Último poema do ano (para Meilily)
Meu olhar de melancolia
Disparou com o óleo das lágrimas
Pelas paredes do largo da ordem
E ouviu as reclamações
Dos bêbados escorados nos
Tijolos mofados da pele
De um homem a declamar poemas
Meu olhar de melancolia
Borrou a maquiagem na
Garoa fina e pesada
Que o chumbo do céu nos provoca
E me deixou com um vazio no
Estômago quando sem grana
Pedi um pedaço de um
Prensado para um destes hippies
Que se dizia ator de teatro
Antes de ser por ideologia
Artista de rua
Meu olhar de melancolia
Deu tchau com a manga da blusa
Para o seu cheiro, para a sua pele
Para a sua voz, para o seu hálito
Quando lembrei que não era mais meu
O seu olhar melancólico
O meu olhar de melancolia
Fechou os seus olhos
.
Blues Curitibano
quinta-feira, dezembro 28, 2006
quinta-feira, dezembro 21, 2006
pelos velhos tempos
Ok,
foi como aquele dia
em que o recepcionista do lascivo
e gemedor hotel Roma me ofereceu
por educação uma batata Pringles
e eu aceitei mesmo sabendo da bombástica
mistura entre o espinafre e o sabor churrasco.
Sem dúvida,
se parece muito com o dia
em que manchávamos de vinho tinto
os lençóis do hotel Bourbon, saindo
sem pagar e muitas vezes
sem as roupas íntimas.
Acha que eu não lembro
quando você usou o sangue da sua menstruação
para pintar “eu estive aqui” no espelho quebrado
da sala vip de uns destes lugares
iluminados com luz negra da cruz machado
acha que eu não sei
que hoje em dia o seu quarto
é o banco inteiramente descascado
da triste e solitária praça Tiradentes?
Ok,
foi como aquele dia
em que o recepcionista do lascivo
e gemedor hotel Roma me ofereceu
por educação uma batata Pringles
e eu aceitei mesmo sabendo da bombástica
mistura entre o espinafre e o sabor churrasco.
Sem dúvida,
se parece muito com o dia
em que manchávamos de vinho tinto
os lençóis do hotel Bourbon, saindo
sem pagar e muitas vezes
sem as roupas íntimas.
Acha que eu não lembro
quando você usou o sangue da sua menstruação
para pintar “eu estive aqui” no espelho quebrado
da sala vip de uns destes lugares
iluminados com luz negra da cruz machado
acha que eu não sei
que hoje em dia o seu quarto
é o banco inteiramente descascado
da triste e solitária praça Tiradentes?
sábado, dezembro 16, 2006
Já está no ar o meu site www.alexandrefranca.com.br . Lá vocês poderão conferir as novidades sobre shows e eventos relacionados a minha pessoa. Lá também vocês receberão as informações sobre como comprar o cd "a solidão não mata, dá a idéia". Entre e divulgue para os amigos.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Alucinações
Um alucinado
Observando a alternância entre
O verde e o vermelho do semáforo
Com o imã da retina puxava uma só
Lágrima do seu olho esquerdo
E costurava com saliva
A pelugem macia que sobrava do pescoço
E brincava de par ou impar na superfície úmida
Do seu sexo e arrancava um sorriso rouco
Do seu minuto e meio de descanso
Um alucinado
Jogando paciência no nível expert
No intervalo que existe entre
O início do turno da manhã de uma empresa
E o horário de almoço.
terça-feira, dezembro 05, 2006
teclando
Em minhas mãos
Minha mãe me oferece uma bomba
Da confeitaria das famílias
E me oferece um passeio a pé
Pela rua XV
Entre os ciganos da meia-noite
E os hippies com suas poesias
Contendo boas intenções
Em minhas mãos
As mãos de uma velhinha
Nas mãos de um velhinho
No banco da praça Tiradentes
Num dia claro de geada
Exala um suor antigo
Da temporada que nunca chega
Em minhas mãos
A garçonete do instinto Ritz
Toma um gole do café do cliente
E eu sinto o sabor da sua saliva
O sabor da sua maldade
O sabor da sua demissão
Em minhas mãos
O expresso mastiga a cabeça de um ciclista
E são as minhas mãos
Que retiram aquela cabeça
Do estômago da vermelha máquina de guerra
Usada como transporte
Em minhas mãos
Alguém chora baixinho
A incontrolável vontade
De beber um trago num chinês
Do centro
E eu sinto pontadas em minhas mãos
Pontadas no estômago
Pontadas de fúria
Pontadas de lágrimas
Como se eu sentisse em minhas mãos
A tachinha que alguém colocou
Na cadeira do isolado da escola
Como seu eu sentisse em minhas mãos
O congelamento de um membro
Quase necrosado
Como se eu sentisse em minhas mãos
A sensibilidade que há nas pétalas
Quando elas acenam com o vento
Para o outono dos meus olhos
Em minhas mãos
Minha mãe me oferece uma bomba
Da confeitaria das famílias
E me oferece um passeio a pé
Pela rua XV
Entre os ciganos da meia-noite
E os hippies com suas poesias
Contendo boas intenções
Em minhas mãos
As mãos de uma velhinha
Nas mãos de um velhinho
No banco da praça Tiradentes
Num dia claro de geada
Exala um suor antigo
Da temporada que nunca chega
Em minhas mãos
A garçonete do instinto Ritz
Toma um gole do café do cliente
E eu sinto o sabor da sua saliva
O sabor da sua maldade
O sabor da sua demissão
Em minhas mãos
O expresso mastiga a cabeça de um ciclista
E são as minhas mãos
Que retiram aquela cabeça
Do estômago da vermelha máquina de guerra
Usada como transporte
Em minhas mãos
Alguém chora baixinho
A incontrolável vontade
De beber um trago num chinês
Do centro
E eu sinto pontadas em minhas mãos
Pontadas no estômago
Pontadas de fúria
Pontadas de lágrimas
Como se eu sentisse em minhas mãos
A tachinha que alguém colocou
Na cadeira do isolado da escola
Como seu eu sentisse em minhas mãos
O congelamento de um membro
Quase necrosado
Como se eu sentisse em minhas mãos
A sensibilidade que há nas pétalas
Quando elas acenam com o vento
Para o outono dos meus olhos
Luana Vignon
E a caneta bic da Luana Vignon continua afiadíssima. Só tenho uma coisa a dizer: você é foda, guria.
ABRUTALHADOS
Chove torrencialmente
mas um cara tira cuidadosamente o lixo pra fora
e um outro vem do inferno
pra acender seu cigarro fuleiro na mesa mais triste do boteco.
enquanto isso há feridas que nunca cicatrizam
como um moleque que caminha incólume sob a chuva.
Há dias em que uma simples capa
não dá conta de esconder as nossas lágrimas.
Há dias em que eu sou apenas uma garota solitária
sentada na única mesa de um bar
assistindo idiotamente a um clipe do Bee Gees na TV.
Quase sempre a Rua Augusta é um lugar para as carapaças vazias
porque a vida é muita mais feia sobre os travesseiros.
A vida sangra
a vida verte inexoravelmente seu mijo quente sobre as nossas cabeças.
Na maior parte do tempo
eu sou aquela moça que ninguém nota
aquela uma
sozinha
hostil
embriagada
sonhando pontilhões que nunca se acabam.
Há dias em que a faixa branca no asfalto
é só uma armadilha.
Quase sempre somos atropelados.
Na maior parte do tempo
a gente segue carregando no bolso aquela última baga
a ponta de um infinito que não faz o menor sentido.
Luana Vignon
E a caneta bic da Luana Vignon continua afiadíssima. Só tenho uma coisa a dizer: você é foda, guria.
ABRUTALHADOS
Chove torrencialmente
mas um cara tira cuidadosamente o lixo pra fora
e um outro vem do inferno
pra acender seu cigarro fuleiro na mesa mais triste do boteco.
enquanto isso há feridas que nunca cicatrizam
como um moleque que caminha incólume sob a chuva.
Há dias em que uma simples capa
não dá conta de esconder as nossas lágrimas.
Há dias em que eu sou apenas uma garota solitária
sentada na única mesa de um bar
assistindo idiotamente a um clipe do Bee Gees na TV.
Quase sempre a Rua Augusta é um lugar para as carapaças vazias
porque a vida é muita mais feia sobre os travesseiros.
A vida sangra
a vida verte inexoravelmente seu mijo quente sobre as nossas cabeças.
Na maior parte do tempo
eu sou aquela moça que ninguém nota
aquela uma
sozinha
hostil
embriagada
sonhando pontilhões que nunca se acabam.
Há dias em que a faixa branca no asfalto
é só uma armadilha.
Quase sempre somos atropelados.
Na maior parte do tempo
a gente segue carregando no bolso aquela última baga
a ponta de um infinito que não faz o menor sentido.
Luana Vignon
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Meu amigo Douglas Kim está com um novo blog (nem tão novo assim, mas eu, com a minha lentidão, descobri só agora) que vale a pena ser visitado pela precisão dos posts (que já existia no blog anterior). Fora que ele escreveu uma coisa sobre mim que me deixou vermelho, no bom sentido da expressão. Valeu grande Kim.
"Um ser comum, desses que compra pão na padaria, deve ter parado em Drummond. Um ser um pouco menos comum, desses que come pão na padaria, deve ter parado em Leminski e Ana Cristina César. O ser incomum, desses que faz o próprio pão, deve apreciar o Alexandre França".
Douglas Kim
sábado, dezembro 02, 2006
enquanto
enquanto num velho toca-fitas
alguém coloca trouble man
do Marvin Gaye pra tocar
enquanto na via rápida
os carros, os pedestres e a garoa
fogem da polícia
enquanto num teatro do centro
um ator morre aplaudido
em cena
enquanto a minha pincher
de estimação se desespera
com a sua completa falta de visão
enquanto o bar da minha rua
ameaça fechar as portas
para o feriado
enquanto um casal de apaixonados
se separa com uma proposta
de casamento
enquanto alguém queima a língua
com a caneca de café fervendo
enquanto alguém queima a sobrancelha
acendendo um cigarro no fogão
enquanto alguém toma
o primeiro gole de cerveja do dia
do mês, do ano, da vida
enquanto eu digito um trabalho
de mil laudas que não é meu
enquanto eu digito imagens ao léu
eu paro cinco minutos
cinco minutos ao seu lado
sem querer
sem nem ao menos saber
quem você é
enquanto num velho toca-fitas
alguém coloca trouble man
do Marvin Gaye pra tocar
enquanto na via rápida
os carros, os pedestres e a garoa
fogem da polícia
enquanto num teatro do centro
um ator morre aplaudido
em cena
enquanto a minha pincher
de estimação se desespera
com a sua completa falta de visão
enquanto o bar da minha rua
ameaça fechar as portas
para o feriado
enquanto um casal de apaixonados
se separa com uma proposta
de casamento
enquanto alguém queima a língua
com a caneca de café fervendo
enquanto alguém queima a sobrancelha
acendendo um cigarro no fogão
enquanto alguém toma
o primeiro gole de cerveja do dia
do mês, do ano, da vida
enquanto eu digito um trabalho
de mil laudas que não é meu
enquanto eu digito imagens ao léu
eu paro cinco minutos
cinco minutos ao seu lado
sem querer
sem nem ao menos saber
quem você é
terça-feira, novembro 28, 2006
desolador e esclarecedor (versão final)
É desolador e esclarecedor
O cachorro roubando do velho
O resto da barra de cereal
A vontade de misturar bebidas
Para dizer umas verdades
A corrida de fórmula 1
Sem nenhum grave acidente
É desolador e esclarecedor
O dente roxo de vinho tinto
O dedo amarelo de nicotina
O vermelho daquilo
Que não é sangue
O azul daquilo
Que não é céu
O verde daquilo
Que não é mato.
É desolador e esclarecedor
O lacre do iogurte
Não abrir com um simples toque
Uma droga de um desenho animado
Não conter violência por ser educativo
Assistir esta droga
Só para conhecer o final
É desolador e esclarecedor
O resultado da loteria
O resultado de uma pesquisa no google
Sobre você mesmo
O resultado de um teste de gravidez
O resultado de um exame de vista
É desolador e esclarecedor
Reencontrar o amigo de infância
Que um dia o traiu
Reencontrar o primeiro amor
Que não sabe quem você é
E nunca irá saber
Reencontrar o primeiro livro
Que você leu na vida
O primeiro verso que mudou a sua vida
Mas que agora, estranhamente
Não faz tanta diferença
É desolador e esclarecedor
A tendinite do pianista
A amnésia de um poeta
O transtorno obsessivo
De conferir se a porta do banheiro
Esta realmente fechada
O prato cheio de uma anoréxica
É desolador e esclarecedor
Uma grávida chorando
Na fila do supermercado
Alguém chamando pelo pai
No meio de uma festa junkie
Uma senhora mostrando a foto dos netos
Hoje com mais de trinta anos.
É desolador e esclarecedor
O cachorro roubando do velho
O resto da barra de cereal
A vontade de misturar bebidas
Para dizer umas verdades
A corrida de fórmula 1
Sem nenhum grave acidente
É desolador e esclarecedor
O dente roxo de vinho tinto
O dedo amarelo de nicotina
O vermelho daquilo
Que não é sangue
O azul daquilo
Que não é céu
O verde daquilo
Que não é mato.
É desolador e esclarecedor
O lacre do iogurte
Não abrir com um simples toque
Uma droga de um desenho animado
Não conter violência por ser educativo
Assistir esta droga
Só para conhecer o final
É desolador e esclarecedor
O resultado da loteria
O resultado de uma pesquisa no google
Sobre você mesmo
O resultado de um teste de gravidez
O resultado de um exame de vista
É desolador e esclarecedor
Reencontrar o amigo de infância
Que um dia o traiu
Reencontrar o primeiro amor
Que não sabe quem você é
E nunca irá saber
Reencontrar o primeiro livro
Que você leu na vida
O primeiro verso que mudou a sua vida
Mas que agora, estranhamente
Não faz tanta diferença
É desolador e esclarecedor
A tendinite do pianista
A amnésia de um poeta
O transtorno obsessivo
De conferir se a porta do banheiro
Esta realmente fechada
O prato cheio de uma anoréxica
É desolador e esclarecedor
Uma grávida chorando
Na fila do supermercado
Alguém chamando pelo pai
No meio de uma festa junkie
Uma senhora mostrando a foto dos netos
Hoje com mais de trinta anos.
segunda-feira, novembro 27, 2006
Paris, Texas
revendo o clássico do Wim Wenders, me veio uma idéia para um poema. Havia esquecido como a Nastassja Kinski é bonita. Havia esquecido do rítmo desolador do roteiro. têm coisas que devem ser revisitadas todo ano.
atropelamento
(para Sam Shepard)
da janela uma luneta:
alguém procura uma lua,
uma estrela, um brilho
qualquer no quarto ou na rua.
na canaleta do expresso
um guri de bicicleta
abre os seus braços e grita
"sem as mãos" durante um metro.
ele me atropela ao ser
atropelado e eu durmo
acordado sem querer
e o cara da luneta
que me queria pelado
chora comigo um choro
bêbado e desgovernado.
revendo o clássico do Wim Wenders, me veio uma idéia para um poema. Havia esquecido como a Nastassja Kinski é bonita. Havia esquecido do rítmo desolador do roteiro. têm coisas que devem ser revisitadas todo ano.
atropelamento
(para Sam Shepard)
da janela uma luneta:
alguém procura uma lua,
uma estrela, um brilho
qualquer no quarto ou na rua.
na canaleta do expresso
um guri de bicicleta
abre os seus braços e grita
"sem as mãos" durante um metro.
ele me atropela ao ser
atropelado e eu durmo
acordado sem querer
e o cara da luneta
que me queria pelado
chora comigo um choro
bêbado e desgovernado.
sábado, novembro 25, 2006
Lindsey Rocha
E ontem tive o prazer de ouvir na voz da própria Lindsey os poemas do seu livro "Nervuras do silêncio". Muito bom mesmo. Sem dúvida, este é um dos grandes livros de poemas da cidade. Só que o que eu mais gostei no livro foi a dedicatória completamente poética que a Lindsey fez pra mim. Valeu guria! Saiba que você ganhou um amigo.
Dedicatória da Lindsey
A você,
Alexandre,
pelo silêncio precioso
que permeia as novas
amizades.
beijos
Lindsey Rocha
24/11/06
quinta-feira, novembro 23, 2006
Legião Urbana
Da sacada vejo quieto
Um bando de adolescentes
Com um violão tocando alto
Coisas da Legião Urbana
E daqui eu me pergunto
Sobre a condição humana
Exercícios de linguagem
Idéias pra quem reclama
Será que eles me entendem
Sussurrando um mantra sujo
Rogando praga no escuro
Será que eles entendem que
Estou parado bem no fluxo
De pessoas inocentes
Atirando
para todos os lados?
Da sacada vejo quieto
Um bando de adolescentes
Com um violão tocando alto
Coisas da Legião Urbana
E daqui eu me pergunto
Sobre a condição humana
Exercícios de linguagem
Idéias pra quem reclama
Será que eles me entendem
Sussurrando um mantra sujo
Rogando praga no escuro
Será que eles entendem que
Estou parado bem no fluxo
De pessoas inocentes
Atirando
para todos os lados?
sexta-feira, novembro 17, 2006
Do tipo que se apaixona pela mais cobiçada do colégio.
Não consegui segurar: chorei no final. E no final eu não queria segurar mais lágrima alguma, por que se eu segurasse, era capaz de transbordar no fígado e no estômago a fúria daquele texto (muito embora, eu tenha bebido todas depois, sem misturar é claro). Eu falo de “Homens, Santos e Desertores” do Mario Bortolloto . Tive que disfarçar o olho vermelho, antes de dar um “oi” para o Marcelo e para o Marião depois do espetáculo. Explico.
Esta é uma peça que nos joga na cara o “inferno” do mundo contemporâneo e que ao mesmo tempo nos sussurra ao pé do ouvido “se não agüenta, por que veio?” Dois personagens: um alcoólatra já sem esperança alguma e um jovem sem perspectiva. Os dois travam uma batalha de nervos, destilando uma série de outros personagens podres e completamente desajustados. É a mãe que dá para todo o bairro, o pai que fugiu de casa, o padre pedófilo, o padre alcoólatra, o “bombadinho” descerebrado do colégio (que pode, neste exato instante, estar comendo a sua mãe), a mãe que se mata com um tiro. Enfim, toda uma galeria de figuras bizarras e dolorosamente humanas a esbarrar sem pena na frágil sensibilidade dos dois coadjuvantes. Mas se o mundo não é isto, um grande freak show humano com lanças de aço apontadas para as nossas cabeças, o que é então? Um conto de fadas? Um final feliz? Não.
É justamente neste ponto que a peça mais me tocou – não existe saída. O mundo é assim e enfrente-o sem autopiedade, sem se fazer de coitadinho, sem se acomodar na futilidade prazerosa que a artificialidade nos impõe dia após dia. E o Marião nos joga isto na cara durante toda a peça (entende por que eu saí meio atormentado depois?). Ele fala sobre alcançar o posto de “santidade”, ou seja, se assumir um excluído e dar a cara pra bater neste mundão velho de guerra. Não adianta se iludir: as pessoas não são do jeito que você pensa e ninguém vai passar a mão na sua cabeça quando a corda apertar no pescoço. Aliás, você não é mais um adolescente, vestido com uma camiseta do Metallica, como todos os outros "coleguinhas" da sua idade...
...O que? Você discorda? Ah, então você é do tipo que ainda se apaixona pela mais cobiçada do colégio, é isto? Só tenho uma coisa pra dizer para dizer pra você: veja, não só uma, como duas vezes "Homens, Santos e Desertores".
HOMENS, SANTOS E DESERTORES
Texto : Mário Bortolotto
Direção : Fernanda D´Umbra
Com Mário Bortolotto e Gabriel Pinheiro
No Auditório Glauco Flores de Sá Brito (Mini-Auditório do Teatro Guaíra)
Quinta a Sábado : 21h
Domingo : 20h
Ingressos : R$ 20,00
R$ 10,00 (Estudantes, Aposentados e Classe Teatral)
Não consegui segurar: chorei no final. E no final eu não queria segurar mais lágrima alguma, por que se eu segurasse, era capaz de transbordar no fígado e no estômago a fúria daquele texto (muito embora, eu tenha bebido todas depois, sem misturar é claro). Eu falo de “Homens, Santos e Desertores” do Mario Bortolloto . Tive que disfarçar o olho vermelho, antes de dar um “oi” para o Marcelo e para o Marião depois do espetáculo. Explico.
Esta é uma peça que nos joga na cara o “inferno” do mundo contemporâneo e que ao mesmo tempo nos sussurra ao pé do ouvido “se não agüenta, por que veio?” Dois personagens: um alcoólatra já sem esperança alguma e um jovem sem perspectiva. Os dois travam uma batalha de nervos, destilando uma série de outros personagens podres e completamente desajustados. É a mãe que dá para todo o bairro, o pai que fugiu de casa, o padre pedófilo, o padre alcoólatra, o “bombadinho” descerebrado do colégio (que pode, neste exato instante, estar comendo a sua mãe), a mãe que se mata com um tiro. Enfim, toda uma galeria de figuras bizarras e dolorosamente humanas a esbarrar sem pena na frágil sensibilidade dos dois coadjuvantes. Mas se o mundo não é isto, um grande freak show humano com lanças de aço apontadas para as nossas cabeças, o que é então? Um conto de fadas? Um final feliz? Não.
É justamente neste ponto que a peça mais me tocou – não existe saída. O mundo é assim e enfrente-o sem autopiedade, sem se fazer de coitadinho, sem se acomodar na futilidade prazerosa que a artificialidade nos impõe dia após dia. E o Marião nos joga isto na cara durante toda a peça (entende por que eu saí meio atormentado depois?). Ele fala sobre alcançar o posto de “santidade”, ou seja, se assumir um excluído e dar a cara pra bater neste mundão velho de guerra. Não adianta se iludir: as pessoas não são do jeito que você pensa e ninguém vai passar a mão na sua cabeça quando a corda apertar no pescoço. Aliás, você não é mais um adolescente, vestido com uma camiseta do Metallica, como todos os outros "coleguinhas" da sua idade...
...O que? Você discorda? Ah, então você é do tipo que ainda se apaixona pela mais cobiçada do colégio, é isto? Só tenho uma coisa pra dizer para dizer pra você: veja, não só uma, como duas vezes "Homens, Santos e Desertores".
HOMENS, SANTOS E DESERTORES
Texto : Mário Bortolotto
Direção : Fernanda D´Umbra
Com Mário Bortolotto e Gabriel Pinheiro
No Auditório Glauco Flores de Sá Brito (Mini-Auditório do Teatro Guaíra)
Quinta a Sábado : 21h
Domingo : 20h
Ingressos : R$ 20,00
R$ 10,00 (Estudantes, Aposentados e Classe Teatral)
quinta-feira, novembro 16, 2006
O poeta Rodolfo Jaruga teve a idéia de juntar os poetas aqui da nossa cidade para que eles exercitassem à sério a forma do soneto. Vários deles já estão participando (Rodrigo Madeira, Jaques Brand, Paulo Bearzoti...). O resultado disto você encontra no site Sonetos Curitibanos. Eu já estou preparando alguns sonetos para mandar pra lá. Fora isto, Jaruga também me dedicou este belo poema de cair o queixo. Valeu Rodolfo!
PAISAGEM FRANCA
Para Alexandre França
Caminha a multidão coesa, sem
pressa, pela rua xv. As cinzas
espessas da garoa eterna cobrem
a minha roupa exausta. Um pouco antes
que anoiteça, quando os olhos não lêem
as entrelinhas da vida, porém
advinham a morte nos vultos que
atravessam a rua, resoluto,
eu saco o meu revólver inquieto
do casaco e aos ares prendo fogo.
Os vultos se desesperam e fogem
num tumulto semelhante ao de meu
polaco peito. Mas o vazio segue
insepulto e ninguém vem me acalmar.
Rodolfo Jaruga
Curitiba, 15 de novembro de 2006.
terça-feira, novembro 14, 2006
Texto do Leprevost que estará no meu site
Numa bosta de luau promovido por garotinhos cagões
Não é que ele só queira escrever umas canções tristes. O fato é que ele só consegue fazer dessa maneira, com tristeza. Sei que ele era a fim de dar porrada num bando de play-boys babacas que freqüentavam o cursinho pré-vestibular do Colégio Positivo. Sei do desprezo dele pelas patys que circulam ali pelo Shopping Cristal. Então é por isso que ele derruba a munheca naquele violão. Por isso e porque ele adora a noite curitibana com toda sua neblina característica, com todas aquelas pessoas vestidas com sobretudo preto bebendo vinho Campo Largo e fazendo merda no calçadão do Largo da Ordem. Só que o cara não é tosco, ele estudou música clássica, ele estudou violão com o maestro Waltel Branco, caralho, não foi qualquer um que teve esse privilégio. Só que mesmo assim ele prefere enfiar a porrada naquele violão, o mesmo que presenciei uma vez voar e passar raspando por uma fogueira igualmente nervosa numa bosta de luau promovido por garotinhos cagões lá na praia do Condomínio Atami. Naquele dia o maluco vomitou sangue, literalmente, e a partir de então minha má influência havia tomado conta da sua vida. Quer saber? Foda-se. Com toda areia e outras tantas sujeiras ele continuou tocando aquele violão desesperado. Meses depois o violão continuava comprometido, saía areia de tudo que é lugar. Acho que aquele violão nunca mais foi limpo, acho que ninguém teve a manha de passar um paninho nele. Porra, tô querendo dizer o seguinte: Que bom que o violão do França foi sujo por muito tempo. Que bom que a voz dele é uma voz meio estragada já naturalmente e piorada com maços de Malboro e garrafas de conhaque. Foi você, Bróder, que me ensinou que a solidão não mata, só dá a idéia. Isso bem antes do teu disco existir. O que posso dizer? Teu álbum é belo e triste, belo porque triste. E quem quiser degustá-lo tem que saber que por trás duma estudada docilidade virá o veneno sinistro corroendo a garganta, incendiando a traquéia, revirando o estômago. E como resultado final, inevitavelmente sentirá os olhos nublarem.
Luiz Felipe Leprevost
Rio de Janeiro - Baixo Leblon
07/11/2006 - 00:28 horas
Numa bosta de luau promovido por garotinhos cagões
Não é que ele só queira escrever umas canções tristes. O fato é que ele só consegue fazer dessa maneira, com tristeza. Sei que ele era a fim de dar porrada num bando de play-boys babacas que freqüentavam o cursinho pré-vestibular do Colégio Positivo. Sei do desprezo dele pelas patys que circulam ali pelo Shopping Cristal. Então é por isso que ele derruba a munheca naquele violão. Por isso e porque ele adora a noite curitibana com toda sua neblina característica, com todas aquelas pessoas vestidas com sobretudo preto bebendo vinho Campo Largo e fazendo merda no calçadão do Largo da Ordem. Só que o cara não é tosco, ele estudou música clássica, ele estudou violão com o maestro Waltel Branco, caralho, não foi qualquer um que teve esse privilégio. Só que mesmo assim ele prefere enfiar a porrada naquele violão, o mesmo que presenciei uma vez voar e passar raspando por uma fogueira igualmente nervosa numa bosta de luau promovido por garotinhos cagões lá na praia do Condomínio Atami. Naquele dia o maluco vomitou sangue, literalmente, e a partir de então minha má influência havia tomado conta da sua vida. Quer saber? Foda-se. Com toda areia e outras tantas sujeiras ele continuou tocando aquele violão desesperado. Meses depois o violão continuava comprometido, saía areia de tudo que é lugar. Acho que aquele violão nunca mais foi limpo, acho que ninguém teve a manha de passar um paninho nele. Porra, tô querendo dizer o seguinte: Que bom que o violão do França foi sujo por muito tempo. Que bom que a voz dele é uma voz meio estragada já naturalmente e piorada com maços de Malboro e garrafas de conhaque. Foi você, Bróder, que me ensinou que a solidão não mata, só dá a idéia. Isso bem antes do teu disco existir. O que posso dizer? Teu álbum é belo e triste, belo porque triste. E quem quiser degustá-lo tem que saber que por trás duma estudada docilidade virá o veneno sinistro corroendo a garganta, incendiando a traquéia, revirando o estômago. E como resultado final, inevitavelmente sentirá os olhos nublarem.
Luiz Felipe Leprevost
Rio de Janeiro - Baixo Leblon
07/11/2006 - 00:28 horas
segunda-feira, novembro 13, 2006
Imperdível - Marcelo Montenegro amanhã no Wonka Bar
E amanhã, para quem gosta de poesia, o grande poeta Marcelo Montenegro estará apresentando o seu trabalho dentro do projeto "porão loquax", junto com Rubens K no baixo e Carlão na guitarra. O evento começa às 22:00 horas e como eu sempre digo, a minha sombra já está esperando a poesia do Marcelo lá no Wonka bar (rua trajano reis, 326). APAREÇAM
sexta-feira, novembro 10, 2006
Leprevost no Rio
Para o pessoal aqui de Curitiba que está com saudades do mamute mutante mais querido das redondezas da Cruz Machado, aqui vai um vídeo do Leprevost detotando um clássico dos iconoclastinhas: "variação bipolar do humor" (que também está no cd "a solidão não mata, dá idéia" que será lançado em breve)
Variação bipolar do humor
(Luiz Felipe Leprevost/ Alexandre França)
Do alto do Corcovado
O Cristo se atirou
Rachou a cara no asfalto
Aliviado sangrou
Não era fé que ele tinha
Não era nem pela paz
Também não era amor
- então o que ele tinha?
Variação bipolar do humor.
Picharam que ele era bicha
No altar de pedra sabão, irmão
Era uma rixa antiga
Entre o pecado e o perdão.
Para o pessoal aqui de Curitiba que está com saudades do mamute mutante mais querido das redondezas da Cruz Machado, aqui vai um vídeo do Leprevost detotando um clássico dos iconoclastinhas: "variação bipolar do humor" (que também está no cd "a solidão não mata, dá idéia" que será lançado em breve)
Variação bipolar do humor
(Luiz Felipe Leprevost/ Alexandre França)
Do alto do Corcovado
O Cristo se atirou
Rachou a cara no asfalto
Aliviado sangrou
Não era fé que ele tinha
Não era nem pela paz
Também não era amor
- então o que ele tinha?
Variação bipolar do humor.
Picharam que ele era bicha
No altar de pedra sabão, irmão
Era uma rixa antiga
Entre o pecado e o perdão.
quinta-feira, novembro 09, 2006
pirraça
estou com uma vontade
de dar uns tiros no ar
para acalmar a multidão
e me embrenhar no seu colo
babando mágoa de criança
e de me arrastar pelo seus pêlos
fazendo gestos obscenos
para os que ficam para trás.
uma vontade de enfileirar
todos os suicidas que pretendem se atirar
de um prédio e me divertir
empurrando um por um
ou melhor, me divertir dando motivos suficientes
para que eles finalmente pulem.
uma vontade de voltar a dar tiros no ar
mesmo não havendo mais multidão
só para que alguém me acalme.
estou com uma vontade
de dar uns tiros no ar
para acalmar a multidão
e me embrenhar no seu colo
babando mágoa de criança
e de me arrastar pelo seus pêlos
fazendo gestos obscenos
para os que ficam para trás.
uma vontade de enfileirar
todos os suicidas que pretendem se atirar
de um prédio e me divertir
empurrando um por um
ou melhor, me divertir dando motivos suficientes
para que eles finalmente pulem.
uma vontade de voltar a dar tiros no ar
mesmo não havendo mais multidão
só para que alguém me acalme.
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