Letra escrita em cima de mais uma música do Octávio Camargo.
Beijo de tchau
A geada chegou
Soprando todo o fogo
O vento provocava a sua fala improvisada
A dor
Parando com o verbo o tempo
Congelando fragmentos do meu olhar
Um arranha-céu, os dedos do ar
Uma estrela que apagava num estalo
Eu sinto falta
Do seu silêncio
Você me oferecendo um cigarro
Num destes cafés do centro
Eu te decifrava e você me encontrava
Desfilando o seu andar lentamente
Te solucionava
E você a me entregar todo o mau
Guardado no cofre
Dentro da sua cabeça
Num beijo de tchau.
.
Blues Curitibano
domingo, março 18, 2007
sábado, março 17, 2007
Bem interessante a entrevista que o poeta Rodrigo Garcia Lopes concedeu ao jornal Rascunho em 2004. Acho que a minha visão sobre o que acontece no cenário poético brasileiro hoje é mais ou menos essa:
"Algo que tenho observado em parte da poesia brasileira que tem sido publicada e em antologias recentes é que ela, com felizes exceções, está muito contida, chata, livresca, pedante, literária demais. Tem uma poesia conservadora, que não me interessa. Poetas jovens que escrevem como velhos, como se estivéssemos nos bons tempos do século 19, nos idos áureos da Semana de 22 ou mesmo na era concretista, como se nada tivesse acontecido depois.
Poesia do tipo:
Nas fímbrias dos furibundos vagalhões
Sois a Carrara da pele imaculada
Nos grotões onde repousa minha erma puberdade
Lembro-me de meu pai...
Ou destilações de Bandeira:
Quando eu era menino
Olhava com os olhos tristes para a velha samambaia...
Da janela do quarto, que dava para a Consolação,
e onde eu bebia café
Via o gatinho doente na varanda do vizinho
do lado de um pires vazio.
Como escreveu o poeta William Carlos Williams: “Arte ruim é aquela que não serve no contínuo serviço de limpar a linguagem de todas as fixações sobre usos mortos, mal-cheirosos do passado”. Por outro lado, muitas vezes também tenho a impressão de que poetas diferentes estão escrevendo um mesmo poema. Digo isso em relação a um tipo de poema curto, que muitas vezes são fragmentos de descrições estilizadas (geralmente da janela de um apartamento, com o poeta entre reproduções de Mondrian, tomando chá de camomila, lendo livros chatos e fazendo cara de inteligente). Para mim, esses poemas também escondem, sob uma pretensa “concisão”, uma falta danada do que dizer.
Poemas do tipo (estou inventando agora):
A avenca, à
janela
embora (caligramas),
outra
paisagem pousa
na palavra
glamífera.
Ou ainda:
O gato, quer dizer,
(embora nem tanto)
pisa pé,
ante pé (pétala)
enfim, quase um
triciclo quebrado,
búgulo pistilo, que
edulcorasse
por sobre o vermelho
(como num quadro de
Bacon), mas
a luz do poste
na testa, que,
aprés midi,
talvez, sei lá
etc.
Quando não temos diluições pioradas de um Manoel de Barros (também estou inventando agora), como:
Quando chove a barriga da formiga horizonta a tarde.
A lesma é versada em pedra de jardim.
A perna quando puxa tubarão não tem orelha.
E a manhã estruma na canga do poente.
Acho estes tipos de poesia chatas pra caramba. Concisão, em poesia, não deve ser tanto uma questão de quantidade, mas de qualidade de dizer. Esses “procedimentos”, “fraturas” e personificações geralmente mascaram um pensamento superficial, pobre de vida, sem viço. Afinal, poesia tem que dizer alguma coisa. Talvez no Brasil a própria poesia, enquanto discurso ou anti-discurso, esteja em crise. Talvez por ser um terreno valorativamente mais indefinível e movediço, infelizmente a poesia se presta a todo tipo de picaretagem e bobagem. Na narrativa é mais difícil: fica claro quando o cara sabe ou não contar uma história, que é o objetivo. Veja bem, cada um escreve como bem entender. Só estou dizendo que poemas como esses costumam me proporcionar, como leitor, viagens muito curtas e rasas".
Rodrigo Garcia Lopes
quer mais? http://estudiorealidade.blogspot.com/
sexta-feira, março 16, 2007
Recado para Jaques Brand
Caríssimo
Há um novo poeta na cidade
Do ano de 81 ou 82
Vamos nos reunir
Para acabar com o suprimento
De vodka e cigarros
É necessário um seqüestro
E um cativeiro de livros
É necessário papel e caneta
E um galão de nanquim
É necessário conhecer a função
Do fio vermelho e do azul
Ei, Jaques Brand
Vamos tomar um café ali no centro
15 minutos antes
De desarmarmos
A bomba atômica?
Caríssimo
Há um novo poeta na cidade
Do ano de 81 ou 82
Vamos nos reunir
Para acabar com o suprimento
De vodka e cigarros
É necessário um seqüestro
E um cativeiro de livros
É necessário papel e caneta
E um galão de nanquim
É necessário conhecer a função
Do fio vermelho e do azul
Ei, Jaques Brand
Vamos tomar um café ali no centro
15 minutos antes
De desarmarmos
A bomba atômica?
quarta-feira, março 14, 2007
França no teatro
Confirmado para dia 19 de abril (quinta-feira), às 21hs no mini-auditório do teatro Guaíra, a peça "Um Idiota de Presente", escrita e dirigida por mim. A peça conta com as atrizes Helena Portela e Verônica Rodrigues e terá 50 min de duração (quer dizer, mais ou menos isto). Confira o release do espetáculo:
Um Idiota de Presente
A peça “Um Idiota de Presente” conta a história de duas irmãs enfurnadas num apartamento do centro da cidade. Uma delas, Maria, vive em uma cadeira de rodas por opção, sempre afundada em livros, e a outra, Sônia, tem por obrigação manter a vida da irmã, pagar as contas da casa, fazer compras no supermercado e ainda por cima consertar um relacionamento com um homem que a abandonou grávida.
O conflito se dá quando Maria dá de presente à irmã um exemplar do livro “O Idiota” de Dostoievski. A partir daí uma trama de argumentos livrescos (de fontes que vão do próprio Dostoievski a Nietzsche) é posta em cheque quando Maria tenta convencer Sônia a matar o homem que a deixou. A pergunta que se faz durante toda peça é: Sônia ou o idiota do livro teriam a capacidade de matar?
“Um Idiota de Presente” é um texto-homenagem a um dos grandes escritores do século XIX, Fiódor Dostoievski. Cheio de referências a este autor, a peça, assim como a obra do escritor russo, levanta questões morais relacionadas à culpa, ao assassinato, à morte, e também existenciais relacionadas à solidão e ao abandono. Neste caso, a discussão principal é: até que ponto, conteúdos mal interpretados podem ser nocivos ao ser humano?
O conflito se dá quando Maria dá de presente à irmã um exemplar do livro “O Idiota” de Dostoievski. A partir daí uma trama de argumentos livrescos (de fontes que vão do próprio Dostoievski a Nietzsche) é posta em cheque quando Maria tenta convencer Sônia a matar o homem que a deixou. A pergunta que se faz durante toda peça é: Sônia ou o idiota do livro teriam a capacidade de matar?
“Um Idiota de Presente” é um texto-homenagem a um dos grandes escritores do século XIX, Fiódor Dostoievski. Cheio de referências a este autor, a peça, assim como a obra do escritor russo, levanta questões morais relacionadas à culpa, ao assassinato, à morte, e também existenciais relacionadas à solidão e ao abandono. Neste caso, a discussão principal é: até que ponto, conteúdos mal interpretados podem ser nocivos ao ser humano?
terça-feira, março 13, 2007
feminista
A água acabando no mundo
E eu pensando em matar a sede
Do sono a apertar as pálpebras
E eu pensando na mulher
Que poderia estar ao meu lado
Sonolenta e linda
Longe, bem longe da matilha sangrenta
De vaginas percorrendo a minha
Neurose-carnal-maníaco-depressiva:
São elas, com suas presas
Da marca Louis Vuitton
Mulheres agonizando solidão
Em suas caricaturas de beleza
Rastreando a grama do quintal
Da revista “casa e jardim”
Com sua sensibilidade de plástico
Sua falsa alma babaca e “sensível”
Seu hálito de cigarrilha
E sua resignação doméstica
Adaptado aos moldes
da publicidade contemporânea
Como radiações de um apocalipse
Rostos de manequins usados
Olhos de bonecas usadas
Como moeda de troca
Barbies envelhecendo
Em suas fantasias temáticas
Imagino uma só mulher
Que dormiria ao meu lado
Depois de um dia intenso
Vivido apenas por pessoas intensas
E não por impressoras de felicidade
Imagino uma mulher
Que finalmente decrete
O que é belo ou não
Em nossas vidas
A água acabando no mundo
E eu pensando em matar a sede
Do sono a apertar as pálpebras
E eu pensando na mulher
Que poderia estar ao meu lado
Sonolenta e linda
Longe, bem longe da matilha sangrenta
De vaginas percorrendo a minha
Neurose-carnal-maníaco-depressiva:
São elas, com suas presas
Da marca Louis Vuitton
Mulheres agonizando solidão
Em suas caricaturas de beleza
Rastreando a grama do quintal
Da revista “casa e jardim”
Com sua sensibilidade de plástico
Sua falsa alma babaca e “sensível”
Seu hálito de cigarrilha
E sua resignação doméstica
Adaptado aos moldes
da publicidade contemporânea
Como radiações de um apocalipse
Rostos de manequins usados
Olhos de bonecas usadas
Como moeda de troca
Barbies envelhecendo
Em suas fantasias temáticas
Imagino uma só mulher
Que dormiria ao meu lado
Depois de um dia intenso
Vivido apenas por pessoas intensas
E não por impressoras de felicidade
Imagino uma mulher
Que finalmente decrete
O que é belo ou não
Em nossas vidas
sexta-feira, março 09, 2007
terça-feira, março 06, 2007
Minha primeira parceria com a Claudete.
Ela lá (para a atriz Lala Schneider)
Ela se foi dormindo
Sem saber da sua morte vindo
Carregando os nossos sonhos
Ela dormiu sem saber que morria
Se entregou ao sono
Que a noite trouxe de consolo
Com a mesa de jantar
Comentou que o céu estrelava
Falar sobre estrela é difícil
Como é difícil o amor
Bate uma vontade irresistível
De juntar tanto afeto à dor
Mas um coração sempre sorrindo
Mesmo numa oração de luto
É a pulsação de uma platéia
Que de longe vê o azul do mundo
Lala se foi dormindo
Sem saber da sua morte e vida
Carregando os nossos sonhos
Ela dormiu sem saber que nascia
Alexandre França e Claudete Pereira Jorge
Ela lá (para a atriz Lala Schneider)
Ela se foi dormindo
Sem saber da sua morte vindo
Carregando os nossos sonhos
Ela dormiu sem saber que morria
Se entregou ao sono
Que a noite trouxe de consolo
Com a mesa de jantar
Comentou que o céu estrelava
Falar sobre estrela é difícil
Como é difícil o amor
Bate uma vontade irresistível
De juntar tanto afeto à dor
Mas um coração sempre sorrindo
Mesmo numa oração de luto
É a pulsação de uma platéia
Que de longe vê o azul do mundo
Lala se foi dormindo
Sem saber da sua morte e vida
Carregando os nossos sonhos
Ela dormiu sem saber que nascia
Alexandre França e Claudete Pereira Jorge
segunda-feira, março 05, 2007
Contratempo
Edições.
A idéia que mais me acalma:
Lançar uma nova edição
Dessa mesma velha alma.
Rayanne
Quer mais? Então entre no http://meucontratempo.blogspot.com/
Edições.
A idéia que mais me acalma:
Lançar uma nova edição
Dessa mesma velha alma.
Rayanne
Quer mais? Então entre no http://meucontratempo.blogspot.com/
domingo, março 04, 2007
Acordei um pouco violento
Transbordo a espuma dos assuntos
Fazendo a cabeça com cerveja quente
Amargamente importada
Em promoção na loja dos vícios
Pequeno-burgueses de sempre
Aqui, mandando socialmente
Para o porão do descrédito
Todas as partituras das canções
Que eu não toquei
Que não beijei e não vivi
Até que a morte os separe
Com o Lombardi de fundo
Ofertando um televisor de 24 polegadas
Ou a possibilidade imbecil
De ser milionário ou a possibilidade remota
De felicidade ou a possibilidade prática
De mudar o canal, de destruir a televisão
De montar uma coleção de discos de vinil
E de mandar o mundo calar a boca
Com um tiro de escopeta na tela
Transbordo a espuma dos assuntos
Fazendo a cabeça com cerveja quente
Amargamente importada
Em promoção na loja dos vícios
Pequeno-burgueses de sempre
Aqui, mandando socialmente
Para o porão do descrédito
Todas as partituras das canções
Que eu não toquei
Que não beijei e não vivi
Até que a morte os separe
Com o Lombardi de fundo
Ofertando um televisor de 24 polegadas
Ou a possibilidade imbecil
De ser milionário ou a possibilidade remota
De felicidade ou a possibilidade prática
De mudar o canal, de destruir a televisão
De montar uma coleção de discos de vinil
E de mandar o mundo calar a boca
Com um tiro de escopeta na tela
sábado, março 03, 2007
quinta-feira, março 01, 2007
E por falar em show do Chico em abril, uma amostra do calibre poético do grande cancioneiro.
Tempo e Artista
Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela
Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso
Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta
Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito
No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito
Chico Buarque
Tempo e Artista
Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela
Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso
Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta
Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito
No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito
Chico Buarque
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
...e ontem no bar do Torto
Uma poesia em parceria com o mais novo parceiro, o Língua. Thadeu W também entrou na brincadeira.
Promoção e pramocinha
Não esqueça do Quartzolit
Lembre-se daquilo que te impossibilite
Não dê uma de socialite
Quando você é uma socialaite
Eu tive um insight
Ao acender o pavio da dinamite
O TNT tava em promoção nas Casas Bahia
E você vai explodir antes de mim, vadia
Quero ver você na esquina
Toda briga de amor
Lembre-se daquilo que te impossibilite
Não dê uma de socialite
Quando você é uma socialaite
Eu tive um insight
Ao acender o pavio da dinamite
O TNT tava em promoção nas Casas Bahia
E você vai explodir antes de mim, vadia
Quero ver você na esquina
Toda briga de amor
É uma boa razão para uma chacina
França, Língua e Thadeu
sábado, fevereiro 24, 2007
para chamar a atenção (versão final)
Não sei se foi para chamar a atenção
você com uma margarida de plástico
com aquele enorme olho amarelo
chapado com a cabeça caída para
o lado.
não sei se foi para chamar a atenção
um zippo sem gás, com a pedra gasta
uma triste metáfora de algo
que já não é mais
tipo uma panela vazia em fogo baixo.
não sei se foi para chamar a atenção
mas pelo menos na minha frente
você esqueceu de roer as unhas
e de contar moedas de cinco centavos
na iminência de dividir a conta
em duas partes exatamente iguais.
Não sei se foi para chamar a atenção
mas você deixou largada na cadeira
a sua bolsa
com uma foto 3x4 minha
no fundo falso da carteira.
Não sei se foi para chamar a atenção
você com uma margarida de plástico
com aquele enorme olho amarelo
chapado com a cabeça caída para
o lado.
não sei se foi para chamar a atenção
um zippo sem gás, com a pedra gasta
uma triste metáfora de algo
que já não é mais
tipo uma panela vazia em fogo baixo.
não sei se foi para chamar a atenção
mas pelo menos na minha frente
você esqueceu de roer as unhas
e de contar moedas de cinco centavos
na iminência de dividir a conta
em duas partes exatamente iguais.
Não sei se foi para chamar a atenção
mas você deixou largada na cadeira
a sua bolsa
com uma foto 3x4 minha
no fundo falso da carteira.
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Porta-retrato
Fósforo aceso na madrugada
Uma carta de adeus queimada
Calada mais de uma vez
Por dia
Flores perdendo o tempo
De serem dadas, envelhecendo
Nas cinzas que a tarde fez
Da vida
Pétala a pétala, conto todas as pétalas
Arrancadas da rosa que eu guardei
No armário
Uma lembrança do mar de espinhos
Que a chuva tempestuosa da despedida detém
Num raio
O apartamento que abandonei
Toda a mobília que não usei
Como sumir do porta-retratos
Que você guarda na sua mesa
Mas o dia amanheceu
O dia amanheceu
Amanhecer o dia me faz muito bem.
Octávio Camargo, Alexandre França e Thadeu Wojciechowski
Fósforo aceso na madrugada
Uma carta de adeus queimada
Calada mais de uma vez
Por dia
Flores perdendo o tempo
De serem dadas, envelhecendo
Nas cinzas que a tarde fez
Da vida
Pétala a pétala, conto todas as pétalas
Arrancadas da rosa que eu guardei
No armário
Uma lembrança do mar de espinhos
Que a chuva tempestuosa da despedida detém
Num raio
O apartamento que abandonei
Toda a mobília que não usei
Como sumir do porta-retratos
Que você guarda na sua mesa
Mas o dia amanheceu
O dia amanheceu
Amanhecer o dia me faz muito bem.
Octávio Camargo, Alexandre França e Thadeu Wojciechowski
terça-feira, fevereiro 13, 2007
meio-dia
Sono
Ao meio-dia
Ninguém vai me acordar
Nem balde de água fria
Ao meio-dia
Ninguém vai me ouvir roncar
Nem toda a bibliografia
Do meio-dia
Conseguiu me explicar
O inverno de Curitiba
Ao meio-dia
Um senhor tentou matar
O tédio com aspirina
Ao meio-dia
Minha voz sumiu no ar
De toda a coreografia
Do meio-dia
Num segundo de amar
Daquela anatomia
Do meio-dia
Uma chuva de chorar
Vestia de preto o dia
Ao meio-dia
Ninguém vai me acordar
Sono
Ao meio-dia
Ninguém vai me acordar
Nem balde de água fria
Ao meio-dia
Ninguém vai me ouvir roncar
Nem toda a bibliografia
Do meio-dia
Conseguiu me explicar
O inverno de Curitiba
Ao meio-dia
Um senhor tentou matar
O tédio com aspirina
Ao meio-dia
Minha voz sumiu no ar
De toda a coreografia
Do meio-dia
Num segundo de amar
Daquela anatomia
Do meio-dia
Uma chuva de chorar
Vestia de preto o dia
Ao meio-dia
Ninguém vai me acordar
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
terça-feira, fevereiro 06, 2007
Porão Loquax - Rodrigo Madeira
IMPERDÍVEL
Terça, dia 13 de fevereiro
Porão Loquax com Rodrigo Madeira, o vencedor do Concurso de Poesias Helena Kolody, categoria Paraná. Rodrigo estará apresentando, no Wonka Bar (que fica na Trajano Reis 326) os poemas que compõe o próximo lançamento Sol sem Pálpebras, com lançamento previsto para abril.
entrada R$1,99
entrada R$1,99
Às vezes o tempo dá umas boas risadas da nossa cara. Digo isto pelo imenso prazer de escrever sobre o livro do poeta Rodrigo Madeira. Poxa tempo, eu é que deveria pedir ao Rodrigo para escrever qualquer impressão sobre algum poema meu! Já que é ele quem faz a poesia que pode nascer “menino Jesus” ou “bebê de rosemary”. Ele que, ainda criança, matou o Leminski no bar Stuart, numa tarde cinzenta desta cidade de chumbo chamada Curitiba. Ele que entende tão bem o gosto das damas da noite na boate Gato Preto, sentindo um sabor ácido de bateria usada na ponta da língua. Ele que fala sobre um amor que nunca ouvirá as suas palavras, mas que ainda sim subsiste “no fundo do peito, no canto da razão, no canteiro de pêlos”. Digo isto sem exagero nenhum e mais: o ritmo cortado e denso dos poemas parece sussurrar significados em minha cabeça, como se aqueles versos fossem as últimas palavras de um doente terminal, de alguma tarde fria da nossa tímida terra “e muitos de vós nunca se abriram, dominicais, em programas de auditório”. Há poemas ainda que provocam uma espécie de “ressaca moral”, um soco no estômago rompendo artérias de realidade, como no poema “favela”: “cedinho, três cadáveres assistem à televisão”.É por estas e por muitas outras (que o leitor terá o prazer de conferir) que o tempo é mesmo um sacana: no final do livro, Rodrigo ainda dá uma lição aos muitos candidatos a gênio da literatura, que infestam o intestino da nossa cultura: “eu não escrevo para ficar, meu amor, escrevo para ir embora”. O tempo, Rodrigo, que agora ri da nossa cara, sem dúvida o entende.
sábado, fevereiro 03, 2007
água de beber
O alcoólatra é uma máquina
De desiludir a si mesmo
E toda droga mais ou menos
Que atravessa a sua vida
É uma luz de brilho negro
Que ofusca a sua mania
De beber e chorar pra dentro
De olhar e acompanhar o óbvio
De dormir e sonhar com medo
Da sobriedade, este feto
Encolhido no peito
Entupido de não-me-toques
O alcoólatra é uma máquina
De desiludir a si mesmo
E toda droga mais ou menos
Que atravessa a sua vida
É uma luz de brilho negro
Que ofusca a sua mania
De beber e chorar pra dentro
De olhar e acompanhar o óbvio
De dormir e sonhar com medo
Da sobriedade, este feto
Encolhido no peito
Entupido de não-me-toques
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Sim, o Vinícius era mestre

O homem que diz "dou" não dá

chega uma hora que esse tipo de música faz bastante a diferença quando se quer entender certas pessoas.
Canto de Ossanha
Vinicius de Moraes / Baden Powell
O homem que diz "dou" não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz "vou" não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz "sou" não é
Porque quem é mesmo é "não sou"
O homem que diz "estou" não está
Porque ninguém está quando quer
quarta-feira, janeiro 24, 2007
Improviso

Ela vem solando uma
Guitarra Stratosonic Gianini
Eu já com uns quarenta anos
Ela ainda com os cabelos em movimento
Eu bebendo um rabo-de-galo
À beira-mar do asfalto
Ela me estendendo a mão
Sussurrando em alto e bom som
“você me perdoa?”
Eu , já sem esperança , entrego
Cerimoniosamente, o meu último
Bem de valor
Uma Gibson Les Paul
Com a corda mi estourada

Ela vem solando uma
Guitarra Stratosonic Gianini
Eu já com uns quarenta anos
Ela ainda com os cabelos em movimento
Eu bebendo um rabo-de-galo
À beira-mar do asfalto
Ela me estendendo a mão
Sussurrando em alto e bom som
“você me perdoa?”
Eu , já sem esperança , entrego
Cerimoniosamente, o meu último
Bem de valor
Uma Gibson Les Paul
Com a corda mi estourada
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