômago,
eles tomam leite com vodka para sarar a minha gastrite,
eles me chamam de alcoólatra quando não estou bebendo
e de covarde quando já estou bêbado.
alguém dentro de mim
quer que eu pense "me arreguei!"
"me dei bem", "sou foda pra caralho"
enquanto gota por gota, com um sorriso no rosto,
barba por fazer,
depois de apagar um Marlboro vermelho
este alguém friamente me escorre pelo ralo

terça-feira, março 28, 2006

mais fotos da gravação.


...e que a força esteja com a gente.


"me fui" (quero ver quando eu gravar o violão deste pepino).


Gilson Fukushima dando uma dura nos guri.


Sandro Romanelli (violino), Guilherme Romanelli (viola) e Ivo Meyer (cello) dando um aspecto mais sinfônico para o disco


depois da maratona de gravações, pausa para o lanche.
Vitor arruma o microfone para o tamborim


A nave-mãe.
Vina com um pensamento tipo "o pior já passou".

momento de descontração

Fotos da gravação do cd.

É...o Fukushima pegou pesado nos arranjos e os músicos tem suado a camisa para conseguir executá-los. Mas valeu a pena. Dentro em breve gravarei o violão e a minha voz. A previsão de lançamento é para agosto deste ano.

Endrigo Bettega suando depois de horas de estúdio, mas ainda assim animado como sempre.









Vina "afinando os tambores".






Fukushima troca as cordas da guitarra e depois tira um sarrinho do Endrigo do tipo "agora você já topou tocar". Logo depois André Kloss (baixo) pensando coisas do tipo "e agora...quem vai me tirar desta?"

segunda-feira, março 27, 2006

de olhos abertos

eu costumava dormir
na fronha encardida de nicotina
depois de uma última dose de bebida com refrigerante
lençol amarrotado, iluminação precária
como um esmalte descascado verde-limão.
eu dormia e completava o dia com missas internas
de solidão e raiva
eu dormia em ventres e vulvas desconhecidas
e cheirava a suor e creme de menta
e cuspia conhaque e engolia o café de cerveja
e bolacha maizena.
eu dormia e me encontrava entre pernas não depiladas
mãos umedecidas e roupas íntimas ainda por lavar
sonhos de estrela nos pôsteres pregados na parede
e um mundo riscado a força
no piso de taco do quarto.
eu dormia de olhos abertos.
ao som de "fio de cabelo" no rádio e "try a little tenderness" na cabeça.
arrebentando os fios de eletricidade do cérebro
compondo versos para ninar prostitutas.
eu dormia de olhos abertos.
eu dormia de olhos abertos.

sexta-feira, março 24, 2006

Máquina do mundo

Três poemas meus foram publicados na revista Máquina do mundo editada pelo poeta Carpinejar. Não tem desculpa, é para entrar no link mesmo!
Casa da Claudete (para Claudete Pereira Jorge, Octávio Camargo, Luiz Felipe Leprevost e todos que frequentam a casa da Claudete)

na casa da Claudete
os cristos são descrucificados.
religiões são formadas,
reformadas e destruídas.
legiões e batalhões de idéias
são postas em sentido em versos
conservados em vodka.

na casa da Claudete
o marxismo também é tomado com coca-cola
o stalinismo cuspido pra fora da janela
e homero lido a marteladas
de mais ou menos 5.000 palavras.

na casa da Claudete
o incrível Hulk é um adorável covarde
o jantar é a luz de velas pela falta de pagamento
os mestres são amigos do peito
que carinhosamente
mandamos para aquele lugar.

na casa da Claudete
um uno mil pára no meio do caminho
e à pé buscamos o combustível
num posto da rua de baixo.
lá não se cala a boca, se fala mais alto.
lá, adormecer é um ato de revolta.
é uma pausa para a volta triunfal.

"aliás, a casa dela
definitivamente não é a minha"
foi o que eu pensei
a última vez que adormeci
num dos cantos
da casa da Claudete.

quarta-feira, março 22, 2006

Thadeu surpreende de novo.

E ontem, fui ao lançamento de dois livros de dois amigos: o primeiro foi o do Paulo Sandrini e depois do Thadeu Wojciechowski. Tava do caralho o do Sandrini, até por que era aniversário do cara, então rolou bolo e o escambau. Logo depois fui ao lançamento do Thadeu e para minha surpresa, não é que ele publica no livro o poema que fizemos juntos em parceria com o Sérgio Viralobos (gente boa pra caramba...até ontem, eu não o conhecia pessoalmente). Achei do caralho isto e fiquei muito surpreso mesmo. Mais uma vez o Thadeu me surpreende. Wojciechowski, se estiver lendo este post, um grande abraço. Ah, vou reproduzir mais uma vez o poema aqui no blog para quem ainda não o conhece.

Mártir Luther King

eu tive um sonho
que só me deu pesadelo
armas de fogo
me mataram de medo
o húmus sapiens
é bem pior que esterco
aquele que já fui
é hoje meu cerco
pensei ser o último dos mártires
mas a onda de sangue me reflui

(thadeu, sérgio viralobos e alexandre frança)

terça-feira, março 21, 2006

sobre política (para Hannah Arendt)

a esquerda que eu conheci?
alcoólatras recalcados
que pelo jeito se deram muito mal na infância
invadindo espaços,
incomodando o que não é incomodável,
iludindo a vocação para otário
a esbravejar a palavra "revolucionário"
copiosamente, sem parar.
um clubinho de pessoas decadentes
a jogar um vôlei decadente
com as cabeças de figuras de direita
(que provavelmente estarão no poder nas próximas eleições).
se eu sou de esquerda?
sim, mas não da esquerda que eu conheci.

a direita que eu conheci?
uma fábrica de sabão neutro
pronta para implodir sujeira e restos
de gordura ideológica.
enfim, a pasteurização da hipocrisia.
uma fábrica de homens engravatados
com código de barras e três modalidades de fala:
"não fui eu", "não sei quem foi"
e "poderia me passar o adoçante?"
de direita eu nunca fui.

sobre a política?
a matemática da maquiagem.
a marcha fúnebre da plebe
em direção ao poço:
direita, esquerda, direita, esquerda
direita, esquerda, direita, esquerda...

domingo, março 19, 2006

sobre a minha fracassada noite de ontem

andando sozinho à noite
por ruas e quadros
em preto e branco
você pensa em matar alguém.
sujeitos estranhos o perseguem
e você se lembra que "não mataria nem uma mosca".
você adianta o passo, eles passam por você
e não dão a mínima.
aí aquela velha falta de fôlego
volta à ativa.
seu pulmão, este novelo enrugado e medroso,
o faz suar e você esquece toda a reação de ódio
que um hipócrita pedante lhe causaria minutos antes.
as janelas das casinhas de madeira,
nas quais você um dia já sonhou em morar,
piscam as luzes como num sinal de alerta que carros
de último tipo dariam para ultrapassá-lo
numa br qualquer.
não há bares nesta região
e a única alternativa numa hora destas
é relembrar os detestáveis fatos do começo da noite
até que depois de 40 minutos
você chegue ao centro da cidade
aliviado e seguro.
finalmente
você entra e toma o primeiro copo
e descobre que não mataria ninguém
a não ser você mesmo.

sexta-feira, março 17, 2006

na furia do jazz

Ontem a noite foi foda. Estou devidamente baleado e de mau humor. Preciso descansar, relaxar, espreguiçar, enfim estas coisas todas que terminam em ar. Preciso respirar um pouco de normalidade, antes que eu acabe não me reconhecendo mais.

quinta-feira, março 16, 2006

em cartaz

o que você quer é dar um tempo,
desintoxicar o corpo,
olhar sem desdém para o espelho.
mas o que acontece
é você se rendendo às 2 da manhã
aos filmes de relacionamento feitos para tv.
o que você quer é beber menos,
aproveitar o dia, o sol e o movimento diário.
o que acontece é você
entornando dez vezes mais café do que antes.
e aí você brinca
de dar nomes de grandes produções para a sua vida:
"bird", "estranho no ninho", "despedida em las vegas", "adaptação", "de doze em doze horas".
aí você enlouquece ao escrever
as falas da sua rotina e canta.
abre as janelas ao amanhecer e canta
você quer que a situação se transforme num musical hollywoodiano
e canta
você canta sorrindo histericamente
por não saber o significado da letra em inglês.
o que você quer é a felicidade,
esta fábula que você escuta e acredita
antes mesmo de nascer.
o que acontece é você no meio da sala,
abraçado em você, com o choro preso na garganta,
a dançar lentamente "imagine"
no final da programação.

quarta-feira, março 15, 2006

sem título

Não pretendo mais ser original.
uma boa profissional do sexo
por exemplo
sabe exatamente o que fazer
para satisfazer o cliente.
geralmente ela o entende e o ama
por no mínimo uma hora
leva a colher até a sua boca
e nem pergunta se está no ponto
já é recebida com um beijo na testa.

terça-feira, março 14, 2006

próxima fase (para o meu irmão Phillip)


Você sonhou que nós quebrávamos
uns dez caras na porrada
era cinco pra cada um
os que se metiam com você eu batia
os que me enchiam o saco você arrebentava.
sonhei também
que nós jogávamos
Mortal Kombat na casa de praia
e a cada batalha
inventávamos uma forma nova
de vencer um ao outro.
Neste sonho eu era invencível...
...e não me venha querer mudá-lo
o sonho é meu
já foi sonhado
e ninguém tasca.

segunda-feira, março 13, 2006

depois de algumas xícaras de café.


Amanhã
preciso urgentemente morar sozinho.
Minha mãe se preocupa feito uma louca
com a saúde do meu pulmão.
Meu pai acha o meu futuro discutível.
Meus irmãos já não me olham como antes
Cadê o adorável casula com os seus truques?
É justamente nestas chuvas de verão
que eu me lembro da morte e dos seus avisos all type.
E eu sei
A única coisa
que talvez não me abandone
é a palavra.
Agora mesmo eu me abandonei
ao querer me isolar numa solitária estação de metrô, num solitário trem fantasma,
num solitário shopping de descontos, num solitário rodízio de carnes
ou num seriado de tv.
Não acho seguro acreditar em amor ou beber antes de dirigir.
Agora sei
Eu preciso de segurança 24 horas, de efeitos que durem 24 horas e principalmente de caixas 24 horas.
Agora entendo o abandono
pois quando os créditos surgirem na tela
é provavel que a Palavra ainda esteja ao meu lado
acariciando os meus cabelos e sendo brega para o meu desgosto:
"você ainda tem a mim".
Amanhã
preciso urgentemente continuar escrevendo.
Ops, quase que eu esqueço da Melina

RISCO - Melina Mulazani e Wagner Barbosa
Direção - Mariana Zanette
Luz - Stéphany Mattanó
Design e Cartazes - Paola Faoro
Textos e Canções - Alexandre França, Indioney Rodrigues,
Lápis, Luiz Felipe Leprevost ...

Dias
17-03 - 24:00
18-03 - 16:00
20-03 - 24:00
25-03 - 22:00

FALEC
R:Mateus Leme, 990(à duas quadras do Müeller, do lado do Calabouço)
APAREÇAM
Ah, este também será um programa imperdível

Eu acompanhei alguns ensaios na casa da Claudete e está do caralho. Vale realmente a pena conferir o Richard e a Clau neste espetáculo maravilhoso dirigido pelo nosso querido mestre yoda Octavio Camargo. Será no auditório da biblioteca pública nos dias 21, 22, 23 e 24. Eu acho que será sempre às 21:00 hs. O horário eu vou ter que conferir com o Fajardo, já que me mandaram só este cartaz lindo, porém ilegível.

domingo, março 12, 2006

APAREÇAM

Festival de Teatro de Curitiba
e editoras Medusa e Iluminuras convidam
para o lançamento dos livros

Criptógrafo Amador, de Marcelo Sandmann
Corpo Sutil, de Ricardo Corona
Ode Mundana, de Luiz Felipe Leprevost
e revista Oroboro # 7

+ performances poéticas
a partir das 20hs - dia 20 (segunda-feira) de março de 2006
entrada franca e sem couver artístico
ORIGINAL CAFÉ
vicente machado, 622 - centro - curitiba – pr
mais informações: 3323-4548
www.originalcafe.com.br

dia 21
de março, terça-feira
a partir das 20h30
Lançamento de contos de Paulo Sandrini
"Códice d'incríveis objetos & histórias de Lebensraum"
travessa dos Editores
Wonka Bar
Rua Trajano Reis, 326
Curitiba - PR

quinta-feira, março 09, 2006

eu já sabia disso (se é que isso é verdade)!

tirado do hackeando o catatau

Pesquisadores afirmam que cerveja tem efeito antiinflamatório

da Efe, na Áustria

Beber cerveja atua positivamente sobre os processos inflamatórios e algumas doenças crônicas, de acordo com um estudo divulgado hoje pela faculdade de Medicina da Universidade de Innsbruck.
Segundo informou em comunicado a equipe de pesquisadores, liderada por Dietmar Fuchs, da seção de biologia química dessa universidade austríaca, os experimentos realizados com células sanguíneas demonstraram que a cerveja pode bloquear algumas infecções e doenças crônicas.
As substâncias contidas nos extratos de cevada parecem ter um impacto parecido ao que se atribui ao vinho tinto, ao chá verde e ao preto no organismo, cujo efeito positivo para a saúde, sobretudo nas doenças coronárias, é reconhecido medicamente, indica o estudo.
Os cientistas destacam que o fato de beber cerveja não implica necessariamente a ingestão de bebidas alcoólicas, dado que o efeito positivo do sumo de cevada se faz notar também quando este não contém álcool e também não depende da marca da bebida que se consome.
Os autores da pesquisa asseguram que a cerveja aumenta a produção do chamado “hormônio da felicidade”, a serotonina, um neurotransmissor que exerce um papel importante nos estados de ânimo das pessoas, como o humor, a ansiedade, o sonho, a dor, e até o comportamento sexual e alimentar.
O estudo também indicou que a ingestão de cerveja tem um efeito tranqüilizante sobre quem a bebe.

quarta-feira, março 08, 2006

milagre da multiplicação

Com uma moeda de cinco centavos, eu raspava o invólucro cinza a maquiar uma mensagem fulminante: "hoje você morre". As outras quatrocentas e sete mensagens espalhadas pelas paredes do meu quarto diziam a mesma coisa. Coloquei, no velho aiwa escorado num canto empoeirado, "The Thrill is gone" cantada pelo Chat Baker e caminhei lento até a janela. Esperei o primeiro indivíduo cadastrado pela dona morte entrar e deixei que ele me empurrasse. Foram quatrocentas e oito pessoas a atravessar aquela porta. Foram quatrocentas e oito quedas e apenas uma só morte. Quando acordei morto, possuia em minha mão esquerda a moeda encardida. Na minha frente uma placa "jogue a sua moeda aqui". Fiz o que a placa me mandava fazer. Ao cair no chão, aquele pedacinho de metal se transformava numa pessoa. A pessoa era eu e como eu ela me mandava acordar. Acordei no meu quarto com uma dor de cabeça tremenda (fruto de uma grande quantidade de quedas) e com uma moeda de um real na mão direita. "É o milagre da multiplicação", pensei com os meus botões. Até o final desta tarde eu tentei me matar mais oitocentas e dezesseis vezes...sem sucesso nenhum.

sexta-feira, março 03, 2006

Esta mulher está me tirando o sono...quer dizer, ela ainda vai me tirar o sono por mais alguns meses. É bem melhor que a vitaminada "Natasha". Com vocês a maravilhosa Scarlett Johansson. Aiai...
Ok...estou com uma vontade de dizer certas coisas importantes para mim mesmo.

Alô...França, seu imbecil...acorda véio. Não saia hoje idiota, isto vai foder com a sua voz (lembre-se, daqui um mês tem gravação) e você ainda terá que se esforçar para pedir dinheiro emprestado para alguém, dando uma de vira-lata coitadinho, já que dinheiro mesmo, faz uma semana que você não vê. Esqueça a Scarlett Johansson, ela não existe. Ela é apenas um holograma criado para que idiotas como você fique em casa, batendo uma deprimente punheta, deprimido pela certeza de nunca conseguir comer uma mulher tão gostosa. Durma cedo e esqueça os seriados de tv do tipo C.S.I, você nunca terá uma rotina tão agitada quanto a do detetive Grissom, que você tanto admira pela sabedoria e equilibrio. Pare de conferir a internet a todo momento: uma hora as pessoas o esquecem e você deve aceitar este fato. Não ligue para pessoas que você não está mais apaixonado, já que é muito feio usar estas pobres almas para satisfazer uma escrota (literalmente) necessidade física. Ah França, seu merdinha, tem mais uma coisa: atualize este blog...por incrível que pareça esta é ainda a atividade que mais o satisfaz.

quinta-feira, março 02, 2006

Música nova na área.

O Thadeu me disse que o Walmor fez uma música do caralho em cima dessa nossa letra. Não vejo a hora de conhecer a canção pronta e de conhecer o Walmor também.

Mártir Luther King

eu tive um sonho
que só me deu pesadelo
armas de fogo
me mataram de medo
o húmus sapiens
é bem pior que esterco
aquele que já fui
é hoje meu cerco
pensei ser o último dos mártires
mas a onda de sangue me reflui

(thadeu, sérgio viralobos e alexandre frança)

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Noitada furiosa


Ontem de noite o Nick Farewell, um camarada gente boníssima aqui de Sampa me surpreendeu com alguns textos de alto calibre. Para o deleite de vocês aí vai um.


Todos dançam lentamente
Dão seus passos tímidos para o lado
E esperam que a música os arremate
Mas todos dançam sozinhos
Mesmo acompanhados
Ninguém pode escutar ou sintonizar
A música que toca em cada íntimo


A vida sempre promove um baile cego
Todos dançam com todos
Mas na verdade, ninguém dança com ninguém


Tente assobiar
E saberá que a felicidade é somente sua
Imperfeito, solitário e trágico


Mas o amor também dança em passo lento
Ele dita, mastiga e cospe
A partitura que você rege
Para tocar
A miserável sinfonia de cada um de nós


Nick Farewell

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Sampa

Gente fina do meu coração, esta semana estarei em Sampa junto com o parceiro de iconoclastia Leprevost (que inclusive, numa atitude totalmente "iconoclastinha" não pára de visitar os banheiros das lanchonetes sujas da av. paulista... tudo bem, em São Paulo todo turista fica meio cagão mesmo). Semana que vem eu voltarei com algumas histórias pra contar. Abraços.

PS: Thadeu, vamos combinar aquela cerveja no final de semana! E não vale dar pra trás!

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Iconoclastinhas na área (Luiz Felipe, o poema abaixo é para ser continuado)

O perfume da vodka expulsava os bons espíritos
e até as bolachas submetidas aos copos de cerveja
ressecavam e carcomiam.
A madeira, ainda podre, cuspia chicletes velhos
e a platéia sorria com os dentes partidos do bêbado
adormecido no último sofá da sala vago
um pivô ainda escorava o limite
entre o sono e a noite banguela
eu era aquele bêbado
e decidi dormir.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006



Meu Deus?!

Isto é verdade? Quase tive um ataque do coração. Peguei a foto no blog do Marião e não acreditei. Mas enfim, fazer o que...vai ver que o Chico está na pindura no bar do Mané da esquina.

Poetas do Batel (nova versão com a participação de Luiz Felipe Leprevost)


Ponto Final, 4:30 da manhã. O ventilador de teto nos dizia "façam o mundo girar." E nós capotávamos o carro em toda fossa que encontrávamos no caminho. E gritávamos a nossa sacada genial de dentro do táxi para as gurias espremidas nas janelas dos ônibus Circular-Centro. Era um tempo em que passávamos três meses em Guaratuba ou Caiobá, de frente pra praia, sem fazer nada, achando que fazíamos o necessário. Não pegávamos o Interbairros I, apenas admirávamos aquele amontoado de estudantes do CEFET a suportar o frio no intervalo entre as aulas do curso de edificações e os próximos goles de cerveja na praça de alimentação do Estação Plaza. Comíamos no falecido Maionese Dogs, que morreu num racha de carro justamente quanto estava ficando rico e podia investir na sua paixão. Sim, nós éramos uns desses irresponsáveis que ficavam jogando truco nas mesas das panificadoras ao redor do Colégio Positivo no ano do Vestibular quando todos nossos conhecidos estudavam mais de cinco horas por dia pra passar em medicina na Federal. Não frequentávamos sem nossos irmãos mais velhos casas de show como o AeroAnta e o Coração Melão, nem bares sofisticados. No máximo conseguíamos nos transformar em habitues de zoninhas de família, tomando chá com a Dona Olga ou dividindo o cigarro Godan Garan com a Tia Fátima. Fora isso eram aquelas festinhas nos salões dos prédios em que meninas levavam doce ou salgados e meninos refrigerante, mas alguns traziam uma ou outra cerveja mocada na jaqueta e bebíamos e achávamos que aquilo que provocávamos podia ser considerado porrada e voltávamos pra casa à pé por três quarteirões com um puta cagaço de ter os bonés de times americanos roubados. Pobres alminhas sequer imaginávamos que em breve só frenquentaríamos, por opção, bares podres como o Gato Preto e o Kappelle, pra depois voltar à limpeza de querosene dos nossos quartos pintados de azul com posters da Disneylândia exatamente como fazíamos na época das festinhas. Era o lugar onde ficávamos sabendo das últimas fofocas da política do Lerner durante o almoço. Era onde nos chegavam os convites pros bailes de debutantes. E a gente trocou tudo isso pela vodka e pela certeza de que podemos voltar a qualquer momento tanto pra um lugar quanto pro outro, mas acontece que um deles já não nos reconhece mais. O ventilador de teto nos mandava "joguem merda e façam tudo girar." E então nós aprendemos a tomar uísque 12 anos com Red Bull na beira da piscina de asfalto da Avenida Batel congestionada feito um nariz nos domingos de tarde ao lado de caras inacreditáveis como o Tadeu e o Tatára. Eles eram típicos polacos da Barreirinha, caras que conheciam bem a Curitiba de antes da "Era Lerner". Foram malucos como esses que nos mostraram que continuando pela Av. Batel se chega num restaurante Bar Palácio. Foram malucos como esses que nos fizeram preferir o Bar Stuart aos escritórios bem decorados do Centro Cívico. Nós éramos os poetas do bairro dos prédios caros e fazíamos as coisas ficarem tontas no verão a passos de Sandálias Havaianas brancas que, pouco a pouco, entrariam na moda. No inverno era protegidos por pantufas, bom-bons e estufas que cometíamos nossos poemas de revolta. Talvez uma revolta fácil, na opinião de alguns, que achavam que víamos as coisas de um lugar privilegiado. Quem sabe a crítica seja fundamentada, mas acontece que nunca negamos nada, e entendemos desde cedo que a nossa poesia estaria próxima da vida. E a vida que nos interessava estava tanto nas putas viciadas da Saldanha Marinho quanto nas putas viciadas dos salões do Graciosa Country Club, estava tanto nas histórias dos polacos do Abranches quanto nos "manos" do Sítio Cercado. Tínhamos voracidade em conhecer a Colônia Rebouças e a Ilha do Mel. Queríamos conhecer tanto o vanerão em algum CTG em Campo Largo quanto beber champanhe na Muzik de Riad Omairi ou ainda pular as marchinhas da turma do Conservatório de MPB no pré-carnaval do Largo da Ordem. Porém sempre voltávamos ao Ponto Final, onde aprendíamos ser tristes com canções de Lupicínio Rodrigues. 7:30 AM. Eram manhãs vazias, e nós compreendíamos o quanto éramos amplos e angustiados. De volta pra casa escutávamos a Rádio Educativa como se a qualquer momento estivéssemos prestes a sofrer um acidente de carrro. Alguém roncava no banco traseiro, e ali estava nossa tão comentada vocação para o rock and roll. Mesmo assim a gente ouvia um som qualquer tradicional como Cartola ou Nelson Cavaquinho e pensava "putz, porque não conseguimos gostar do que é feito aqui, porque os de Curitiba a gente ouve uma só vez por curiosidade e enche o saco?" Acontece que isso era verdade só quando os caras tentavam imitar os cariocas, aí era uma merda mesmo. Estávamos cheios dessas referencias de compositores e poetas, que até admirávamos, mas que não nos diziam nada há muito tempo. No entanto, quando era música feita por caras como o Like, aí a gente ouvia sem parar e entendia que é possível ser curitibano pra caralho mesmo usando elementos da careta e batida musica brasileira. De repente a Avenida Sete de Setembro se iluminava com catarradas e bitucas de cigarro. Muitos dos geniais roqueiros da cidade foram criados em apartamentos de bairros como o Cabral, o Água Verde, o Champagnat e até mesmo o Batel, prédios com garagem coletiva, prédios onde as famosas bandinhas de garagem não tinham espaço pra nascer. Tudo começava a rodopiar com mais velocidade, como se estivéssemos eternamente saindo e entrando e voltando a sair e entrar na porta giratória do Banco Itaú. Agora existia uma nova cidade. A tradicional família Curitibana se desmantelava. Poderíamos abrir guerra: Nós, os curitibocas, contra os novíssimos curitibanos, aqueles que vieram junto com as Universidades, com as empresas de marketing, com a Cidade Industrial e as montadoras de carros. Agora éramos parte de uma cidade violenta e grande. Nos apegávamos cada vez mais em Dalton Trevisan pra não perder a memória, mas tudo o que conseguíamos era sentir aquela velha ardência no estômago. Agora não víamos mais o Batista de Pilar nem a Bia de Luna circulando pelos bares. Agora não havia mais bares. Tudo era muito funcional, dividido em subúrbios residenciais e zona central, onde tudo é limpo e rápido, onde se trabalha. E a gente? Talvez só quiséssemos que as coisas girassem na contramão. Por isso o nosso QG no Batel, por isso essa vontade de desparafusar um pouco esse lugar, apartamento por apartamento, com nosso jeito bonachão enquanto comíamos pizza aos domingos nas salas bem decoradas de nossas tias-avós. E claro que nunca saberíamos quem foi que ligou o exaustor. Ventilador de merda... O inverno éramos nós agora. No fundo só não queríamos passar calor.

Alexandre França e Luiz Felipe Leprevost

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