
- “Os dois lados mentem. A senhora não percebe isto?!”.
Diz uma das personagens que é prontamente interrompida pela camareira do teatro:
- “‘Os dois lados mentem’ é coisa da sua cabeça, seu autor. Ele não falaria isto!”.
De um lado, dois personagens da Revolução Francesa, Charlotte Corday e Jaqcues Louis David, debatem sobre o sentido da arte num tempo de revoluções e cabeças cortadas. Do outro, autor e camareira discutem a respeito de qual posição política a peça que ali ocorre deveria tomar: esquerda ou direita.
Assim é o funcionamento do espetáculo Mentira! , que terá sua estréia nacional no Festival de Curitiba no Espaço Cultural Falec. Dois planos de realidade entram em conflito, a partir do momento que a visão do autor é criticada pela camareira do teatro.
No palco cada personagem será interpretada por dois atores, que integram dois grupos de atuação: A e B. Assim, num diálogo de espelhos, o conflito muitas vezes aparece no equívoco; nas falhas de comunicação entre os planos de realidade e os grupos de atuação. As conclusões ficarão a cargo do espectador, que será convidado desde o começo a participar deste jogo de linguagem e convencimento.
A dramaturgia e direção são de Alexandre França que além de Mentira! estará com outros dois textos em cartaz no Festival: Final do Mês e Habituès. A peça conta ainda com a participação de atores de diversas companhias de teatro da cidade, que vem marcando presença na produção local, tais como: Companhia Silenciosa, Companhia Elenco de Ouro, Heliogábalus, Cia. Despida de Teatro e Dezoito Zero Um – Companhia de Teatro (esta última, fundada pelo autor e diretor em parceria com as atrizes Verônica Rodrigues e Helena Portela). A idéia é misturar a linguagem e a bagagem artística de cada artista envolvido, com o objetivo de proporcionar ao espectador um espetáculo único, que passe longe do lugar comum.
Serviço
Mentira!
Texto e Direção: Alexandre França
Com Verônica Rodrigues, Simone Magalhães, Maia Piva, Kassandra Speltri, Leo Glück, Helena Portela, Ricardo Nolasco e
Paulo Vinícius.
Part. Especial - Luthero de Almeida.
Trilha: Gilson Fukushima
Luz: Karol Gubert
Realização: Dezoito Zero Um – Companhia de Teatro.
em Março de 2009
dia 26 as 18 horas;
dia 27 as 21 horas;
dia 28 as 12 horas;
dia 29 as 15 horas.
No Espaço Cultural Falec
Na Mateus Leme, 990
ao lado da pizzaria Calabouço.
















30 de Julho de 2008 às 5:46
Sim, vi Final do mês. Vexado, mas vi, deliciado com a trilha, competente às pampas, sobrando, aliás, mais econômica que devia, na opinião deste crítico, com muita razão desacreditado. Mas com a Caludete tudo dá. E a Helena? Que choque vê-la assim, completa. Oxalá, Oxum, sei lá meu pai, a moça é talento puro. Quanto ao texto, o recurso ἀπὸ μηχανῆς θεός, o autor sabe bem do que falo (segredo nosso), e há pontualidade nesse falar, ao contrário do que argumenta o poeta Leprevost, não o aproxima de Brecht (nem precisaria, mas um argumento eloqüente contra essa possibilidade é o ataque à atendente bancária, duplamente vencida), ao contrário, o lançaria à comedia burguesa inglesa, se obtivesse manter a fina ironia, mas descambando ao farsesco caricatural, nos coloca entre a possibilidade do novo e a lógica do desencontrado. Sem estudo ou exercício a arte não anda.
Viu Gil, mesmo você(s) me devendo e não pagando, prestigio o seu blog, por enquanto.
1 de Outubro de 2008 às 16:06
Olá. Só para contrapor o que foi dito pelo Sálvio, acredito que este “Deus ex machina” (que o Sálvio colocou em grego) esteja na síntese Hegeliana que se dá entre a mãe e a filha que é na verdade o dinheiro. Ou seja, o Deus ex maquina - se é que realmente ele existe no "final do mês", já que é um elemento da tragédia grega - estaria no fato das duas aceitarem dinheiro roubado no final da peça (fato este que, como um bom Deus ex machina grego, vem amarrar toda a história), e não no pepino, no assalto ao banco, já que estas outras cenas seriam reflexos patéticos da primeira, cuja lógica nonsense (que já vem de uma outra época da história do teatro - mas isto eu deixo como lição de casa para o amigo, vide o que ele falou no final do seu comentário “Sem estudo ou exercício a arte não anda”) abre um espaço tanto à crítica, quanto ao encantamento. A aproximação com Brecht estaria, basicamente, com o fato da peça falar sobre dinheiro e também com o fato da peça utilizar em vários momentos recursos Brechtianos (as quebras, a filha falar sobre ela mesma, utilizando, para isto, o “nós”). Acho que quando você contrapôs o argumento do Leprevost, você estava falando no sentido temático, certo? Ou, mais precisamente, quanto aos rumos que a história da peça nos leva? Neste caso, lembre-se que a mãe está TRABALHANDO para sustentar a filha, e o fato dela não ter mais dinheiro para tanto (e as conseqüências disto), é, sim, uma aproximação com Brecht. É claro que não estamos num período de guerras, e a peça não entra neste contexto. A mãe e a filha não são pessoas miseráveis, que se desdobram para ganhar dinheiro e então comprar o "pão nosso de cada dia". Mas elas estão prestes a se tornar. O fato da falta de dinheiro levar a mãe a roubar comida do supermercado, cá entre nós, é bem Brechtiniano. O ataque à atendente bancária é veementemente rechaçado pela mãe (quando ela fala “minha filha é uma facista, uma ditadora” ou quando ela diz “isto é um absurdo: assaltar um banco só por que a atendente lhe tratou mal”) e não celebrado como um ato heróico - tanto que o discurso da filha desemboca no dilema de “devolver ou não o dinheiro”, que por sua vez desemboca no Deus ex machina do final. As pessoas que alí estão no banco são tomadas pelo discurso da filha e pela situação de incômodo de ficar horas numa fila; elas não são agentes da extrema direita que vieram destruir o papel da atendente bancária na sociedade. O ataque à atendente, na verdade, é o estopim do trágico, é a paralisia da classe média frente ao mundo que está aí, pedindo pressa e produção. Acho que o amigo não entendeu a peça. Acho que o absurdo dela (o pepino, o assalto ao banco, a maçã conversar com a mãe, etc) não leva apenas ao riso fácil e ao mero entretenimento (como você propõe quando fala sobre “farsesco caricatural”), mas sim a um estranhamento que (pelo menos na ótica de muitos espectadores que vieram falar comigo) leva posteriormente à reflexão. Respeito sua opinião, Sálvio, até por que somos amigos, mas gostaria imensamente que você assistisse a peça de novo para levar em consideração alguns pontos, que pelo que eu percebo, você não levou. É isto. Grande abraço