.

terça-feira, janeiro 23, 2007


Voltando ao tempo das armas brancas (depois de ler a capa de uma tribuna e lembrar daquela cena do corredor de sangue)

Um cheiro de borracha queimada
E enxofre num quarto pós-morte
O pai declara num último gole
De saliva e lábios moles:
“você não é profunda só
por que o seu mapa astral disse”
“você é incapaz de me entender”
Retruca a filha retorcendo
A velha tramontina enferrujada
Na barriga do velho bêbado
Os paramédicos do inferno
Aplaudem o espocar de uma
Chandon de sangue, enquanto
As carpideiras recolhem os trocados
De algum circo de horrores

quinta-feira, janeiro 18, 2007


foto: Mert Alas e Marcus Diggott

Natalie Portman

até pensei em dar um beijo na sua foto
como se fosse a sua testa, ou o pé
de uma santa padroeira de
alguma cidade seca e deserta
onde a coca-cola é vendida a dez reais a lata
e a água, quando vem, deságua através de reza
pensei numa barra de chocolate com
as frutas cítricas arrancadas e o açúcar
cristalizado derretendo na ponta dos meus dedos
pensei em cortar a luz da cidade
para que a procissão de velas nos apartamentos
soprasse a meia-luz que a sua imagem merece
entoando velhas cantigas de ninar
parodiando com o seu nome, com o seu corpo
todo o verso que falasse a respeito de “sonhar com os anjos”
por que os barulhos de pratos raspados, copos cica
e toalhas no piso do banheiro me irritam a medida
que sinto na temperatura elevada do meu corpo
a escuridão que a falta de embriagues provoca
em um homem que sabe, por acordar
sempre após ao meio-dia,
que a beleza de uma mulher só é explícita
quando a maquiagem está nitidamente borrada.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Paulo de Tharso

Na primeira viagem que fiz pra sampa com o Leprevost nós conhecemos um dos caras mais figuras de todos os tempos: o Paulo de Tharso, grande xadrinista e vocalista de rock. Descobri no blog do Mario Borttoloto que o cara, além de ser uma grande figura da Roosevelt, é poeta também e dos bons. Grande Paulo.

Minha Alma Pequena

Eu só queria ficar em paz.
Deitado, sob a sombra da árvore que eu não plantei.
Acariciando os cabelos da cabeça do filho que eu não fiz, e que estaria repousando sobre o meu peito.
Eu só queria dormir pra sempre.
À beira de um riacho, sob a sombra de um pessegueiro.
Sonhar com a Abissínia, mas voltar ao Egito de onde eu nunca deveria ter saído.
Eu só queria fazer uma revolução.
E matar todos os opressores da Palestina, de Israel, dos E.U.A, e matar os caras encapuzados da K.K.K
Eu queria traficar armas e drogas para abastecer de dólares e Euros todas as revoluções da África e do Cone Sul.
Eu queria ter ido para a Nicarágua, trabalhar nos campos e fazer guerrilha, quando aquela puta francesa me abandonou só, no Vidigal. Tinha um anúncio no jornal, pedindo voluntários. Mas eu tinha um show na semana seguinte, e não fui.
Eu queria ficar quieto, em um canto, chorando baixinho, escutando Cartola, bebendo até morrer.
Aprender a falar com os animais, como fazia Yan, um húngaro que foi caseiro no sítio de minha avó. Quando a tarde despencava, ele estalava a língua e balbuciava qualquer coisa, fazendo com que as galinhas voltassem para o poleiro.
Depois, eu evoluiria e aprenderia a falar com as plantas e com as pedras.
E depois.... Eu juro, me calaria para sempre.

Eu só queria um pouco de alegria
E continuar desafiando a polícia e apedrejar suas viaturas, como fiz outro dia. Só pra me lembrar.
E ir pra Havana beber rum ordinário e pedir ao Pedro Gutiérrez que me apresentasse àquelas mulatas, que bebem e trepam o tempo todo. Sem culpa.
Eu só queria um pouco de poesia negra num prato de Cachopa.

E não ter que me levantar todos os dias.
Pra não ter que encarar o sol podre e tentar me convencer de que tudo vale a pena.
Não vale! E minha alma não é pequena. Meu coração é que está apertado.
E não ler nunca mais os jornais, para constatar o que eu já sei desde meus 10 anos.
De que o mundo não tem jeito. De que tudo é uma brincadeira sem graça do criador.
Eu só queria que deixassem em paz, essa Terra. Essa puta com olhos abstratos, que continua germinando plantas e flores delicadas.

Paulo de Tharso

segunda-feira, janeiro 15, 2007

voltando pra Curitiba

então guria
é exatamente esta impressão:
delicado como um cigarro
aceso na garoa
ou como a Bruna Beber
rasgando o sulfite
ao escrever com uma bic
sem tinta

um chaveiro roubado do Mickey
perdido num porta moedas
um pedaço de bolacha Maria
boiando no leite desnatado

é como dar um tchau
pra alguém que não o reconheceu
é como matar uma mosca
com a ponta de uma tachinha
é igual a falar "eu te amo"
em troca de alguns trocados
a mais.

terça-feira, janeiro 09, 2007

eu velho

Me imagino um velhinho
sozinho decorando pequenos gracejos
que eu falaria na porta de um destes
cafés do centro.
Com uma dispensa cheia de velhas bebidas
todas elas me deixando ainda mais velho
com uma sala de estar vazia
a me deixar ainda mais só
como um objeto de decoração ultrapassado.
me imagino um velhinho
contando a idade como se fosse pontos
de uma competição onde se ganha
aquele que morre mais cedo.
citação do mês

"Não precisamos de gênio, o gênio está morto. Precisamos de mãos fortes, de mentes dispostas a desistir do fantasma e criar carne".

Henry Miller (Trópico de câncer)

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Último poema do ano (para Meilily)

Meu olhar de melancolia
Disparou com o óleo das lágrimas
Pelas paredes do largo da ordem
E ouviu as reclamações
Dos bêbados escorados nos
Tijolos mofados da pele
De um homem a declamar poemas
Meu olhar de melancolia
Borrou a maquiagem na
Garoa fina e pesada
Que o chumbo do céu nos provoca
E me deixou com um vazio no
Estômago quando sem grana
Pedi um pedaço de um
Prensado para um destes hippies
Que se dizia ator de teatro
Antes de ser por ideologia
Artista de rua
Meu olhar de melancolia
Deu tchau com a manga da blusa
Para o seu cheiro, para a sua pele
Para a sua voz, para o seu hálito
Quando lembrei que não era mais meu
O seu olhar melancólico

O meu olhar de melancolia
Fechou os seus olhos

quinta-feira, dezembro 21, 2006

pelos velhos tempos

Ok,
foi como aquele dia
em que o recepcionista do lascivo
e gemedor hotel Roma me ofereceu
por educação uma batata Pringles
e eu aceitei mesmo sabendo da bombástica
mistura entre o espinafre e o sabor churrasco.
Sem dúvida,
se parece muito com o dia
em que manchávamos de vinho tinto
os lençóis do hotel Bourbon, saindo
sem pagar e muitas vezes
sem as roupas íntimas.
Acha que eu não lembro
quando você usou o sangue da sua menstruação
para pintar “eu estive aqui” no espelho quebrado
da sala vip de uns destes lugares
iluminados com luz negra da cruz machado
acha que eu não sei
que hoje em dia o seu quarto
é o banco inteiramente descascado
da triste e solitária praça Tiradentes?

sábado, dezembro 16, 2006


Já está no ar o meu site www.alexandrefranca.com.br . Lá vocês poderão conferir as novidades sobre shows e eventos relacionados a minha pessoa. Lá também vocês receberão as informações sobre como comprar o cd "a solidão não mata, dá a idéia". Entre e divulgue para os amigos.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Alucinações


Um alucinado

Observando a alternância entre

O verde e o vermelho do semáforo

Com o imã da retina puxava uma só

Lágrima do seu olho esquerdo

E costurava com saliva

A pelugem macia que sobrava do pescoço

E brincava de par ou impar na superfície úmida

Do seu sexo e arrancava um sorriso rouco

Do seu minuto e meio de descanso


Um alucinado

Jogando paciência no nível expert

No intervalo que existe entre

O início do turno da manhã de uma empresa

E o horário de almoço.

Nina Simone

terça-feira, dezembro 05, 2006

teclando

Em minhas mãos
Minha mãe me oferece uma bomba
Da confeitaria das famílias
E me oferece um passeio a pé
Pela rua XV
Entre os ciganos da meia-noite
E os hippies com suas poesias
Contendo boas intenções
Em minhas mãos
As mãos de uma velhinha
Nas mãos de um velhinho
No banco da praça Tiradentes
Num dia claro de geada
Exala um suor antigo
Da temporada que nunca chega
Em minhas mãos
A garçonete do instinto Ritz
Toma um gole do café do cliente
E eu sinto o sabor da sua saliva
O sabor da sua maldade
O sabor da sua demissão
Em minhas mãos
O expresso mastiga a cabeça de um ciclista
E são as minhas mãos
Que retiram aquela cabeça
Do estômago da vermelha máquina de guerra
Usada como transporte
Em minhas mãos
Alguém chora baixinho
A incontrolável vontade
De beber um trago num chinês
Do centro
E eu sinto pontadas em minhas mãos
Pontadas no estômago
Pontadas de fúria
Pontadas de lágrimas
Como se eu sentisse em minhas mãos
A tachinha que alguém colocou
Na cadeira do isolado da escola
Como seu eu sentisse em minhas mãos
O congelamento de um membro
Quase necrosado
Como se eu sentisse em minhas mãos
A sensibilidade que há nas pétalas
Quando elas acenam com o vento
Para o outono dos meus olhos
Luana Vignon

E a caneta bic da Luana Vignon continua afiadíssima. Só tenho uma coisa a dizer: você é foda, guria.

ABRUTALHADOS

Chove torrencialmente
mas um cara tira cuidadosamente o lixo pra fora
e um outro vem do inferno
pra acender seu cigarro fuleiro na mesa mais triste do boteco.
enquanto isso há feridas que nunca cicatrizam
como um moleque que caminha incólume sob a chuva.
Há dias em que uma simples capa
não dá conta de esconder as nossas lágrimas.
Há dias em que eu sou apenas uma garota solitária
sentada na única mesa de um bar
assistindo idiotamente a um clipe do Bee Gees na TV.
Quase sempre a Rua Augusta é um lugar para as carapaças vazias
porque a vida é muita mais feia sobre os travesseiros.
A vida sangra
a vida verte inexoravelmente seu mijo quente sobre as nossas cabeças.
Na maior parte do tempo
eu sou aquela moça que ninguém nota
aquela uma
sozinha
hostil
embriagada
sonhando pontilhões que nunca se acabam.
Há dias em que a faixa branca no asfalto
é só uma armadilha.
Quase sempre somos atropelados.
Na maior parte do tempo
a gente segue carregando no bolso aquela última baga
a ponta de um infinito que não faz o menor sentido.

Luana Vignon

segunda-feira, dezembro 04, 2006


Meu amigo Douglas Kim está com um novo blog (nem tão novo assim, mas eu, com a minha lentidão, descobri só agora) que vale a pena ser visitado pela precisão dos posts (que já existia no blog anterior). Fora que ele escreveu uma coisa sobre mim que me deixou vermelho, no bom sentido da expressão. Valeu grande Kim.

"Um ser comum, desses que compra pão na padaria, deve ter parado em Drummond. Um ser um pouco menos comum, desses que come pão na padaria, deve ter parado em Leminski e Ana Cristina César. O ser incomum, desses que faz o próprio pão, deve apreciar o Alexandre França".

Douglas Kim

sábado, dezembro 02, 2006

enquanto

enquanto num velho toca-fitas
alguém coloca trouble man
do Marvin Gaye pra tocar
enquanto na via rápida
os carros, os pedestres e a garoa
fogem da polícia
enquanto num teatro do centro
um ator morre aplaudido
em cena
enquanto a minha pincher
de estimação se desespera
com a sua completa falta de visão
enquanto o bar da minha rua
ameaça fechar as portas
para o feriado
enquanto um casal de apaixonados
se separa com uma proposta
de casamento
enquanto alguém queima a língua
com a caneca de café fervendo
enquanto alguém queima a sobrancelha
acendendo um cigarro no fogão
enquanto alguém toma
o primeiro gole de cerveja do dia
do mês, do ano, da vida
enquanto eu digito um trabalho
de mil laudas que não é meu
enquanto eu digito imagens ao léu
eu paro cinco minutos
cinco minutos ao seu lado
sem querer
sem nem ao menos saber
quem você é

terça-feira, novembro 28, 2006

desolador e esclarecedor (versão final)

É desolador e esclarecedor
O cachorro roubando do velho
O resto da barra de cereal
A vontade de misturar bebidas
Para dizer umas verdades
A corrida de fórmula 1
Sem nenhum grave acidente
É desolador e esclarecedor
O dente roxo de vinho tinto
O dedo amarelo de nicotina
O vermelho daquilo
Que não é sangue
O azul daquilo
Que não é céu
O verde daquilo
Que não é mato.
É desolador e esclarecedor
O lacre do iogurte
Não abrir com um simples toque
Uma droga de um desenho animado
Não conter violência por ser educativo
Assistir esta droga
Só para conhecer o final
É desolador e esclarecedor
O resultado da loteria
O resultado de uma pesquisa no google
Sobre você mesmo
O resultado de um teste de gravidez
O resultado de um exame de vista
É desolador e esclarecedor
Reencontrar o amigo de infância
Que um dia o traiu
Reencontrar o primeiro amor
Que não sabe quem você é
E nunca irá saber
Reencontrar o primeiro livro
Que você leu na vida
O primeiro verso que mudou a sua vida
Mas que agora, estranhamente
Não faz tanta diferença
É desolador e esclarecedor
A tendinite do pianista
A amnésia de um poeta
O transtorno obsessivo
De conferir se a porta do banheiro
Esta realmente fechada
O prato cheio de uma anoréxica
É desolador e esclarecedor
Uma grávida chorando
Na fila do supermercado
Alguém chamando pelo pai
No meio de uma festa junkie
Uma senhora mostrando a foto dos netos
Hoje com mais de trinta anos.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Paris, Texas

revendo o clássico do Wim Wenders, me veio uma idéia para um poema. Havia esquecido como a Nastassja Kinski é bonita. Havia esquecido do rítmo desolador do roteiro. têm coisas que devem ser revisitadas todo ano.


atropelamento
(para Sam Shepard)

da janela uma luneta:
alguém procura uma lua,
uma estrela, um brilho
qualquer no quarto ou na rua.
na canaleta do expresso
um guri de bicicleta
abre os seus braços e grita
"sem as mãos" durante um metro.
ele me atropela ao ser
atropelado e eu durmo
acordado sem querer
e o cara da luneta
que me queria pelado
chora comigo um choro
bêbado e desgovernado.

sábado, novembro 25, 2006

Lindsey Rocha

E ontem tive o prazer de ouvir na voz da própria Lindsey os poemas do seu livro "Nervuras do silêncio". Muito bom mesmo. Sem dúvida, este é um dos grandes livros de poemas da cidade. Só que o que eu mais gostei no livro foi a dedicatória completamente poética que a Lindsey fez pra mim. Valeu guria! Saiba que você ganhou um amigo.

Dedicatória da Lindsey

A você,
Alexandre,
pelo silêncio precioso
que permeia as novas
amizades.
beijos
Lindsey Rocha
24/11/06

quinta-feira, novembro 23, 2006

Imperdível

Legião Urbana

Da sacada vejo quieto
Um bando de adolescentes
Com um violão tocando alto
Coisas da Legião Urbana
E daqui eu me pergunto
Sobre a condição humana
Exercícios de linguagem
Idéias pra quem reclama
Será que eles me entendem
Sussurrando um mantra sujo
Rogando praga no escuro
Será que eles entendem que
Estou parado bem no fluxo
De pessoas inocentes
Atirando
para todos os lados?

Dezoito Zero Um no Facebook

Arquivo do blog