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terça-feira, março 06, 2007

Minha primeira parceria com a Claudete.

Ela lá (para a atriz Lala Schneider)

Ela se foi dormindo
Sem saber da sua morte vindo
Carregando os nossos sonhos
Ela dormiu sem saber que morria

Se entregou ao sono
Que a noite trouxe de consolo
Com a mesa de jantar
Comentou que o céu estrelava

Falar sobre estrela é difícil
Como é difícil o amor
Bate uma vontade irresistível
De juntar tanto afeto à dor
Mas um coração sempre sorrindo
Mesmo numa oração de luto
É a pulsação de uma platéia
Que de longe vê o azul do mundo

Lala se foi dormindo
Sem saber da sua morte e vida
Carregando os nossos sonhos
Ela dormiu sem saber que nascia

Alexandre França e Claudete Pereira Jorge

segunda-feira, março 05, 2007

Contratempo

Edições.

A idéia que mais me acalma:
Lançar uma nova edição
Dessa mesma velha alma.

Rayanne

Quer mais? Então entre no http://meucontratempo.blogspot.com/

domingo, março 04, 2007

Acordei um pouco violento

Transbordo a espuma dos assuntos
Fazendo a cabeça com cerveja quente
Amargamente importada
Em promoção na loja dos vícios
Pequeno-burgueses de sempre
Aqui, mandando socialmente
Para o porão do descrédito
Todas as partituras das canções
Que eu não toquei
Que não beijei e não vivi
Até que a morte os separe
Com o Lombardi de fundo
Ofertando um televisor de 24 polegadas
Ou a possibilidade imbecil
De ser milionário ou a possibilidade remota
De felicidade ou a possibilidade prática
De mudar o canal, de destruir a televisão
De montar uma coleção de discos de vinil
E de mandar o mundo calar a boca
Com um tiro de escopeta na tela

sábado, março 03, 2007

NÃO ESQUEÇAM!!!


quinta-feira, março 01, 2007

E por falar em show do Chico em abril, uma amostra do calibre poético do grande cancioneiro.

Tempo e Artista

Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela

Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso

Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta

Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito

No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito

Chico Buarque

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

...e ontem no bar do Torto

Uma poesia em parceria com o mais novo parceiro, o Língua. Thadeu W também entrou na brincadeira.

Promoção e pramocinha

Não esqueça do Quartzolit
Lembre-se daquilo que te impossibilite
Não dê uma de socialite
Quando você é uma socialaite
Eu tive um insight
Ao acender o pavio da dinamite
O TNT tava em promoção nas Casas Bahia
E você vai explodir antes de mim, vadia
Quero ver você na esquina
Toda briga de amor
É uma boa razão para uma chacina

França, Língua e Thadeu

sábado, fevereiro 24, 2007

para chamar a atenção (versão final)

Não sei se foi para chamar a atenção
você com uma margarida de plástico
com aquele enorme olho amarelo
chapado com a cabeça caída para
o lado.
não sei se foi para chamar a atenção
um zippo sem gás, com a pedra gasta
uma triste metáfora de algo
que já não é mais
tipo uma panela vazia em fogo baixo.
não sei se foi para chamar a atenção
mas pelo menos na minha frente
você esqueceu de roer as unhas
e de contar moedas de cinco centavos
na iminência de dividir a conta
em duas partes exatamente iguais.
Não sei se foi para chamar a atenção
mas você deixou largada na cadeira
a sua bolsa
com uma foto 3x4 minha
no fundo falso da carteira.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Porta-retrato

Fósforo aceso na madrugada
Uma carta de adeus queimada
Calada mais de uma vez
Por dia
Flores perdendo o tempo
De serem dadas, envelhecendo
Nas cinzas que a tarde fez
Da vida
Pétala a pétala, conto todas as pétalas
Arrancadas da rosa que eu guardei
No armário
Uma lembrança do mar de espinhos
Que a chuva tempestuosa da despedida detém
Num raio
O apartamento que abandonei
Toda a mobília que não usei
Como sumir do porta-retratos
Que você guarda na sua mesa
Mas o dia amanheceu
O dia amanheceu
Amanhecer o dia me faz muito bem.

Octávio Camargo, Alexandre França e Thadeu Wojciechowski

terça-feira, fevereiro 13, 2007

meio-dia

Sono
Ao meio-dia
Ninguém vai me acordar
Nem balde de água fria
Ao meio-dia
Ninguém vai me ouvir roncar
Nem toda a bibliografia
Do meio-dia
Conseguiu me explicar
O inverno de Curitiba
Ao meio-dia
Um senhor tentou matar
O tédio com aspirina
Ao meio-dia
Minha voz sumiu no ar
De toda a coreografia
Do meio-dia
Num segundo de amar
Daquela anatomia
Do meio-dia
Uma chuva de chorar
Vestia de preto o dia
Ao meio-dia
Ninguém vai me acordar

quinta-feira, fevereiro 08, 2007


terça-feira, fevereiro 06, 2007

Porão Loquax - Rodrigo Madeira

IMPERDÍVEL
Terça, dia 13 de fevereiro

Porão Loquax com Rodrigo Madeira, o vencedor do Concurso de Poesias Helena Kolody, categoria Paraná. Rodrigo estará apresentando, no Wonka Bar (que fica na Trajano Reis 326) os poemas que compõe o próximo lançamento Sol sem Pálpebras, com lançamento previsto para abril.
entrada R$1,99

Às vezes o tempo dá umas boas risadas da nossa cara. Digo isto pelo imenso prazer de escrever sobre o livro do poeta Rodrigo Madeira. Poxa tempo, eu é que deveria pedir ao Rodrigo para escrever qualquer impressão sobre algum poema meu! Já que é ele quem faz a poesia que pode nascer “menino Jesus” ou “bebê de rosemary”. Ele que, ainda criança, matou o Leminski no bar Stuart, numa tarde cinzenta desta cidade de chumbo chamada Curitiba. Ele que entende tão bem o gosto das damas da noite na boate Gato Preto, sentindo um sabor ácido de bateria usada na ponta da língua. Ele que fala sobre um amor que nunca ouvirá as suas palavras, mas que ainda sim subsiste “no fundo do peito, no canto da razão, no canteiro de pêlos”. Digo isto sem exagero nenhum e mais: o ritmo cortado e denso dos poemas parece sussurrar significados em minha cabeça, como se aqueles versos fossem as últimas palavras de um doente terminal, de alguma tarde fria da nossa tímida terra “e muitos de vós nunca se abriram, dominicais, em programas de auditório”. Há poemas ainda que provocam uma espécie de “ressaca moral”, um soco no estômago rompendo artérias de realidade, como no poema “favela”: “cedinho, três cadáveres assistem à televisão”.É por estas e por muitas outras (que o leitor terá o prazer de conferir) que o tempo é mesmo um sacana: no final do livro, Rodrigo ainda dá uma lição aos muitos candidatos a gênio da literatura, que infestam o intestino da nossa cultura: “eu não escrevo para ficar, meu amor, escrevo para ir embora”. O tempo, Rodrigo, que agora ri da nossa cara, sem dúvida o entende.

sábado, fevereiro 03, 2007

água de beber

O alcoólatra é uma máquina
De desiludir a si mesmo
E toda droga mais ou menos
Que atravessa a sua vida
É uma luz de brilho negro
Que ofusca a sua mania
De beber e chorar pra dentro
De olhar e acompanhar o óbvio
De dormir e sonhar com medo
Da sobriedade, este feto
Encolhido no peito
Entupido de não-me-toques

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Sim, o Vinícius era mestre

chega uma hora que esse tipo de música faz bastante a diferença quando se quer entender certas pessoas.


Canto de Ossanha

Vinicius de Moraes / Baden Powell


O homem que diz "dou" não dá

Porque quem dá mesmo não diz

O homem que diz "vou" não vai

Porque quando foi já não quis

O homem que diz "sou" não é

Porque quem é mesmo é "não sou"

O homem que diz "estou" não está

Porque ninguém está quando quer

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Improviso





Ela vem solando uma
Guitarra Stratosonic Gianini
Eu já com uns quarenta anos
Ela ainda com os cabelos em movimento
Eu bebendo um rabo-de-galo
À beira-mar do asfalto
Ela me estendendo a mão
Sussurrando em alto e bom som
“você me perdoa?”
Eu , já sem esperança , entrego
Cerimoniosamente, o meu último
Bem de valor
Uma Gibson Les Paul
Com a corda mi estourada

terça-feira, janeiro 23, 2007


Voltando ao tempo das armas brancas (depois de ler a capa de uma tribuna e lembrar daquela cena do corredor de sangue)

Um cheiro de borracha queimada
E enxofre num quarto pós-morte
O pai declara num último gole
De saliva e lábios moles:
“você não é profunda só
por que o seu mapa astral disse”
“você é incapaz de me entender”
Retruca a filha retorcendo
A velha tramontina enferrujada
Na barriga do velho bêbado
Os paramédicos do inferno
Aplaudem o espocar de uma
Chandon de sangue, enquanto
As carpideiras recolhem os trocados
De algum circo de horrores

quinta-feira, janeiro 18, 2007


foto: Mert Alas e Marcus Diggott

Natalie Portman

até pensei em dar um beijo na sua foto
como se fosse a sua testa, ou o pé
de uma santa padroeira de
alguma cidade seca e deserta
onde a coca-cola é vendida a dez reais a lata
e a água, quando vem, deságua através de reza
pensei numa barra de chocolate com
as frutas cítricas arrancadas e o açúcar
cristalizado derretendo na ponta dos meus dedos
pensei em cortar a luz da cidade
para que a procissão de velas nos apartamentos
soprasse a meia-luz que a sua imagem merece
entoando velhas cantigas de ninar
parodiando com o seu nome, com o seu corpo
todo o verso que falasse a respeito de “sonhar com os anjos”
por que os barulhos de pratos raspados, copos cica
e toalhas no piso do banheiro me irritam a medida
que sinto na temperatura elevada do meu corpo
a escuridão que a falta de embriagues provoca
em um homem que sabe, por acordar
sempre após ao meio-dia,
que a beleza de uma mulher só é explícita
quando a maquiagem está nitidamente borrada.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Paulo de Tharso

Na primeira viagem que fiz pra sampa com o Leprevost nós conhecemos um dos caras mais figuras de todos os tempos: o Paulo de Tharso, grande xadrinista e vocalista de rock. Descobri no blog do Mario Borttoloto que o cara, além de ser uma grande figura da Roosevelt, é poeta também e dos bons. Grande Paulo.

Minha Alma Pequena

Eu só queria ficar em paz.
Deitado, sob a sombra da árvore que eu não plantei.
Acariciando os cabelos da cabeça do filho que eu não fiz, e que estaria repousando sobre o meu peito.
Eu só queria dormir pra sempre.
À beira de um riacho, sob a sombra de um pessegueiro.
Sonhar com a Abissínia, mas voltar ao Egito de onde eu nunca deveria ter saído.
Eu só queria fazer uma revolução.
E matar todos os opressores da Palestina, de Israel, dos E.U.A, e matar os caras encapuzados da K.K.K
Eu queria traficar armas e drogas para abastecer de dólares e Euros todas as revoluções da África e do Cone Sul.
Eu queria ter ido para a Nicarágua, trabalhar nos campos e fazer guerrilha, quando aquela puta francesa me abandonou só, no Vidigal. Tinha um anúncio no jornal, pedindo voluntários. Mas eu tinha um show na semana seguinte, e não fui.
Eu queria ficar quieto, em um canto, chorando baixinho, escutando Cartola, bebendo até morrer.
Aprender a falar com os animais, como fazia Yan, um húngaro que foi caseiro no sítio de minha avó. Quando a tarde despencava, ele estalava a língua e balbuciava qualquer coisa, fazendo com que as galinhas voltassem para o poleiro.
Depois, eu evoluiria e aprenderia a falar com as plantas e com as pedras.
E depois.... Eu juro, me calaria para sempre.

Eu só queria um pouco de alegria
E continuar desafiando a polícia e apedrejar suas viaturas, como fiz outro dia. Só pra me lembrar.
E ir pra Havana beber rum ordinário e pedir ao Pedro Gutiérrez que me apresentasse àquelas mulatas, que bebem e trepam o tempo todo. Sem culpa.
Eu só queria um pouco de poesia negra num prato de Cachopa.

E não ter que me levantar todos os dias.
Pra não ter que encarar o sol podre e tentar me convencer de que tudo vale a pena.
Não vale! E minha alma não é pequena. Meu coração é que está apertado.
E não ler nunca mais os jornais, para constatar o que eu já sei desde meus 10 anos.
De que o mundo não tem jeito. De que tudo é uma brincadeira sem graça do criador.
Eu só queria que deixassem em paz, essa Terra. Essa puta com olhos abstratos, que continua germinando plantas e flores delicadas.

Paulo de Tharso

segunda-feira, janeiro 15, 2007

voltando pra Curitiba

então guria
é exatamente esta impressão:
delicado como um cigarro
aceso na garoa
ou como a Bruna Beber
rasgando o sulfite
ao escrever com uma bic
sem tinta

um chaveiro roubado do Mickey
perdido num porta moedas
um pedaço de bolacha Maria
boiando no leite desnatado

é como dar um tchau
pra alguém que não o reconheceu
é como matar uma mosca
com a ponta de uma tachinha
é igual a falar "eu te amo"
em troca de alguns trocados
a mais.

terça-feira, janeiro 09, 2007

eu velho

Me imagino um velhinho
sozinho decorando pequenos gracejos
que eu falaria na porta de um destes
cafés do centro.
Com uma dispensa cheia de velhas bebidas
todas elas me deixando ainda mais velho
com uma sala de estar vazia
a me deixar ainda mais só
como um objeto de decoração ultrapassado.
me imagino um velhinho
contando a idade como se fosse pontos
de uma competição onde se ganha
aquele que morre mais cedo.
citação do mês

"Não precisamos de gênio, o gênio está morto. Precisamos de mãos fortes, de mentes dispostas a desistir do fantasma e criar carne".

Henry Miller (Trópico de câncer)

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