E na Gazeta
Uma semente literáriaA Kafka Edições, editora curitibana, lança hoje cinco livros e anuncia outros projetos, que contemplam reedições e traduções
Publicado em 16/10/2008 | Marcio Renato dos Santos
Um marco na história editorial do Paraná. Assim pode ser analisado o lançamento – na noite de hoje – da Coleção Antena, com cinco livros (confira a lista no quadro ao lado), publicada pela Kafka Edições, com recursos públicos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba – Mecenato Subsidiado. Motivos para um possível espocar de fogos são muitos. Primeiro, por colocar no mercado autores que se embrenham por veredas experimentais. Segundo, pelo fato de os livros se apresentarem em edições bem-acabadas que, inclusive, convidam à leitura. E, ainda, porque a editora anuncia novidades para um breve porvir.
A Kafka nasceu a partir de uma inquietação do escritor paulistano radicado em Curitiba Paulo Sandrini, há três anos. Naquele passado, ele decidiu publicar autores locais que, de outra forma, permaneceriam inéditos. Os esforços geraram dez "livrinhos" que eram vendidos, em média, por R$ 1,50. Na época, a editora ainda se chamava Kafka Edições Baratas (daí o porquê do reduzido valor das obras) e, entre os publicados, poetas locais como Fernando Koproski, Alexandre França, Jorge Barbosa Filho, Luiz Felipe Leprevost, além do próprio Sandrini – contista que já havia publicado O Estranho Hábito de Dormir em Pé (2003) e Códice d'Incríveis Objetos & Histórias de Lebensraum (2005).
Kafkianas
O que é o projeto:
A Kafka Edições põe no mercado, e para a comunidade (bibliotecas e escolas municipais), cinco títulos, bancados com recursos públicos da cidade de Curitiba. A Coleção Antena, a ser lançada na noite de hoje, é composta pelos seguintes livros:
> Jornal da Guerra Contra os Taedos, de Manoel Carlos Karam
> Acasos Pensados, de Luci Collin Osculum Obscenum, de Paulo Sandrini
> Inverno Dentro dos Tímpanos, de Luiz Felipe Leprevost
> Arquivo Morto, de Marcelo Benvenutti.
"Mas aquele projeto inicial não contemplava, por exemplo, a distribuição. Os livros circulavam de mão em mão ou apenas pelo correio", explica Sandrini, atual coordenador editorial da Kafka. Das "edições baratas" rumo a essa nova proposta, houve a modificação do formato dos livros (de pockets para o tamanho convencional) e, ainda, outro deflagrador: "O apoio oficial". Esses cinco títulos, recém-saídos da gráfica, tiveram tiragem individual de 1 mil exemplares – metade da tiragem será destinada à comunidade, seja para bibliotecas públicas e escolas municipais como contrapartida social. Individualmente, cada livro custa R$ 20. O kit, com os cinco títulos, tem desconto e sai por R$ 60.
Sandrini – uma espécie de faz-tudo na editora, da leitura crítica ao projeto gráfico. – salienta que a Coleção Antena pode ser observada pela confluência de gerações: de um juvenil Luiz Felipe Leprevost ao veterano Manoel Carlos Karam, morto ano passado. "A coleção, inclusive, presta uma homenagem ao Karam, que praticou uma literatura de qualidade e deixou muitos inéditos." Por falar em Karam, o próximo projeto da Kafka, já aprovado pela Lei Municipal, prevê a reedição de três obras do autor, todas esgotadas: Fontes Murmurantes (1985), O Impostor no Baile de Máscaras (1992) e Cebola (1987). "Também pretendemos viabilizar traduções." Nessa primeira empreitada da Kafka Edições, a Coleção Antena, Sandrini divide a coordenação editorial com a escritora e tradutora Luci Collin (que deverá colaborar com futuras traduções para o selo).
"É preciso salientar que, muito mais do que apenas editar um autor, um livro meu, por exemplo, a Kafka tem propostas literárias amplas, como essa Coleção Antena", diz Sandrini. A editora também tem a meta de se aproximar de outros centros. A coleção tem no catálogo inicial o livro Arquivo Morto, do escritor gaúcho Marcelo Benvenutti. "O meio editorial paranaense precisa desse movimento", comenta o editor, em tom de festa e já na expectativa dos projetos futuros.
Serviço
Lançamento da Coleção Antena, da Kafka Edições. Beto Batata Alto da XV (R. Prof. Brandão, 678), (41) 3262-0840. Dia 16, às 20 horas. Entrada franca.
30 de Julho de 2008 às 5:46
Sim, vi Final do mês. Vexado, mas vi, deliciado com a trilha, competente às pampas, sobrando, aliás, mais econômica que devia, na opinião deste crítico, com muita razão desacreditado. Mas com a Caludete tudo dá. E a Helena? Que choque vê-la assim, completa. Oxalá, Oxum, sei lá meu pai, a moça é talento puro. Quanto ao texto, o recurso ἀπὸ μηχανῆς θεός, o autor sabe bem do que falo (segredo nosso), e há pontualidade nesse falar, ao contrário do que argumenta o poeta Leprevost, não o aproxima de Brecht (nem precisaria, mas um argumento eloqüente contra essa possibilidade é o ataque à atendente bancária, duplamente vencida), ao contrário, o lançaria à comedia burguesa inglesa, se obtivesse manter a fina ironia, mas descambando ao farsesco caricatural, nos coloca entre a possibilidade do novo e a lógica do desencontrado. Sem estudo ou exercício a arte não anda.
Viu Gil, mesmo você(s) me devendo e não pagando, prestigio o seu blog, por enquanto.
1 de Outubro de 2008 às 16:06
Olá. Só para contrapor o que foi dito pelo Sálvio, acredito que este “Deus ex machina” (que o Sálvio colocou em grego) esteja na síntese Hegeliana que se dá entre a mãe e a filha que é na verdade o dinheiro. Ou seja, o Deus ex maquina - se é que realmente ele existe no "final do mês", já que é um elemento da tragédia grega - estaria no fato das duas aceitarem dinheiro roubado no final da peça (fato este que, como um bom Deus ex machina grego, vem amarrar toda a história), e não no pepino, no assalto ao banco, já que estas outras cenas seriam reflexos patéticos da primeira, cuja lógica nonsense (que já vem de uma outra época da história do teatro - mas isto eu deixo como lição de casa para o amigo, vide o que ele falou no final do seu comentário “Sem estudo ou exercício a arte não anda”) abre um espaço tanto à crítica, quanto ao encantamento. A aproximação com Brecht estaria, basicamente, com o fato da peça falar sobre dinheiro e também com o fato da peça utilizar em vários momentos recursos Brechtianos (as quebras, a filha falar sobre ela mesma, utilizando, para isto, o “nós”). Acho que quando você contrapôs o argumento do Leprevost, você estava falando no sentido temático, certo? Ou, mais precisamente, quanto aos rumos que a história da peça nos leva? Neste caso, lembre-se que a mãe está TRABALHANDO para sustentar a filha, e o fato dela não ter mais dinheiro para tanto (e as conseqüências disto), é, sim, uma aproximação com Brecht. É claro que não estamos num período de guerras, e a peça não entra neste contexto. A mãe e a filha não são pessoas miseráveis, que se desdobram para ganhar dinheiro e então comprar o "pão nosso de cada dia". Mas elas estão prestes a se tornar. O fato da falta de dinheiro levar a mãe a roubar comida do supermercado, cá entre nós, é bem Brechtiniano. O ataque à atendente bancária é veementemente rechaçado pela mãe (quando ela fala “minha filha é uma facista, uma ditadora” ou quando ela diz “isto é um absurdo: assaltar um banco só por que a atendente lhe tratou mal”) e não celebrado como um ato heróico - tanto que o discurso da filha desemboca no dilema de “devolver ou não o dinheiro”, que por sua vez desemboca no Deus ex machina do final. As pessoas que alí estão no banco são tomadas pelo discurso da filha e pela situação de incômodo de ficar horas numa fila; elas não são agentes da extrema direita que vieram destruir o papel da atendente bancária na sociedade. O ataque à atendente, na verdade, é o estopim do trágico, é a paralisia da classe média frente ao mundo que está aí, pedindo pressa e produção. Acho que o amigo não entendeu a peça. Acho que o absurdo dela (o pepino, o assalto ao banco, a maçã conversar com a mãe, etc) não leva apenas ao riso fácil e ao mero entretenimento (como você propõe quando fala sobre “farsesco caricatural”), mas sim a um estranhamento que (pelo menos na ótica de muitos espectadores que vieram falar comigo) leva posteriormente à reflexão. Respeito sua opinião, Sálvio, até por que somos amigos, mas gostaria imensamente que você assistisse a peça de novo para levar em consideração alguns pontos, que pelo que eu percebo, você não levou. É isto. Grande abraço