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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Morte e nascimento


O tempo está cansado

E ainda assim as pessoas insistem

Em quebrá-lo pedaço a pedaço

Dominá-lo contar os dias

As horas os minutos e

Esperar o filho na saída da escola

A esposa na porta do cartório

A explosão de uma bomba nuclear

A explosão de fogos de artifício

De mais um reveillon

A mudança do capitalismo para

O comunismo

A morte e o nascimento

Do messias

A morte e o nascimento

De um parente

A morte e o nascimento

De um amigo

A morte e o nascimento

De qualquer

Ilusão.

Alexandre França - Projeto Pixinguinha 2009

Já está em fase de pré-produção o meu novo CD, "Música de Apartamento", que deve ser lançado em junho deste ano. Este trabalho é fruto do Projeto Pixinguinha - Prêmio Produção, da FUNARTE, com o qual fui contemplado no ano passado. Aguardem mais notícias.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Amanhã (dia 3) no bar Realejo - Música de Apartamento - Voz e Violão


Sobre o show

Nesta terça-feira (dia 3) Alexandre França tocará (no formato voz e violão) as músicas do seu trabalho ainda inédito “Música de Apartamento”. Já em fase de pré-produção, este novo álbum é fruto do Projeto Pixinguinha – Prêmio Produção, da Funarte, com o qual França foi contemplado no ano passado.


É na “clausura” do apartamento que França cria a sua poética, em um tom quase cênico, misturando o espírito teatral de Brecht com os ritmos brasileiros. Aqui, com a finalidade de causar uma reflexão à cerca do tema, e diferentemente do tom lírico impresso por outras vertentes da MPB (como a bossa nova), o artista conta histórias, expõe as fraquezas e virtudes de uma classe que em seus altos e baixos marcou definitivamente a formação da nossa cultura.

No repertório: L.F Leprevost, Octávio Camargo, Troy, Thadeu W, Villa-Lobos, entre outros.

Serviço


Música de Apartamento - Voz e Violão


No
Realejo Culinária Acústica


Endereço: Rua Coronel Dulcídio, 1860


Água Verde


Telefone: (41)3311-1156 / (41)3342-6072


APAREÇAM!

terça-feira, janeiro 27, 2009

Trecho da peça "Mentira!"

(...)
Jacques-Louis A – por que tudo é uma mentira, você não percebe...você é uma mentira, eu sou uma mentira...apenas o que não é falado, seja com imagens, sons, palavras, só o que não é falado pode ser verdade...

Charlotte B – eu sei é que muita gente está morrendo por causa disto...

Jacques-Louis A – por causa de uma mentira...

Autor B - Irônica

Charlotte A – isto!

Jacques-Louis B – e você quer que eu convença as pessoas a não se matarem com uma outra mentira, outra “obra de arte”?

Charlotte B – eu não estou falando de mentiras...

Jacques-Louis A – está falando do que então?

Charlotte A – da sensibilidade artística...

Jacques-Louis B –Mentira!

Charlotte B – da profundidade artística...

Jacques-Louis A – Mentira!

Charlotte A – da verdade que existe nisto tudo...

Jacques-Louis B e A – Mentira, mentira, mentira!

Charlotte B – e o que é a verdade então?

Autor A – Pausa longa. Jacques-Louis pensa a respeito.

Jacques-Louis B – a senhora sabe do bando de miseráveis que clamavam por comida antes de se instalar a revolução?

Autor B – Entra uma música comovente
(...)

Mais informações no blog da Dezoito Zero Um - Cia de Teatro
www.dezoitozeroum.blogspot.com

domingo, janeiro 25, 2009

Toscobrasileirometalinguajar



genial!

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Canção nova na área (imaginem uma coisa meio Paulo Vanzolini)

Ninguém ouve ninguém

Botei um bombril na minha antena

Pra acertar a sintonia

E melhorar a minha imagem

Pra mim mesmo

Sumiram os chuviscos

E os fantasmas da memória

Surgiram os programas

E as missas matinais

Agora não tem mais conversa

Todo mundo está em paz

Agora não tem mais conversa

Todo mundo está em paz


E eu sigo contente nesta história

Fazendo um ovo frito

Durante os comerciais

Do último capítulo da novela

Onde todo mundo se descobre irmão

E fica tudo bem

Ninguém ouve ninguém

E fica tudo bem

Ninguém ouve ninguém

Melhor assim, meu bem.


(Gilson Camargo, Alexandre França, Chiris Gomes, Octávio Camargo e Leprevost)


terça-feira, janeiro 20, 2009

Mighty Aphrodite

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Confirmada a peça "Mentira!" na programação do festival de teatro de curitiba.

Aguardem mais informações.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

A volta dos Iconoclastinhas!

Depois de várias negociações com empresários e grandes corporações do mundo dos espetáculos, a dupla França/Leprevost - Leprevost/França está na área novamente. Confiram um poema desta nova fase.

Princípios

Vou fingir que esse copo d'água
é uma dose de vodka
pra justificar os escândalos da noite
Todos os infernos
pra onde te mandei
naquela época
em que deitei e rolei.
O último grau da lucidez
também produz delírios
se te matei
aqui dentro de mim
não foi por falta de princípios.

Iconoclastinhas - ativar!
França e Leprevost
ontem no Mafalda

terça-feira, janeiro 13, 2009

Homenagem ao bar Venda (já imaginando a Chiris e a Ana cantando)

Samba para Dona Odete


Dona Odete, a senhora acordou

Não foi minha intenção

Que o bar lotou e abalou

O que eu podia fazer

Parar de vender não dá

A clientela não perdoa


Dona Odete, veja bem

Aqui na venda alegria não se vende

Se doa – doa a quem doer

E a senhora precisa cantar

Junto com a gente


Deixar a polícia pra lá

Mudar o seu quarto de lado

E ajudar a acordar

Os vizinhos da frente



(Eu, Leprevost e Reka)

Na Venda (acho que foi semana passada)


segunda-feira, janeiro 12, 2009

"Play" ao vivo na Grande Garagem que Grava



Deixe o limite adormecer
Entre comigo neste ecossistema
De calamidades fisiológicas
Comida processada, refrigerantes,
Bom ar, desodorante e sexo.
Deixe a tela nos engolir
E mergulhemos neste mar de vodka
E solidão aos litros.
Não há motivos para voltar
Há sim motivos para acender o pulmão
Com algum fluído a cada lacuna desbravada.
Vamos arrancar a roupa do dia
Com a nossa afiada falta de bom senso
E mastigar o piso carpetado do medo
Com a dentadura dos prédios mofados
Há sempre alguém acordado por você
Seus pais, sua amante, seus filhos, a rua
Ou melhor, a sua falta de culpa
Nossa série já montada
Proibida para a massa
Proibida para cachorros
Proibida para a sobriedade
Deixe o limite adormecer
E comprove a falta de tato que há numa manhã,
A falta de orgulho que há num final de tarde,
A falta de tédio que há na noite.
Vamos, com os facões da obviedade,
Desligar os programas de auditório
Cortando cabeças, cortando frases
O direito de resposta
As grandes conquistas não serão mais grandes conquistas
Os grandes homens não serão mais grandes homens
Pois grandes seremos nós, sem motivos ou discursos,
Apenas a nossa existência ilimitada
Pois a falta de limite nos dá esse presente:
Dificilmente iremos perceber
A morte ao nosso lado.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Pensar até explodir

(para Reka)


Pensar pensar até explodir

E não estar nem mais lá nem aqui

Em você apenas e

Mudar a cada susto tomado

A cada choque em tomadas

A cada tomada de decisão

Parar pra pensar em você

Enquanto o relógio preso na bomba

Cria a intenção da

Primeira guerra nuclear

Beijar a sua boca e cortar

O fio azul que controla

O tempo

Pensar pensar e explodir mesmo

Em segundos, minutos, meses, anos,

Da sua vida.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Presente de natal para toda família iraquiana!

http://www.sockandawe.com/

Na cara!

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Ocorrência


O que ocorre é que uma estranha textura de húmus percorre a superfície do pensamento o que ocorre é que uma nuvem de cimento e cal desaba concreto sobre o pensamento o que ocorre é que os acidulantes não percorrem a corrente sangüínea do pensamento eles dão gosto aos vazamentos destes vasos o ocorre é que o gosto de saliva não tem mais gosto de saliva para o pensamento o que ocorre é que o sabor da carne secou dentro do sistema digestivo o que ocorre é que um porta canetas antes era uma lata de refrigerantes o que ocorre é que a televisão é um diálogo de mão única o que ocorre é que a televisão não é um diálogo mas um condicionador o que ocorre é que os condicionadores deixam os meus cabelos mais oleosos o que ocorre é que as imagens pornográficas nunca me causaram arrepios na espinha o que ocorre é que você também pode completar as lacunas o que ocorre é que você pode continuar escrevendo com este início o que ocorre é que as lixas de unhas duram o tempo suficiente para que se perceba que elas são inúteis o que ocorre é que este texto é extremamente inútil o que ocorre é que é justamente nas lacunas impressas pela inutilidade que o pensamento pode se espalhar descansar repensar repensar repensar o que ocorre é que o meu pensamento tá folgado demais

domingo, dezembro 21, 2008

Vou me afogar e já volto
(para Aninha e Jaques)

Há um amigo de vocês
Que aprende a passos de tartaruga.
Sim, ele agüenta o mar e suas ondas
Sim, ele tenta não ser
Cegado pelo sol.

Todo dia este amigo volta da água
Pra contar com outros amigos
Que sabem que ele ainda
Não atravessou nenhum oceano.

O amigo chora quando entende
Que falou besteira
O amigo chora quando entende
Que atravessar oceanos
Talvez seja uma besteira
O amigo chora quando entende
Que a sua vaidade o afogou
Em besteiras.

Este amigo arrependido
Volta para o mar
Já no fim da madrugada,
Para enfim morrer
Afogado

Mas é justamente
Lá dentro, meus amigos,
Que ele respira.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Trecho da peça Jogo da Verdade (para os que participaram das várias sessões de "Chamando na Chincha" na Pizza Mais)

As personagens passam um tempo olhando uma pra cara da outra, girando um isqueiro no centro de uma mesa (ou outra superfície qualquer)


A - Você não vai falar nada?

B - Não. Não quero falar

(pausa)

A - Eu nunca te pedi para fazer aquilo

B - Aquilo o que?

A - Aquilo...você sabe (apenas mexe os lábios)

B - Eu não fiz isto...

A – Como não?

B – Não fiz nada disso que você disse que eu fiz...

A – Eu disse?

(pausa)

B - você me forçou a contar uma coisa que eu não fiz

A - Claro que fez! Não seja hipócrita!

(pausa)

A – Desde que começamos a jogar o jogo da verdade aqui nesta (interrompendo B) Não fale mais nada a respeito...você jogou fora toda uma vida por causa de uma (apenas mexe os lábios) eu não consigo entender como uma pessoa como você que (apenas mexe os lábios) e depois conseguiu (apenas mexe os lábios) pode falar uma coisa daquelas pra mim...

B – Você me forçou a falar aquilo...

A – não! Você queria falar aquilo.

B – Você me obrigou!

A – Estava entalada na sua garganta

B – falou que iria contar que eu (apenas mexe os lábios)

(pausa)

A – Sim, eu poderia contar o seu segredinho...sua...

B – Não comece

A – Você é uma hipócrita mesmo...eu sabia que eu nunca poderia jogar o jogo da verdade com você

B - A única mentira que eu contei foi o que você me obrigou a contar...

A – Pare com este cinismo...

(pausa longa)

A – Por que você perguntou se eu já dei o cu?

B – Ué, jogo da verdade é pra isto, não é? Para constranger as pessoas...

segunda-feira, dezembro 15, 2008

De repente


É de manhã

Pessoas cantam nas ruas

Falam poemas, dançam,

Oferecem flores em forma de

Palavras

O dia escorre como um

Banho de cachoeira

De repente uma bomba

Estilhaços

Um anoitecer que

Chega às pressas

Um senhor fardado

Pedindo o RG, o CPF

O endereço completo

De repente lhe oferecem

Máscaras de oxigênio

De repente palavras

São justamente aquilo

Que não se pode

Falar

De repente já é outro dia

E tentamos a todo custo

Em meio aos cacos

Buscar um sentindo.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Começa amanhã. APAREÇAM
Dia 09-12-2008


19:00 h - Monólogo: AS NOIVAS

Com: Helena Portela - Autor: Alexandre França - Direção: Verônica Rodrigues

19:45 h - Leitura do poema Sorex e Minustah
de Paulo Bearzotti - Por: Paulo Ugolini

Dia 10-12-2008

19:00 h - TEATRO

Na verdade não era o sinal de vai tomar…

Com Direção de Nina Rosa Sá, peça de Luiz Felipe Leprevost.
Realização: Os Iconoclastinhas

LEITURA POÉTICA - Poemas: Fernando Montalvão
Interpretação: Mara Mocrosky - Com: Lila Montalvão e Ronald Magalhães - Direção: Fernando Montalvão

Dia 11-12-2008

19:00 h - APRESENTAÇÃO MUSICAL

Alexandre França – Anaís Monte Serrat Magalhães - Bárbara Kirchner – Eduardo Mércuri - Ilse de Freitas - Luiz Felipe Leprevost -Octávio Camargo - Ronald Magalhães -Thadeu Wojciechowski


ENTRADA GRATUITA

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Poemas estilo "Grand Guignol" em parceria com o Ministério da Saúde.



I

Fumar causa
câncer
de pulmão

II

Fumar causa
câncer de boca e
perda dos dentes

III

Fumar causa
câncer
de laringe

IV

Fumar causa
aborto
espontâneo

V

Fumar causa
impotência
sexual

VI

Esta necrose
foi causada
pelo consumo de
tabaco

VII

Ao fumar você inala
arsênico e naftalina
também usados contra
ratos e
baratas

VIII

Crianças que convivem com
Fumantes
têm mais asma,
pneumonia
sinusite e
alergia.

terça-feira, novembro 25, 2008

Para quem estiver no Rio

segunda-feira, novembro 10, 2008


quinta-feira, novembro 06, 2008

Sobre a linguagem política

Me preocupa saber que
A frase “as pessoas morrem
De fome no mundo inteiro”
É há muito um clichê e
Que são lançados 70 milhões
De toneladas de gás carbônico
Na atmosfera todos os dias e
Que as grandes corporações (e
Até mesmo os Estados Unidos)
Não estão nem aí para
O futuro do planeta e
Principalmente
Me preocupa mais
do que tudo saber que
Uma população inteira acha
O máximo o jargão de auto ajuda
“Yes, we can”

sábado, novembro 01, 2008

Brecht + The Doors

Jim Morisson + França

"The Politics of ecstasy are real
Can't you feel them working
thru you
Turning night into day
Mixing sun w/the sea?"

Jim Morrison

"Os políticos do êxtase são reais
Você não sente o trabalho deles
Aí dentro
A noite revelando o dia
O sol misturado ao mar?"

(a tradução literal dos dois últimos versos seria mais ou menos assim: "transformando a noite em dia/ Misturando o sol com o mar?". Mas achei que ficaria mais poético evidenciar as ferramentas desta "política do êxtase", ao colocar os "resultados" dela e ainda insinuar ser a noite um dos "políticos do êxtase")

quarta-feira, outubro 29, 2008

Para quem estiver no Rio ou em Sampa



segunda-feira, outubro 27, 2008

HOJE

ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS DE UMA TRADUÇÃO

PALESTRA-RECITAL SOBRE A POESIA DE CHARLES BUKOWSKI
E LEONARD COHEN

COM
FERNANDO KOPROSKI

MÚSICOS CONVIDADOS:
ALEXANDRE FRANÇA
CARLOS MACHADO

Programação:

28/10 terça-feira 14:30-16:30
Palestra: a poesia de Charles Bukowski
Recital: poemas de Charles Bukowski traduzidos por Koproski
Música: Alexandre França
Local: Biblioteca Pública do Paraná - Auditório Paul Garfunkel

29/10 quarta-feira 14:30-16:30
Palestra: a poesia de Leonard Cohen
Recital: poemas de Leonard Cohen traduzidos por Koproski
Música: Carlos Machado
Local: Biblioteca Pública do Paraná - Auditório Paul Garfunkel

Promoção BPP
Rua Cândido Lopes, 133, Curitiba 3221-4900

sábado, outubro 25, 2008

Lique

O CD "Cidade Estrangeira" do Marcelo França, mais conhecido como Lique, é, sem exagero, uma das melhores coisas que eu já ouvi daqui de Curitiba. Letras fantásticas (a maioria do poeta Amarildo Anzolin, em sua melhor forma, na minha opinião) e os arranjos únicos de Alonso Figueroa, que seguem a estética sombria do disco (uma mistura maluca de Tom Waits, Astor Piazzola e Cartola). Sempre quando dou uma pausa, coloco pra ouvir o cd. Muito bom. Quando eu digo que a cidade está evoluindo, as pessoas não acreditam. É só entrar no my space dele e conferir. http://www.myspace.com/liquespace

Enchente
(Lique/ Amarildo Anzolin)

Vim de lá
Correndo, só pra te contar
Que o mar invadiu toda cidade
E a tempestade que virá, de lá
Na certa pode carregar os sonhos
Quanta água invade
Nem dá tempo de pensar

Me atirei no mar, onde o meu amor morreu
Só mágoa e eu...só mágoa e eu

Vem olhar!
Só vendo dá pra acreditar:
De amar, morreu a tranqüilidade
E há tempos há tardes em que não há
Lugar para o meu peito descansar
De tudo que me traz esta saudade
E essa vontade de lembrar
Quem me esqueceu

Me atirei no mar, onde o meu amor morreu
Só mágoa e eu...só mágoa e eu...

Virá, meu Deus! Do fundo do mar
Uma onda linda pra me salvar
E lavar a ferida que a vida tem
Que apagar.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Surras

Um garoto apanhando feito
Carne na tábua há uma quadra de mim
Não um menino de rua como querem
Os que escrevem sinopses de dvd
Um garoto de classe média
Que poderia ser um menino de rua (aqui isto não importa tanto)
Com suas roupas escolhidas
Pela mãe
E seus gestos inspirados
No pai
Seus olhos são faróis do medo
Em uma rua escura e indiferente
Ele não pede ajuda apenas
Se encolhe em posição fetal
Na esperança de nascer com
Outra cara, em
Outra cidade, em
Outro hospital
Terminado o desfile de
Pontapés, socos, insultos e cuspes
Chego mais perto, dou-lhe a mão
Ele recusa dizendo “tá tudo bem”
Pergunto “quem eram estes caras?”
Ele diz “eram meus amigos”
Seu maxilar está torto, o rosto sangra,
Perdeu alguns dentes
Eu digo “eles não são seus amigos”
Ele diz “é, eu sei. Eles ERAM meus amigos”
O garoto sai destruído e aliviado
Pensando, acredito eu
“por que não morri de uma vez?”
vou para o bar da esquina
os agressores estão lá
bebendo e sorrindo
comemorando sei lá o que
e eu poderia mata-los
um por um com uma foice
se eu não tivesse nascido
tantas e tantas vezes se
eu não tivesse surrado
garotos da minha idade
na época em que surramos e
somos surrados
se eu não quisesse morrer
agora, ali, neste exato
instante.
Hoje


Quinta-feira, Octávio Camargo (composição e violão),
Bárbara Kirchner (canto).

— Finnegans Wake (James Joyce) 3 fragmentos. Upturnpikepointandplace/Brekkek/Finn

Canções de Thadeu Wojciechowski, Octávio Camargo e Bárbara Kirchner.

1. Capitu
2. Vale de lágrimas
3. Porto de Antonina
4. Afinado
5. Tenho pela frente a vida inteira
6. Intranquilis
7. Vendaval
8. O assinalado
9. Mesmice
10. Língua madura
11. Porta-retrato
12. Lua cheia
13. Raiva destilada
14. O poeta
15. Fanfarrão
16. Plástica

Horário: 19h30.
Local: Casa Gomm, Rua Bruno Filgueira, 850
(final da quadra, virando à direita, sentido Rua Vicente Machado - Centro).

Ingresso gratuito.

E amanhã

segunda-feira, outubro 20, 2008

Anotações em guardanapos - na Pizza Mais. Ontem.

Sobre discursos suicidas


Os poemas e expressões faciais
Que nos fazem chorar falam
Geralmente aquilo que gostaríamos
De falar antes de ocasionais suicídios
É por isto que eu sempre digo
Nada como uma meia-luz
E uma música triste
Para animar o ambiente

domingo, outubro 19, 2008

Programa de domingo



lá no Japão

sábado, outubro 18, 2008

Mais um texto insano da Reka. Confiram

Negativo, capitão.

Quem anda pesquisando "garota reka" no google? Quem é idiota o suficiente para formular perguntas completas ao oráculo? Seria uma ferramenta de busca a melhor opção para se encontrar garotas de programa em cidades interioranas de estados do sudeste? Quando São Paulo se tornar Sampaulo (ah, se essa reforma gramatical fosse minha), esse país acaba (ou começa, num big gang bang bem brasileiro). Hoje havia um livro sobre a reforma gramatical no caixa da livraria; nove reais é o preço da nova língua. Alguém vai comprar? Eu não. Estou conformada em me tornar a tal velhinha do Clube da Hortência que insiste em pronunciar tremas, carregar textos com hífens necessários apenas para o meu próprio ego e achar tudo o máximo (leia-se má[c]-xi-mo). O má[c]ximo foi um diálogo surreal que ouvi hoje da janela de um dos cafés do centro da cidade: uma mulher (vamos chamá-la de Lúcia e estimar sua idade em 32 anos) tentava convencer um mendigo meio ébrio (Juvenal, 39 - que recurso mais revista Caras) a deixar a vida vadia, se reconciliar com a mulher e voltar para casa. Ele pedia dinheiro e tropeçava (na calçada e nas palavras) enquanto insistia que estava limpo e que a mulher havia o expulsado de casa por loucura dela e não por limites ultrapassados por ele. Lúcia, cansada das investidas de Juvenal (que a essa altura já começava a tentar tocá-la em um dos braços a cada frase e se inclinava cada vez mais na direção do seu rosto ao balbuciar coisas incompreendíveis), atravessou a rua, mandou o cara pastar e seguiu sua vida atravessando a rua. É só isso? Sim, eu não tenho muita paciência para descrever eventos reais (divagar de verdade é muito mais rico e interessante). Na verdade foi realmente interessante e, como estava sentada ao lado da janela, pude acompanhar algo em torno de 15 minutos que podem ser resumidos em:
Lúcia: _Volta pra casa, cara. Volta pra tua mulher.
Juvenal: _ Grsjhaj limão hajmussi.
Lúcia: _ Se reconcilie com ela. Tome um banho, guarde dois dias do dinheiro da pinga e leve flores!
Juvenal: _ Ela digidusma é uhngati o preipon cramunhão.
Lúcia: _ Toma tento! Larga essa vida que não leva ninguém a lugar nenhum, rapaz.
Juvenal: _ Eu vou, eu vou. Mas tergj eu só (arroto) preciso de um (outro arroto) trocado para o ônibus até a (resmungos) casa da muié.
Tive que rir da inocência dele crendo que alguém acreditaria nisso.
Lúcia riu. Eu ri. Juvenal arrotou e encostou no braço de Lúcia mais uma vez. Lúcia diz que está com pressa e se desvencilha de Juvenal; dou outro gole no café e peço uma fatia de Bolo de Rolo.
Mas, quem diabos pesquisou "garota reka" no google?

Mais?
www.muitoazeitepoucosal.blogspot.com

sexta-feira, outubro 17, 2008

Albert Nane

O Albert é um dos grandes fotógrafos aqui da nossa cidade e agora está com um blog, no qual publica textos, fotos, resenhas, etc. Bem legal.

confiram
www.albertnane.blogspot.com

quinta-feira, outubro 16, 2008

E na Gazeta

Uma semente literária

A Kafka Edições, editora curitibana, lança hoje cinco livros e anuncia outros projetos, que contemplam reedições e traduções
Publicado em 16/10/2008 | Marcio Renato dos Santos


Um marco na história editorial do Paraná. Assim pode ser analisado o lançamento – na noite de hoje – da Coleção Antena, com cinco livros (confira a lista no quadro ao lado), publicada pela Kafka Edições, com recursos públicos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba – Mecenato Subsidiado. Motivos para um possível espocar de fogos são muitos. Primeiro, por colocar no mercado autores que se embrenham por veredas experimentais. Segundo, pelo fato de os livros se apresentarem em edições bem-acabadas que, inclusive, convidam à leitura. E, ainda, porque a editora anuncia novidades para um breve porvir.

A Kafka nasceu a partir de uma inquietação do escritor paulistano radicado em Curitiba Paulo Sandrini, há três anos. Naquele passado, ele decidiu publicar autores locais que, de outra forma, permaneceriam inéditos. Os esforços geraram dez "livrinhos" que eram vendidos, em média, por R$ 1,50. Na época, a editora ainda se chamava Kafka Edições Baratas (daí o porquê do reduzido valor das obras) e, entre os publicados, poetas locais como Fernando Koproski, Alexandre França, Jorge Barbosa Filho, Luiz Felipe Leprevost, além do próprio Sandrini – contista que já havia publicado O Estranho Hábito de Dormir em Pé (2003) e Códice d'Incríveis Objetos & Histórias de Lebensraum (2005).

Kafkianas

O que é o projeto:

A Kafka Edições põe no mercado, e para a comunidade (bibliotecas e escolas municipais), cinco títulos, bancados com recursos públicos da cidade de Curitiba. A Coleção Antena, a ser lançada na noite de hoje, é composta pelos seguintes livros:

> Jornal da Guerra Contra os Taedos, de Manoel Carlos Karam

> Acasos Pensados, de Luci Collin Osculum Obscenum, de Paulo Sandrini

> Inverno Dentro dos Tímpanos, de Luiz Felipe Leprevost

> Arquivo Morto, de Marcelo Benvenutti.

"Mas aquele projeto inicial não contemplava, por exemplo, a distribuição. Os livros circulavam de mão em mão ou apenas pelo correio", explica Sandrini, atual coordenador editorial da Kafka. Das "edições baratas" rumo a essa nova proposta, houve a modificação do formato dos livros (de pockets para o tamanho convencional) e, ainda, outro deflagrador: "O apoio oficial". Esses cinco títulos, recém-saídos da gráfica, tiveram tiragem individual de 1 mil exemplares – metade da tiragem será destinada à comunidade, seja para bibliotecas públicas e escolas municipais como contrapartida social. Individualmente, cada livro custa R$ 20. O kit, com os cinco títulos, tem desconto e sai por R$ 60.

Sandrini – uma espécie de faz-tudo na editora, da leitura crítica ao projeto gráfico. – salienta que a Coleção Antena pode ser observada pela confluência de gerações: de um juvenil Luiz Felipe Leprevost ao veterano Manoel Carlos Karam, morto ano passado. "A coleção, inclusive, presta uma homenagem ao Karam, que praticou uma literatura de qualidade e deixou muitos inéditos." Por falar em Karam, o próximo projeto da Kafka, já aprovado pela Lei Municipal, prevê a reedição de três obras do autor, todas esgotadas: Fontes Murmurantes (1985), O Impostor no Baile de Máscaras (1992) e Cebola (1987). "Também pretendemos viabilizar traduções." Nessa primeira empreitada da Kafka Edições, a Coleção Antena, Sandrini divide a coordenação editorial com a escritora e tradutora Luci Collin (que deverá colaborar com futuras traduções para o selo).

"É preciso salientar que, muito mais do que apenas editar um autor, um livro meu, por exemplo, a Kafka tem propostas literárias amplas, como essa Coleção Antena", diz Sandrini. A editora também tem a meta de se aproximar de outros centros. A coleção tem no catálogo inicial o livro Arquivo Morto, do escritor gaúcho Marcelo Benvenutti. "O meio editorial paranaense precisa desse movimento", comenta o editor, em tom de festa e já na expectativa dos projetos futuros.

Serviço

Lançamento da Coleção Antena, da Kafka Edições. Beto Batata Alto da XV (R. Prof. Brandão, 678), (41) 3262-0840. Dia 16, às 20 horas. Entrada franca.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Nova parceria ontem no Wonka

Bic

Beijo roubado é domínio público
meu fogo não tem dono
se encontro um isqueiro bic
no seu bolso
pode saber - é meu
e você nem percebeu

Caneta emprestada é um risco
do telefone na agenta vazia
se você encontrou uma bic
usada na sua bolsa
tomara que tenha tinta

Mas se estiver indo embora
Pode levar o isqueiro
e a caneta que eu roubei
só não me esqueça do lado de fora
não se esqueça de me levar também
cada pessoa é o que é
cada pessoa é o fogo que tem

Márcio Mattana, França e Terence Keller

segunda-feira, outubro 13, 2008

corpos


O som do silêncio da rua

O ronco do computador

Velhos xerox empilhados num canto

Como um prédio virando cortiço

Um bairro jogado as traças

Bilhetes perdidos na estante

Outros tantos guardados no armário

E uma carta de amor inacabada

Escrita em dezessete de maio

De dois mil e cinco

Este pulmão de sopros mofados

E de suspiros e apnéia do sono

Formam a respiração do meu quarto

Logo uma falta de ar me consome

As coisas me engolem e me cospem

Num só movimento

Trato delas como o asfalto

Trata seus pombos

Não as alimento direito

Esqueço de suas funções

Me esqueço dentro delas

E só lá pelas quatro, no escuro

Me esqueço dentro de mim.


Não quero que cheguem perto

Dos corpos que enterrei.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Resposta ao Sálvio quanto à peça "final do mês"

(ler o texto do Leprevost sobre o assunto para entender melhor o que foi falado)
(do Blog do Gilson Camargo)
  1. Sálvio Nienkötter disse:

    Sim, vi Final do mês. Vexado, mas vi, deliciado com a trilha, competente às pampas, sobrando, aliás, mais econômica que devia, na opinião deste crítico, com muita razão desacreditado. Mas com a Caludete tudo dá. E a Helena? Que choque vê-la assim, completa. Oxalá, Oxum, sei lá meu pai, a moça é talento puro. Quanto ao texto, o recurso ἀπὸ μηχανῆς θεός, o autor sabe bem do que falo (segredo nosso), e há pontualidade nesse falar, ao contrário do que argumenta o poeta Leprevost, não o aproxima de Brecht (nem precisaria, mas um argumento eloqüente contra essa possibilidade é o ataque à atendente bancária, duplamente vencida), ao contrário, o lançaria à comedia burguesa inglesa, se obtivesse manter a fina ironia, mas descambando ao farsesco caricatural, nos coloca entre a possibilidade do novo e a lógica do desencontrado. Sem estudo ou exercício a arte não anda.

    Viu Gil, mesmo você(s) me devendo e não pagando, prestigio o seu blog, por enquanto.

  2. Alexandre França disse:

    Olá. Só para contrapor o que foi dito pelo Sálvio, acredito que este “Deus ex machina” (que o Sálvio colocou em grego) esteja na síntese Hegeliana que se dá entre a mãe e a filha que é na verdade o dinheiro. Ou seja, o Deus ex maquina - se é que realmente ele existe no "final do mês", já que é um elemento da tragédia grega - estaria no fato das duas aceitarem dinheiro roubado no final da peça (fato este que, como um bom Deus ex machina grego, vem amarrar toda a história), e não no pepino, no assalto ao banco, já que estas outras cenas seriam reflexos patéticos da primeira, cuja lógica nonsense (que já vem de uma outra época da história do teatro - mas isto eu deixo como lição de casa para o amigo, vide o que ele falou no final do seu comentário “Sem estudo ou exercício a arte não anda”) abre um espaço tanto à crítica, quanto ao encantamento. A aproximação com Brecht estaria, basicamente, com o fato da peça falar sobre dinheiro e também com o fato da peça utilizar em vários momentos recursos Brechtianos (as quebras, a filha falar sobre ela mesma, utilizando, para isto, o “nós”). Acho que quando você contrapôs o argumento do Leprevost, você estava falando no sentido temático, certo? Ou, mais precisamente, quanto aos rumos que a história da peça nos leva? Neste caso, lembre-se que a mãe está TRABALHANDO para sustentar a filha, e o fato dela não ter mais dinheiro para tanto (e as conseqüências disto), é, sim, uma aproximação com Brecht. É claro que não estamos num período de guerras, e a peça não entra neste contexto. A mãe e a filha não são pessoas miseráveis, que se desdobram para ganhar dinheiro e então comprar o "pão nosso de cada dia". Mas elas estão prestes a se tornar. O fato da falta de dinheiro levar a mãe a roubar comida do supermercado, cá entre nós, é bem Brechtiniano. O ataque à atendente bancária é veementemente rechaçado pela mãe (quando ela fala “minha filha é uma facista, uma ditadora” ou quando ela diz “isto é um absurdo: assaltar um banco só por que a atendente lhe tratou mal”) e não celebrado como um ato heróico - tanto que o discurso da filha desemboca no dilema de “devolver ou não o dinheiro”, que por sua vez desemboca no Deus ex machina do final. As pessoas que alí estão no banco são tomadas pelo discurso da filha e pela situação de incômodo de ficar horas numa fila; elas não são agentes da extrema direita que vieram destruir o papel da atendente bancária na sociedade. O ataque à atendente, na verdade, é o estopim do trágico, é a paralisia da classe média frente ao mundo que está aí, pedindo pressa e produção. Acho que o amigo não entendeu a peça. Acho que o absurdo dela (o pepino, o assalto ao banco, a maçã conversar com a mãe, etc) não leva apenas ao riso fácil e ao mero entretenimento (como você propõe quando fala sobre “farsesco caricatural”), mas sim a um estranhamento que (pelo menos na ótica de muitos espectadores que vieram falar comigo) leva posteriormente à reflexão. Respeito sua opinião, Sálvio, até por que somos amigos, mas gostaria imensamente que você assistisse a peça de novo para levar em consideração alguns pontos, que pelo que eu percebo, você não levou. É isto. Grande abraço

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Demorei para responder a este comentário, por que eu fiquei sabendo que ele existia apenas ontem, ao ouvir uma conversa do Sálvio com a Helena. Sálvio, da próxima vez comenta no meu blog para eu saber, ok?


segunda-feira, setembro 29, 2008

Do blog do Solda

Flores de Aço com Chiris e Uyara Torrente

Chiris interpreta Dalva de Oliveira. A noite das atrizes abre com a grande Chiris Gomes no muito elogiado show baseado em seu CD sobre a obra de Dalva de Oliveira. Dalva é uma grande contadora de histórias e merece uma homenagem à altura de sua importância no cenário brasileiro. Toda a força e o drama da cantora e compositora pode ser visto atravéz da interpretação de Chiris, acompanhada pelos grandes músicos Camilo Carrara, violão, Eduardo Contrera, percussão e Helinho Brandão, baixo acústico. Uyara Torrente. No show "A Saudade Mata a Gente, Panaca", a atriz e cantora curitibana Uyara Torrente, interpreta canções de compositores curitibanos, como Alexandre França, Leo Fressato, Luiz Felipe Leprevost e Troy Rossillo. A premiada atriz consegue transportar toda a poesia presente nessas vozes do limbo que é a cidade de Curitiba, onde a poética se perde por não pertencer à uma metrópole, mas também não encontra eco em suas raízes provincianas. Entrada: R$10 e R$5 para estudantes. Wonka Bar : Trajano Reis, 326 fones 3026 6272 : 9142 0810.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Frase da semana

"Deus é tanto mais Deus quanto mais inacessível for (...)"
José Saramago
O Evangelho Segundo Jesus Cristo

quinta-feira, setembro 18, 2008

Blindness

Devastador. Um filme que atira o espectador a uma verdadeira catarse no final. Durante uma das cenas mais comentadas desta produção, ouvimos uma mulher da platéia gemer ao chorar. Tudo o que foi mostrado na tela foram insinuações sonoras e visuais, nada daquele exotismo erótico típico em filmes brasileiros mais antigos. Nada no filme é óbvio. É uma sacada visual atrás da outra, desde a fotografia pontuada pelo tom esbranquiçado, até a maneira como os “cegos” do filme olham o mundo: tudo por insinuações. A atuação de Mark Rufallo e de Julianne Moore é de um realismo que arrebata (lembrando a linha de direção de atores dos outros filmes de Fernando Meirelles). Quando saímos da sala de projeções, as pessoas que lá estavam limpavam as lágrimas com um olhar brilhante, procurando não comentar mais nada a respeito. “Ensaio Sobre a Cegueira” tem exatamente este efeito, ele nos leva a uma reflexão interna sobre a natureza humana, partindo da constituição de uma nova sociedade cega. Uma cegueira branca, como se o infectado nadasse num mar de leite. A história de Saramago nos impõe esta lógica infernal de “como seria se o mundo ficasse realmente cego”. E, pelo menos nesta história, o mundo acaba bem mal, com a corrupção e o desespero aflorando em diversos setores da nossa organização social. Esta história fala sobre tudo o que tentamos esconder dia após dia com a nossa capa capitalista; sobre aquilo que ninguém quer falar, pois incomoda e muito: o individualismo. O individualismo, hoje vigente em nossa sociedade, acaba nos cegando em vários momentos. Acabamos não vendo o que acontece ao nosso redor, talvez por que há muito nós impomos a nós mesmos esta cegueira individualista (subsidiada principalmente pelo consumismo). Preferimos o nosso conforto a confrontar qualquer espécie de adversidade social. Enfim, um filme necessário sobre uma história necessária. Se “Ensaio Sobre a Cegueira” não é tão bom quanto alguns críticos por aí pregam, pelo menos (o que já é muito) ele propaga uma história genial que ainda vai mexer com a cabeça de muita gente.

terça-feira, setembro 16, 2008

Maurício Pereira

Laerte

Meu amigo Paulo Ugolini mandou esta por e-mail. Genial.


segunda-feira, setembro 15, 2008

convites

Há convites aqui dentro,
Folder de loja, catálogo de lingerie
Materiais publicitários
Espalhados pelas gavetas,
Vão de cama, vão de porta, frestas,
Há velhos convites por aqui
Como baratas num deposito
Preciso dar um jeito nisto,
Preciso limpar o meu quarto
Como quem vai cometer uma chacina.

domingo, setembro 14, 2008

A arte de produzir efeito sem causa

Pequenos universos escondidos dentro de enclausurantes apartamentos do centro da cidade. O ar produzido pelo ar condicionado. As relações bizarras entre solitários. Tudo o que cabe em pequenos espaços. É disto (e sobre tudo o que vem disto) que trata o livro “a arte de produzir efeito sem causa” de Lourenço Mutarelli. Como em seus outros livros, aqui a história também se passa num micro universo: um apartamento no centro da cidade de São Paulo. Junior, depois de descobrir um terrível segredo que o levará a abandonar a mulher, o filho e o emprego ao mesmo tempo, resolve passar um tempo na casa do pai, que Mutarelli apelida de “Sênior” (recurso também utilizado em “Jesus Kid”. Neste caso também as personagens ganham apelidos a todo o momento). Lá ele conhece Bruna, uma estudante de artes que é supostamente observada por Sênior através de um buraco na parede. Sem dinheiro, sem emprego e sem nenhuma perspectiva, Junior não encontra saída, uma vez enterrado em sua rotina que se resume a goles de cafés, maços de cigarros e decidas no bar da frente de seu prédio. Ele é mastigado pelo ambiente e pelas lembranças atormentadoras de sua mulher e de uma bizarra traição.

Nunca havia experimentado a leitura de um livro que falasse de uma forma tão simples, seca e ao mesmo tempo profunda sobre a solidão e sobre a imobilidade que às vezes nos abate através da rotina e do acomodamento. “A arte de produzir efeito sem causa” fala sobre abandono, mas o leitor só se dá conta disto depois, com o escorrer das páginas. É só depois de se estar enterrado (como Junior também parece estar) e completamente envolvido pelo enredo que se percebe que aquele livro fala sobre solidão, abandono, falta de dinheiro, falta de perspectiva e, finalmente, inanição. Li numa noite. Numa sentada. Confesso que fiquei realmente obstinado pelo livro.

Enfim, depois disto estou curioso com relação à filmagem do livro “O natimorto”, produção que contará com a atuação do próprio Mutarelli e com a deslumbrante Simone Spoladore.

sábado, setembro 13, 2008

Casal apaixonado

Não vou lhe dar a mão
E dizer que está tudo bem
Acho brega
Não vou dizer bom dia pra rua
E não vou lamentar o dia
Em que estive prestes a jogar
A mobília do meu quarto pelo bairro
Não quero que você participe disso
Não quero que você reviva “momentos”
Passeando descalça pelo asfalto
Não vou atravessar a chuva
Atrás de um gole de café expresso e tragos
De um cigarro de filtro vermelho
Não vou amortecer a realidade
Nunca grite “você me paga”
Às quatro da manhã
Não acorde os meus vizinhos
Não me ameace com uma 12
Não cuspa na minha cara
Nunca vou me machucar
Com seringas descartáveis
Esquecidas na sarjeta
Da frente do meu prédio.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Plástico bolha e o terrorismo

As janelas do prédio a sua frente lembram um plástico bolha. Sim, aquele plástico constituído de várias bolhas utilizado para proteger objetos frágeis e que logo, nas mãos de uma criança, se torna um instrumento percussivo dos mais irritantes. A sensação imediata que se segue é a de que aquelas janelas poderiam ser estouradas, como as bolhas que foram estouradas agorinha mesmo pelas mãos de um pirralho qualquer, uma por uma, num movimento prosaico e ao mesmo tempo obstinado de tédio e apatia.

segunda-feira, setembro 08, 2008

quartinho dos fundos

No quartinho dos fundos
Uma montanha de jornais velhos,
Caixas de papelão, malas de viagem rasgadas,
Baús com tralhas e cacarecos,
Brinquedos quebrados,
Bonecos sem pernas, sem braços,
Livros esquecidos,
Enciclopédias.
Será que sou mais antigo
Do que tudo o que é inútil
aqui em casa?
Lá fora cimento, cal, pastilhas
Não mastigáveis,
Insetos verdes, mutantes,
Estranhas espécies do nosso meio
Apodrecido e com os pulmões
Entupidos de fumaça, fumaça, fumaça.
Aqui no meu quarto,
Só a minha cama.
O resto passa batido.

Uma questão:

Qual o recorde de tempo
Passado numa cama de molas
Olhando para o teto
Num quarto iluminado apenas
Pela luz da rua?

sexta-feira, setembro 05, 2008

E na Gazeta do Povo...

Conversas de bar

Nicole Zattoni/ Divulgação

Nicole Zattoni/ Divulgação / Wellington e Jader Alves interpretam os dois amigos  freqüentadores de botecos
Wellington e Jader Alves interpretam os dois amigos freqüentadores de botecos

Publicado em 05/09/2008

Há quem diga que o que falta à maioria dos dramaturgos brasileiros contemporâneos é a oportunidade de ver como seus textos se comportam sobre o palco – uma etapa fundamental de aprimoramento. O curitibano Alexandre França pode se considerar feliz nesse quesito. Pouco depois de Final do Mês e Um Idiota de Presente, uma terceira peça sua ocupa um teatro da cidade: Habitués – O Longo Caminho de Dois Freqüentadores de Boteco, com sessões aos sábados e domingos, às 21 horas, no Teatro João Luiz Fiani (Shopping Novo Batel).

O texto, um balanço de vida feito por dois amigos alcoolistas, saiu vencedor na categoria drama do 1º Concurso de Dramaturgia realizado pelo Teatro Lala Schneider. Nesta montagem, a direção fica a cargo de Marino Jr., que buscou referências no teatro do absurdo e do cinema noir.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Cinturão Vermelho

Dinheiro: o grande vilão em “Cinturão Vermelho”

“Sempre há uma saída”. Esta frase, que em qualquer novela da globo ou mesmo em qualquer filminho High School da sessão da tarde pareceria um grande clichê, no filme “Cinturão Vermelho” de David Mamet se transforma em um hino contra a passividade e contra a corrupção. No filme, apesar de Mamet tratar claramente de mocinhos e bandidos, fica explícita a função do dinheiro (ou do excesso dele) nas relações sociais da alta classe de Hollywood. A boa intenção, a preocupação com o próximo, o amor que subsiste nas relações humanas, o afeto entre marido e mulher, tudo isto, no filme, é trocado pelo hedonismo que a utilização de grandes quantias de dinheiro proporciona. Uma das personagens, que na frente das câmeras de tv é considerado um herói do Vale Tudo, na realidade do filme é um indivíduo que não mede esforços para aumentar o que ele considera o seu “negócio”, ou seja, participar de lutas forjadas para lucrar, e bem, com o sistema de apostas. Ele é que deveria ser o “herói”. Ele é que deveria mostrar algo de redentor para os telespectadores. Mas ao invés disto, percebemos uma preocupação excessiva com o dinheiro e com o poder. Sempre estar no topo. Sempre mandar, nunca ser mandado. Sempre estar a um passo a frente do seu adversário. Para o verdadeiro “herói” do filme, Mike, um treinador de policiais na técnica do Jiu Jitso, estar a “frente do adversário” significa vencer adversidades, defender o que é seu de uma forma justa e honrada. A sua pureza é posta em cheque quando uma de suas técnicas para forçar seus alunos a enfrentar as adversidades é roubada pelos “bandidos” para se transformar num sistema fácil de manipulação de lutas. Isto é amplamente divulgado pela tv como uma “novidade” milenar usada pelos primeiros lutadores de artes marciais; um bom filão de vendas. Aliás, a televisão, neste filme, também tem um papel relevante. Tudo o que é mostrado nas “televisões” do filme é falso, armado: uma grande armadilha. Mamet, neste filme, parece lidar sempre com os duplos. O presente que o mestre dá ao seu aluno mais aplicado é uma faixa preta. O que um ator alcoólatra dá a este mesmo mestre que o salvou de uma briga de bar é um relógio de ouro. A amizade não se compra, nos diz Mamet. Neste filme cheio de simbologias, fica fácil perceber que o autor de "sucesso a qualquer preço" transforma o dinheiro no maior vilão da história. Mike terá que lutar contra grandes adversários para ser o grande herói no final. Mas o dinheiro parece sempre estar a um passo a mais, “comprando” quem for necessário para que o poder e a soberba subjulgue a boa vontade e honestidade da personagem principal. Um grito contemporâneo contra o vil metal: esta é sensação que eu tive ao assistir “Cinturão Vermelho”. Uma sensação de alívio, diga-se de passagem.

domingo, agosto 31, 2008

E JÁ ESTÁ EM CARTAZ A PEÇA

HABITUÉS – O Longo Caminho de Dois Freqüentadores de Boteco

Texto de Alexandre França
Direção de Marino Jr.
Com Jader Alves e Wellington.


As venturas e desventuras de dois alcoólatras terminais que discutem suas vidas, amores e perdas na mesa de um bar.

Sábados e domingos às 21 horas no Teatro João Luiz Fiani (Shopping Novo Batel, na Rua Cel. Dulcídio, 517).

Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00.
Em cartaz até 28 de setembro.
Mais informações www.teatrolala.com
Fone 3232-4499

APAREÇAM!

sexta-feira, agosto 08, 2008

Elas estão de volta - "Final do Mês" e "Um Idiota de Presente"!

confira a programação no blog da Dezoito Zero Um - Cia de Teatro
Risada

no apartamente só
vejo a manhã passar
entre o tédio e o céu
eu tento respirar bem fundo
por um momento eu tento rir do mundo
quis rir com todo mundo
carlito canta smile
eu acompanho e choro
num jogo de ato falho
eu lembro de você sorrindo
eu calo mas por dentro eu rio
rio durante o aplauso
rindo a gente canta
cantando a gente grita
gritando a gente chama
aquilo que a tristeza explica
sorrindo no final das contas
rindo a gente irrita
vamos sorrir no três
pra não haver revés
a gargalhada em dois
é um quarteto em dez por doze
com longos solos de oboé
que ninguém leva a sério.

segunda-feira, julho 21, 2008

Como diria a reka: doentio.

Running with Scissors

Não li o livro, mas achei o filme interessante (fora o excesso de música "comovente"). A atriz que faz a mãe é simplesmente genial (já havia achado ela genial em "Beleza Americana"). Só ela, já vale o esforço.

quinta-feira, julho 17, 2008

Apareçam

Uma m
ulher, que, convidada a um "jantar artístico" em homenagem ao famoso ator do Teatro Nacional e que faz até telenovela, percebe que está, na verdade, em uma reunião de talentos medíocres. Arrependida, reflete sobre sua vida e o meio que a cerca, sob a lembrança de uma grande amiga de todos, enterrada naquele mesmo dia.

10 de julho a 10 de agosto
quinta a sábado às 21h, domingo às 19h
Ingressos: R$14,00 e R$7,00

Casa do Damaceno - Rua 13 de Maio, 991 - inf.: 3223-3809
Texto e direção: Marcos Damaceno – Inspirado na obra de Thomas Bernhard -
Com: Rosana Stavis
- Composição, Adaptação e Direção Musical: Gilson Fukushima - Violinista: Roger Vaz - Iluminação: Waldo León - Figurinos: Maureen Miranda - Arte e Design Gráfico: Foca Cruz -
Fotos: Elenize Dezgeniski - Produção: Bruno Luis / Tânia Araujo


sábado, julho 12, 2008

Bons tempos

Mutantes

A Rita Lee era uma simpatia mesmo. Genial.

sexta-feira, julho 11, 2008

Trecho da peça "velhos bons novos amigos"

Homem de cinqüenta
– Ele me disse que a senhora esperava o próximo dia com uma resignação de cachorro. Ele me disse que a senhora ficava na porta de casa, abanando o rabo, a espera de um pouco de atenção. Ele odiava cachorros. Ele me disse que a senhora esquecia o tempo, esquecia os dias, as semanas, os meses. Ele me disse que a senhora se esquecia. Ele me disse que sentia pena da senhora e que isto o machucava todos os dias. Ele me disse que a senhora vivia aprisionada entre as suas obrigações domésticas e que aquilo o aprisionava também, muito embora a vida dele parecesse mais “interessante”. Um café, uma torta de limão, pequenas trivialidades poderiam fazer a senhora chorar, pois aquilo possuía um outro significado: aquele significado que só pode ser compreendido pelas pessoas que se esquecem num canto do passado e que se sentem aprisionadas por esta sensação. A vida dele não era interessante. A vida dele se resumia a outras trivialidades que para a senhora poderiam parecer exóticas. A vida dele possuía uma gramática fácil de equívocos e desencontros, pois o amor que sentia pelos outros era novelesco, construído a partir de uma poética romântica que se diluía num copo ácido de realidade. Não conseguia amar uma pessoa como amava a senhora. Ele me disse que não sabia bem se o que sentia pela senhora era mesmo o amor entre um homem e uma mulher. Ele gostava muito da senhora. Ele queria proteger a senhora das coisas ruins e isto o aprisionava e também aprisionava a senhora. Ele me disse que o amor que sentia pela senhora era inteiro, mas que não podia acontecer, pois ele sentia uma aversão pelo corpo de qualquer mulher, até mesmo pelo corpo de sua melhor amiga. Ele me disse que precisava livrar a senhora dele. Ele não queria que a senhora sofresse como ele sofria, muito embora soubesse que o seu sofrimento era muito maior e incalculável. Ele não amava ninguém da forma que gostaria de amar. Ele possuía aquele sonho burguês da família feliz e aquilo também o aprisionava. Ele não amava ninguém e ele não queria que a senhora sentisse o mesmo pelo resto do mundo. Ele se apaixonou pela hipótese de afastamento. (pausa) Essa foi a última conclusão da sua vida. A única forma de livrar um ser humano da dependência de depender de outro ser humano: a morte.

quinta-feira, julho 10, 2008

Frase doentia da semana


"Sim, o homicídio lembra uma sinfonia em sua cabeça, o suicídio é um simples quarteto"

Personagem Stephen Rojack do livro "Um Sonho Americano" de Norman Mailer
(e tem gente que acha que o que eu escrevo é pesado)

quarta-feira, julho 09, 2008

espelho (para Amy Winehouse)

Num piso de cimento jaz
Meu medo, meu ócio, minha pena,
Dias em jejum, beijando ana na boca
Ouvindo ana falar “não toque em nada”
Sentindo pedras de sal em meu espírito
Rajadas de estimulantes em minha vontade.
Volto a minha cama de concreto
Perdendo os riscos que delineavam o mapa
Da minha aflição, dos meus limites.
Acordo e ouço ana me chamar
Para dentro do espelho
Trincado e distorcido
Do banheiro.

Ana me deixou
Sozinha
Com o espelho.

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